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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tubarão e o agora



Tubarão ouvira na rua: havia um cachorro em um país distante, cujos homens moravam na praça, como os cães, que ajudava os bons humanos a mudar o mundo. Certamente tratava-se de um cachorro louco, era o que se comentava pelas ruas, nos cantos em que os cachorros dormem todos acumulados, esquentando-se uns aos outros, amaldiçoando os homens, seres ignorantes e arrogantes. Havia histórias: de lugares em que os cachorros eram presos e mortos, se não fossem resgatados por algum humano; de homens que viviam como cachorros, puxando suas próprias casas, em que não havia diferenças entre animais e homens, todos dormindo juntos e cuidando uns dos outros, felizes, à exceção do cheiro do humano, difícil de suportar; de casas que não se moviam, com alguns cachorros, felizes porque não tinham de batalhar pela carne de cada dia, deprimidos porque não gozavam de liberdade. Havia histórias.

Mas cada cachorro acredita no que tem diante dos olhos - só o hoje interessa a um cão. Muitos dos que viviam na rua garganteavam a condição de ambulantes sem destino, mas sentiam falta dos homens que lhes davam carinho e comida; outros acabavam morrendo de saudades - esses eram os mais tristes, achava Tubarão, os rabos metidos entre as pernas, farejando um recanto que fosse à cata da chance de reencontrar o humano querido - mas que muitas vezes havia abandonado o próprio cão. Outros morriam ao lado dos donos, estes enlouquecidos, aqueles sempre vigilantes - não há nada mais triste para um cão do que um homem indefeso. Tubarão - nome que lhe fora dado pelo único humano a que se afeiçoara, um já velhinho, chamado Fabiano - não podia acreditar que houvesse donos que abandonassem seus cães. Mas ao descobrir que aquele senhorzinho que tanto o acarinhava havia matado a própria cachorra, em tempos distantes, procurou a primeira fresta do portão e largou-se na rua - tudo seria melhor do que morrer pelas mãos de um humano, sobretudo aquele do qual se espera carinho.

Para Tubarão, só havia o agora - e ele percebera a fascinação dos humanos pelo aparelho de TV, pela sensação de estar em outro lugar e em outro tempo, sintoma claro da limitação sensorial dos homens. Havia especialmente os jogos em que os homens corriam atrás da bolinha; por esses, os humanos ficavam especialmente enfeitiçados, os olhos brancos, sem pensar em nada, gritando tanto que Tubarão implorava que parassem: era apenas uma bolinha, todo cachorro sabia que a bolinha era apenas uma brincadeira, exceto os que acabavam por humanizar-se - pior coisa que poderia acontecer a um cão.

Foi um dia na rua quando percebeu que os homens caminhavam eufóricos - era o cheiro de álcool que os caracterizava nessas horas - rumo a algum lugar, e seguiu-os. Era o de sempre, alguns dos homens faziam-lhe festinha, outros espantavam-no com "chiça", "corre" e "passa", alguns não o olhavam. Percebeu a imensidão do lugar a que se dirigiam os homens e aproveitando-se da indiferença humana, entrou no que lhe parecia um templo de celebração da bolinha. Os restos de comida no chão encheram-lhe suficientemente a barriga para que pudesse decidir com plena clareza: era hora de os homens saberem que os cachorros eram mais importantes do que o jogo de bolinha; que jogar bolinha não era tudo na vida, havia outras coisas pra fazer - que cuidar dos cães pode ser uma forma melhor de os homens viverem suas vidas vazias, isso Tubarão descobrira em conversa com um Homem de que emanava muita luz muita! Soubera que os homens tinham vidas sem sentido, coitados; não sabiam que não havia mais passado, a não ser em suas mentes, e que o futuro pouco interessa - e que se deve viver o hoje. O Homem de muita luz muita! dissera, Tubarão, o homem precisa dos cachorros: outros como você já tiveram sua história escrita, vá às ruas e conte sua história aos homens.

Mas como contar aos homens, se são eles os animais menos inteligentes de todos, que só conseguem expressar-se por meio de signos, o que é um atraso, já que nenhum cachorro precisa de palavras pra dizer o que sente? Você entenderá quando for sua vez, Tubarão.

E foi naquele dia: era hora de acabar com o jogo de bolinha. Entrou em campo e correu: suspeitava que os homens o maltratariam, que seria machucado, talvez morto, como contavam as histórias dos cachorros mais velhos. Não se importava: porque depois de tantas aventuras nas ruas, tantos desgostos, tantas decepções, tantas descobertas depois de conversar com o Homem de muita luz muita!, depois de tudo isso, Tubarão decidiu mostrar o mais simples para os homens - é possível viver sem correr atrás da bolinha, porque, às vezes, como ela é bonita, a gente se deixa enganar e achar que ela tem vida, e tem de ser possuída, e tem de tê-la para ter felicidade. Tubarão conhecia histórias escabrosas de cachorros que se apaixonavam por bolinhas, e cobriam-nas; será que a bolinha tinha um feitiço assim tão grande a ponto de fazer gritarem os homens com tanta força quanto gritavam quando faziam amor? E se vissem as próprias mulheres como bolinhas, só uma coisa sem vida que se deve possuir? Não, não estava certo: Tubarão sabia que ele, as mulheres e os homens tinham vida, não as bolinhas. Era hora de um basta.

E correu, sem direção, sem bolinha, à procura de nada, simplesmente correu, como se dissesse aos homens que era bom correr por correr - corre-se porque se pode, caso contrário, andaríamos, e se não fosse possível não faríamos nada. Mas poderíamos sempre brincar uns com os outros - Tubarão não sabia explicar, mas sabia que os homens se fascinavam pela possibilidade de brincar por brincar, sem ter que ganhar uns dos outros, simplesmente porque eram seres inferiores, incapazes de fazer alguma coisa sem disputar espaço, sem aniquilar um ao outro, por isso se encantavam ao ver a falta completa de objetividade. Foi chamado pelo homem de verde, que se agachou: Tubarão não lhe deu bola, queria brincar mais, sabia que era portador de todas as mazelas e de todas as maravilhas, Você talvez morra se mostrar aos homens o que eles não sabem fazer, avisou-lhe o Homem de luz muita luz! Agora chamou-o o homem de vermelho: fugiu! E se lhe quisesse mal o homem de vermelho? Ah! Um homem que sabia brincar trouxe-lhe um saco também vermelho, mas abandonou o campo: os homens não sabem mesmo viver. Pra brincar tem de ser todo mundo junto, num espação cheio de verde! E voltou.

Interrompeu a corrida e entendeu: os homens registravam por escrito a invasão. Eles não estavam entendendo nada. Tubarão queria que todos abandonassem os papéis, as palavras sem sentido, as obrigações de acumular, objetivar e aniquilar e que desfrutassem da grama, da corrida, do prazer de desconhecer o sentido e de ativar os sentidos, e entregá-lo e entregá-los aos Homens de luz muita luz!, que são eles que cuidam dos homens, dos bichos e das plantas. Mas os homens não entendem, e são bichos perigosos.Quando se joga na cara deles o vazio de suas vidas, exatamente porque não sabem aproveitar o que elas têm  de mais simples - brincar sem bolinha, sem contar pontos, sem ter de ganhar - todos se juntam pra massacrar aquele que lhes mostrou o vazio. Corre já daí, Tubarão: recado dado, se continuar daqui a pouco eles te trucidam, foi o que gritou o Homem de luz muita luz!

Tubarão saiu e se abancou, para receber uns agrados: recado dado. Agora é correr pra fora do templo, voltar à vida simples atrás de comida pra comer. 

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