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sábado, 1 de outubro de 2011

A reclusão extrema

Quanto menos somos, melhor passamos, dizia uma professora minha das antigas, de que tenho saudades. Gente demais causa confusão demais, e não estou pra barulho. Muitos me chamarão intolerante - o que é certamente verdade, mas sempre insisto na ideia de que pra tolerar preciso ser tolerado. Coisa rara. Meti-me numa igreja, onde escrevo estas palavras - ninguém vai se aproximar de mim aqui, parecerei o fiel que se conecta à internet e que ora por meios novos, fazendo da tecnologia um instrumento da fé. Não me importo mais. Só quero estar só. Faço cara grave, de quem tem problemas de saúde, meus ou de minha família, não interessa; visto preto: deve ser luto aos olhos alheios. Só quero estar só. O silêncio. Que falta eu sinto do silêncio.

Mas não me livro a cara não: sou eu mesmo que tenho aversão às pessoas e às coisas novas, assumo que o problema está em mim - e que o desfrute alheio me enoja. Melhor seria ficar só, absolutamente só, à sombra de uma árvore, com alguma fonte de água por perto, pra me molhar de vez em quando, no calor. Uma cadeira para ler, confortável, no mesmo jardim, mas em local mais abrigado, no frio, para que eu pudesse ler em paz, comer pouco e rápido, dormir cedo. Pouca gente no trabalho, que tem de ser perto de casa, pra poder ir a pé, sem pegar trânsito, e voltar rapidamente. Molhar as plantas e acariciar os animais. Bons livros pra ler: posso conversar infinitamente com Machado de Assis, José Cardoso Pires, Marx e seus amigos, Guimarães Rosa; Clarice, essa não tem jeito: vou acabar cantando, proporei casamento, viveremos noites a fio discutindo parágrafos à toa, que serão o gozo infinito dos nossos encontros mais ardentes. Com Mário de Andrade vou trocar cartas, porque ele é tão recluso quanto eu; Eça vai me chamar pra jantar, mas eu não vou; Pessoa vai me chamar pra beber, mas ele não vai: quem vai aparecer é o Álvaro de Campos, mas com ele não quero papo, porque ele é muito deprê.

Eu preciso de silêncio. Ao meu lado, um pequeno grupo de senhoras reza a ave-maria: uma delas puxa o começo, as outras continuam a partir da metade, da "Santa Maria, Mãe de Deus". É um terço: a líder sugere que se reze para todos os doentes em todos os hospitais. Agora mais um mistério, pelos miseráveis. Se eu tivesse coragem de lhes falar, pediria que rezassem uma só ave-maria pelos misantropos. Irrita-me a alegria alheia pelo futebol; o devaneio coletivo do gol me soa exageração de um vazio, que tem de se ampliar até mim, invadir-me, contagiar-me. Rejeito. Irrita-me a face serena dos recém-saídos da Igreja, aliviados pela oração, dispostos a tudo depois da dose de fé. Rejeito. Soam-me falsas as reuniões de família, os encontros de amigos, as reuniões de trabalho, os happy-hours no botequim da esquina. Nada me diz respeito, tudo me é alheio - perdem o sentido todas as tarefas meio-completas do passado. Invejo, com a pior das invejas, a alegria dos fãs de futebol, o abraço sincero de quem me deseja feliz natal ou feliz ano-novo, a leveza de quem passeia pelo shopping sem pensar em nada, a facilidade com que se esquece o mundo circundante em benefício de si mesmo, o egoísmo mais puro dos networkings. Nem por isso me considero altruísta: encastelei-me na reclusão mais extrema de mim, abafei os sismos todos que me abalam, como as lágrimas que verti ontem.

Eu preciso de silêncio. Mas uma freira me convida a olhar alguma relíquia que está no altar da pequena igreja - oportunidade única, diz ela. Digo que já lá vou, mas não vou - quero ficar sozinho, odeio que me peguem no braço, não há motivo para me convidar, não temos nada em comum, a freira e eu. Lá dentro, outras irmãs oram, e a ladainha me faz bem aos ouvidos - deve haver algum sentido numa vida de fé, basta haver fé. Ainda que seja o conforto da oração e da meditação que leva, no fundo, a não pensar em nada. Como eu queria poder não pensar em nada, como eu queria poder acreditar nas pessoas.

Mas uma criança entrou na Igreja. Rompe o silêncio, entre uma oração e outra, rompe a gravidade da oração. É uma criança, e às crianças tudo se perdoa. A menina circula por entre as cadeiras, não entende a lógica dos genuflexórios, puxa os vestidos das irmãs, senta-se, quer cantar com elas, impacienta-se por não saber a letra, mas enrola esticando as vogais, volta a andar, circula pelo altar, observa severamente a imagem do homem preso à cruz; parece enternecida, mas as irmãs voltaram a orar, as fiéis, que sorriam à pequena, voltam a observar a imagem no altar, a criança perde a importância. Ela se dá conta de que não é mais o centro das atenções, e se conforma. Desvio o olhar dela, não quero que se aproxime, faço cara de mau, não lhe aceno, nem pisco, nem sorrio. Rapidamente a pequena se dá conta de que não há nada ali para ela e abandona a exploração da igrejinha: vai ao jardim, à cata de outras curiosidades, que a façam rir por uns instantes, na esperança fácil de que haverá outra depois, e mais outra, numa leveza que não posso alcançar.         

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