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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Travessia errática sobre escombros

para Jair Naves

Observo silencioso os escombros que sobraram aqui no fundo
(a construção ficou sempre pela metade
ou foi destruída pelo tempo, que passou
e não deixou que florescessem
cômodos organizados, mobiliados -
com jeito de lar)

Para todo escombro há destinação possível:
os restos de casas antigas podem redecorar uma outra parte
ainda que pequena, da casa nova;
os móveis rotos podem ser reformados,
investidos e revestidos de outras estampas;
os eletrônicos podem ir para a reciclagem,
os elétricos talvez se transformem
em decoração cult como é esta vitrola;
os mecânicos podem compor peças de museu
repleto de novidades e de clichês pop art;
os livros não ficam velhos: só amarelecem,
eu é que os leio de outro jeito,
ou os ponho de lado: não há mais que fazer com eles.

Num canto intertempo e extraespaço, contudo,
está lá o escombro inédito e interdito, talvez o maior deles:
a falta.
Ali habitam os mortos todos que enterrei
(o avô em pele e osso,
o pai ofegante,
o mestre do coração)
as mortes todas que me impus
todos os pactos que fiz com deus e o diabo
o Liso do Suçuarão interminavelmente imaginário e fictício
Travessia errática sobre escombros:
o vazio é árido, infértil e fétido.

Brotou apenas esta flor feia
no meio do caos travestido de vida intelectual -
ela não tem cor, nem organização, nem simetria;
é flor do pântano dum quintal abandonado,
coberto de escombros afetivos
e concreto armado de argumentos
sem fundamento.

Observo silencioso os escombros que sobraram aqui no fundo:
tudo é frágil, tudo é falta.

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