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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Poema tirado de um poema de Manu Bandeira


Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

Manuel Bandeira

Passarinho de bico e peito encarnadíssimos
pousou aqui na minha janela.
Olhou-me enfarado, perscrutando a varanda
em que só eu escrevia -
deu por falta de alguém que lhe pudesse dar nome.

Olhou-me nos olhos, como se suplicasse:
Me chame Tiê-Sangue, ainda que eu não o seja
Grite "olha, um Sabiá-de-peito-vermelho"
embora não haja registro dessa espécie
Constitua-me em ser vivente,
Dê-me nome e existência,
identidade, mesmo que passageira,
neste mundo virado de pernas pro ar.

Não lhe dei nome científico nem alcunha popular -
éramos iguais:
sem registro de precedentes em lugar algum,
irreconhecíveis, sem nomes que se nos deem.

Tivemos um ao outro por um átimo de minuto:
ele registrou-me na memória,
eu registrei-o nestes versos
e somos, agora, um a prova da existência do outro
porque não havia nesta varanda, em que escrevo sozinho,
quem nos desse nome ou apelido.

Fitamo-nos ainda um instante,
antes que ele voasse pra mais nunca
e voltássemos ao desaparecimento absoluto,
que, por mais doído que seja,
nos faz anônimos únicos de beleza esquiva.

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