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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Reconciliação

Eu não sabia, mas meu pai e Drummond nasceram no mesmo dia.

31 de outubro é data complicada: em algumas culturas, especialmente nas de origem céltica, mais especialmente em Portugal e na Galiza, comemora-se nesse dia o fim do verão - advento de dias mais escuros. Dia de despedida. Limites do extremo norte de Portugal, cidade quase na Galiza: origens do meu pai. A proximidade com o dia dos mortos faz desta época do ano um período, para os que creem, de razoável agitação no transcendente - de reflexos evidentes no mundo material. É tempo de mortos, afinal. Tempo de passagem. Eu, que não cuido do mundo espiritual, posto não lhe negue a existência, e que também não cuido do mundo material, por mais que faça parte dele, vivo tentando fugir destes acasos que a vida me põe: o nome Carlos - nome amaldiçoado, para Drummond - me foi dado por meu pai no dia 21 de março, também este um dia de virada, o fim do verão, mas desta vez no hemisfério sul. Meu pai e eu, idênticos e opostos nos nascimentos - fim dos períodos de luz, mas de espaços trocados, como se recontássemos a história oficial ou reencenássemos uma tragédia clássica: Laios e Édipo, Esaú e Jacó, João e Pedro, Pedro e Paulo, pais ou irmãos, não importa, em eterna luta de morte - um o espelho do outro, um o estranho do outro.

Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse aos ouvidos de meu pai: chame-o de Carlos, para que seja gauche na vida, seu antípoda, por mais que vocês sejam iguais. Meu pai, o escolhido; eu, o interdito; meu pai, o proprietário patriarcal na passagem da modernidade; eu, arremedo de poeta de esquerda, numa terra e num tempo em transe. Ambos agora: ele isolado na canoa da terceira margem, branco feito cera; eu em perspectiva sempre agonizante, frequentando museus de grandes novidades. Corre nas veias - as minhas ou as dele? - um colóide, meio sangue, meio leite, em chiaroscuro, sempre meu pai à cata da iluminação que me faltava - eu que lhe criticava a classe e as roupas -, sempre eu à cata da ilustração que imaginava faltar-lhe. Ele me apresentava Lacerda, eu lhe respondia com Prestes, se não fosse Lamarca.

E trocamos olhares, ele no leito de morte, eu sem meio de vida - era ele a degradação física repleta de espírito, era eu o vazio completo cheio de energia perdida, em nosso eterno desencontro. Não tínhamos nada a dizer um ao outro. Cada passo dado por ele rumo à escuridão iluminava a minha trilha, ele em travessia ao transcendente pleno de luz, eu a passeio pelo mundo afoito de obscuridade, os mineiros todos ecoando. Eu arrogante lhe dera Rosa - e ele rira, porque trilhara as veredas com Zé Bebelo e Quelemém, se não fosse ele próprio um deles.

Que estou dizendo? Não conheci meu pai, nem me dei a conhecê-lo. Meu pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo. Eu sou falimento puro, fratura semântica, homem por fazer: vivo da expectativa da herança de conhecer-lhe a luz, de libertar-me, como ele se libertou, do ocaso do dia em que nasceu, do dia em que nascemos: o fim do verão, o advento dos dias escuros, o tempo dos mortos. Meu pai: agora o sorriso, vestia branco, num dia em que sonhamos com ele, minha mãe e eu, sem combinar.

Reverto o que fui: estou afeito à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. Não consumo mais entorpecentes, nem redijo cartas de suicida. Dia 31 de outubro, neste hemisfério, é dia de renovação, meu pai fez assim - experimentou a claridade do que é real. Sigo-lhe os passos. O tempo presente, os homens presentes, a vida presente, a memória dele presente: a celebração, os presentes.              

2 comentários :

Francisca disse...

sem palavras,só sentindo...sem folego...parabéns pelo passo/texto

gabi disse...

que texto lindo e triste.