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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Barreiros

Do anedotário de uma senhora carioca, que conversava com os amigos em um quiosque à beira da praia do Leblon

O homem fazia vasos de barro, da mesma forma que o pai e o avô – e provavelmente o pai e o avô de seu avô também o faziam, da mesma forma. Esse pequeno resquício de subsistência, ocupação e arte resistira aos séculos, à chegada das fábricas que produziam e produzem cada vez mais vasos em massa, seja lá o que isso quer dizer: se era em massa, poderia ser de barro? O homem insistia que não: barro era o que lhe dava o nome e o traço da família, atávico, perdido para a maioria das pessoas, mas não para ele.

E produzir os vasos parecia uma grande brincadeira – assim os pais haviam convencido os filhos a persistir na subsistência familiar, por tantas gerações. E o homem ouvia, ainda pequeno, os professores dizendo que aquela ocupação não prestava, fosse porque era atrasada, fosse porque não passava de coisa de criança. Mas não se importava: chegava da escola, largava régua, compasso, livros e cadernos ainda na porta da casa e ingressava no ateliê do pai, que já estava lambuzado da matéria primeva usada para dar forma e cor – espécie de feiticeiro ou alquimista do barro, que assumia o traço dos dedos, as curvas das mãos, a articulação dos cotovelos, o dobrar dos joelhos e a celeridade dos pés, tudo pra ganhar vida num vaso novo. Depois de saídos do forno, os vasos se investiam de cores misteriosas que o criançola sequer supunha existir. E brincava, experimentando as partes do corpo no suporte em que girava o barro ainda quase coloide: estado intermediário das coisas, estado intermediário da mente – o menino-ainda-nem-homem sorria festivo os próprios erros.

Mas faltava alma ao olhar do pai. Tinha na face a sombra vazia que afugentava o sorriso do menino. Não que não se apaixonasse pelo trabalho, assim seja, porque esta é uma história inventada nas categorias do real: mas paixão não basta. Ou de outro jeito: mesmo a tempestade de homem acaba serenando um dia – as dores insuportáveis, elas sempre vencem. Não que o velho tratasse mal o rapazinho: só não dava às lições a leveza de quem joga bola com os filhos no parque. Mesmo as bolhas de sabão pareciam pesar nos olhos do pai – nem nos tracinhos de reflexos que elas traziam ele se deixava levar.

Foi numa tarde de chuva miúda. O homem-em-menino chegou ensolarado cantando que tinha agora uma namorada, a menina mais bonita da escola, e que faria um vaso pra ela. Que o pai separasse a melhor matéria: era dia de fazer o pai dos vasos – e podia existir essa categoria, se não fosse com base nos vasos todos já vistos? o pai perguntou, preparando o terreno para a rasteira que viria, chegara o dia do salto. Os vasos que se haviam perdido no meio do processo de criação, e os que deram certo mas ficaram feios, e os que ficaram bonitos mas foram vendidos barato porque era ano de crise – todos os fogos e toda a terra se concentrariam no forno de modo que o vaso-pai, o vaso-categoria acontecesse.

E foi uma volta do sol obscurecido pelas nuvens na preparação – e o homem-quase-feito caprichava, e dava ao vaso os detalhes de si mesmo: as imperfeições que tinha pelo corpo, todas, ele demarcou na superfície do vaso, e as cores todas que conhecia ele testou – eram expressões dos olhos, cabelos, seios, pernas, pés e partes todas dela, o nem-casal em representação singela de amor inocente. Mas foi num horário aziago, bem me lembro, de virada de um dia pro outro, que o menino-homem entreviu – todo vaso compõe um vazio, que o homem pode circunscrever com as curvas mais bonitas, as partes mais nobres de si; pode doar-se em carne, pele e pelos, rarefazendo a si próprio nos detalhes que escapam à namorada mais sensível; pode combinar as cores mais bonitas em representação sublime da mulher, para além das frequências que o olho pode captar – tanta beleza carrega no seio o vazio, que não cabe a nós preencher, o pai do barreiro declarou, os olhos marejados de lágrimas.

Agora o menino era homem-feito. E entreviu num átimo – fagulha que fustiga uma faceta obscura da obra para dar-lhe cor e traço – os vazios todos que haviam ficado para trás, e os que ele próprio ainda acabaria por criar. Quis ficar com o vaso – já intuía que a namorada daria ao presente a destinação que bem entendesse: ou cultivaria ali uma planta bonita, em muda que outro regaria; ou enfeitaria com a peça um canto da sala da casa em que viveria com outro homem; ou doaria a tralha a alguém; ou se desfaria do presente de mau gosto, porque nenhum dos barreiros frequentava galerias de arte, nem tinha o apetite das vernissages.

As lágrimas corriam o rosto do pai – era hora de descansar –, que também agora entendia tudo ou mais: repleto pela primeira vez, desde uma tarde, há anos, esboçou um sorriso enquanto limpava sossegadamente as mãos e se despedia do ateliê, das ferramentas, do vazio. O filho faria vasos de barro, primeiro para subsistência, depois por pura ocupação, finalmente pela arte de gastar o tempo brincando com o próprio filho.

2 comentários :

Anônimo disse...

Que lindo!!!!!!

Gabriel Gomez disse...

Muito bonito, Rogério!
Parabéns, cara!