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domingo, 6 de novembro de 2011

Este palhaço



Receio que você diga no seu filme que o palhaço desapareceu. Não, Senhor Fellini, o palhaço não desapareceu: é que as pessoas não sabem mais rir. Mas o mundo ainda precisaria rir com o palhaço.  

Primeiro, a testa. Não sei por que sempre começo pela testa. Ela, que me conhecia bem, sempre dizia que dava pra perceber, mesmo na plateia, distante, quando, por trás da maquilagem, eu estava triste: era só olhar para minha testa franzida. Enquanto as crianças todas se divertiam, eu me roía em dores de cabeça, e meu senso de humor ficava mais ácido: as rasteiras que eu passava nos palhaços mais velhos ficavam mais violentas, os palhaços mais novos temiam trabalhar comigo. Eu era o filho do dono, o herdeiro, o palhaço promissor da modernidade, que renovara o circo em modelo de negócio.

No começo, entretanto, tudo era festa: eu era dos pouco palhaços que não nascera no próprio circo. Não era filho de trapezista com mulher-barbada: era só um órfão de pai, abandonado pela mãe, que ficara na roda dos enjeitados, mas que fora levado ao picadeiro por um palhaço bêbado, já velho - que me ensinou tudo. Brincávamos enquanto eu aprendia as técnicas, os detalhes, as mesuras que o fizeram famoso num mundo que já não existe mais. Os olhos, ele dizia, você tem de caprichar na pintura dos olhos, porque se estiver triste as crianças não podem perceber. Então escurece os olhos tanto quanto conseguir, porque cada criança que percebe um palhaço triste vira adulta na mesma hora. Elas entendem tudo: então escurece os olhos, Rudgero, para não deixar o mundo sem crianças, porque ele já é bastante feio assim.

E eu aceitava, e aprendia tudo: a cair sem me machucar; a andar como Chaplin, como se meu ritmo real fosse mais acelerado, em um filme mudo; a gargalhar com o corpo todo, fechando bem os olhos, fazendo as expressões exagerarem a sensação, combinarem com a máscara que eu usava: o nariz eu mesmo criei, foi essa a minha contribuição funesta para o mundo do circo; um nariz pontudo, que fazia algumas crianças chorarem. De início, não me importei: sempre havia alguns meninos e meninas que se apavoravam com a aparição súbita dos palhaços, mas aquele meu nariz tinha um efeito diferente: as crianças ou choravam, ou não riam, fascinadas, cegas pelo feitiço que o estranho nariz comprido causava. Tornou-se a minha marca registrada, hoje ganho royalties com a venda desse produto: é ele que me sustenta, não as aulas, nem o livro, nem o circo, que já não existe mais.

Não exagere na boca, dizia o meu pai - foi assim que chamei ao velho palhaço, no último dia de vida dele. Pai. Palhaço que fala demais perde a graça, ele me orientava. Mas pra mim era o que eu tinha de fazer: renovar o circo, que já começava a esvaziar-se, com um palhaço diferente, mais discursivo, menos pastelão. O palhaço quando fala muito fica sério demais, ele insistia. E estivemos juntos, no dia em que ele morreu, no número que ele mais apreciava: eu lhe tirava a cadeira, ele caía; ele me tirava a cadeira, eu caía, e assim por longos cinco minutos, entretendo cada vez menos crianças, os bichos domados escasseando por causa das associações de proteção dos animais. Não sei, me lembro pouco dessa época: a morte de meu pai me levou a herdar o circo todo, com todo o passivo trabalhista, as pressões pelos direitos dos animais, os pais politicamente corretos evitando levar os filhos ao circo, as crianças cada vez mais sérias, vendo cada vez menos graça nos números, falando alto com os palhaços, dizendo nomes feios a eles, hostilizando-os. Eu tinha apenas vinte e um anos.

Era preciso abrir o circo ao mundo, por mais que os mais velhos, amigos de meu pai, insistissem que tinha de haver o contrário. Eu abria o espetáculo com um discurso de cinco minutos, cheio de efeitos especiais, ameaças ao público infantil, apelando aos maiores medos das crianças modernas, os mesmos que eu tinha: aqueles que não estivessem atentos não ganhariam o brinde no final; o filho do domador de leões entrava em cena, aprisionado, implorando que alguém o libertasse do cativeiro, gritando pelos pais de forma tão convincente, que as crianças se calavam, apavoradas com a possibilidade de nunca mais voltarem para casa. Os pais adoravam, porque era um meio de as crianças se calarem. Pra obter mais efeito, contratei estudantes de engenharia para criar truques visuais que encantavam a platéia; no lugar da antiga banda marcial, usava um power trio instrumental, que dava a todos os espetáculos uma ambiência hardcore. Quando abandonei meu número, pra fazer apenas a abertura do espetáculo, já famoso como renovador do circo, vestia apenas o longo nariz e um terno sisudo - apenas a gravata de cor berrante me assemelhava a meus ancestrais. 

O sapato que uso agora é de marca, lustrado, comum, bem diferente dos sapatos longos, de bico arredondado cheio de bolinhas que meu pai usava. Os palhaços têm um bom tempo no meu espetáculo - exatamente dez minutos, mais de dez por cento de todo o show, que não pode passar de noventa, porque as crianças não aguentam mais do que isso, influenciadas pela duração dos desenhos de longa-metragem. Os atores usam o nariz comprido que patenteei, num número que explora o lado obscuro dos palhaços, à moda de Brinquedo Assassino; nenhum deles usa maquilagem nos olhos, pois as crianças já chegam adultas ao circo, desaprenderam a rir dos palhaços e de si mesmas, como eu também. Hoje leciono a disciplina "Empreendendo em Mercados Tradicionais: Tradição e Inovação" em escolas de administração de empresas, onde aproveito para vender minha autobiografia, que também rende um bom dinheiro.

Quando volto para casa, ainda guardo o hábito de lavar o rosto antes de dormir, como se tirasse a maquiagem, primeiro a testa, depois os olhos, então a boca; tenho a impressão de que a fantasia me pesa demais e dispo-me lento, sem deixar de me encarar no espelho, como fazia ao final dos espetáculos, quando meu pai ainda era vivo. Tiro os sapatos apertados, mas não me alivio: cada vez mais experimento a mesma dor de cabeça lacerante; engulo os analgésicos e deito-me sozinho: ela me abandonou porque perdi a capacidade de rirmos juntos, como fazíamos no começo.                

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