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domingo, 25 de dezembro de 2011

A menina e o maluco

Nestes poucos dias de férias, tenho divido o tempo entre cuidar das plantas e dos animais, ler bastante, sempre com alguma utilidade, mesmo que algo distante, para a vida acadêmica, dormir à larga e assistir ao House. Preparando um artigo sobre o Quincas Borba, tive de reler o livro de John Gledson, Machado de Assis: Ficção e História, e, ao fazê-lo, dei-me conta de que não havia lido a Casa Velha, de Machado. Foi desse romance esquecido da maturidade - assim o chama Gledson - que extraí o fragmento a seguir. Lalau é a mocinha do romance, única que se apieda de um escravo louco:

O sineiro era um preto velho e doido. Não fazia mais que tocar o sino da capela, para a missa, aos domingos. O resto do tempo vivia calado ou resmungando. Ninguém lhe falava, embora fosse manso. Lalau era a única, entre todos, parentes, agregados ou fâmulos, que ia conversar com ele, interrogá-lo, escutá-lo, pedir-lhe histórias. E ele contava-lhe histórias — muito compridas, sem sentido algumas, outras quase sem nexo, reminiscências vagas e embrulhadas, ou sugestões do delírio.

Era curioso vê-los. Lalau perdia a inquietação; ficava séria e tranqüila, durante dez, quinze, vinte minutos, a escutá-lo. O Gira (nunca lhe conheci outro nome) alegrava-se ao vê-la. Com a razão, perdera a convivência dos mais. Vivia entregue aos pensamentos solitários, mergulhado na inconsciência e na solidão. A moça representava aos olhos dele alguma coisa mais do que uma simples criatura, era a sociedade humana, e uma sombra de sombra da consciência antiga. Ela, que o sentia, dava-lhe essa curta emersão do abismo, e uma ou duas vezes por semana ia conversar com ele.

A imagem me doeu muito: conheci e conheço alguns Giras, cuja função é pouco mais ou menos que tocar o sino aos domingos. Mesmo eu não sei se presto pra muito mais que tocar meus sinos, duas ou três vezes por semana, em algumas sala de aula. Também minhas histórias, que pouquíssimas pessoas ouvem, são longas, sem sentido, quase sem nexo - mas nunca ultrapassam os dez minutos. Há mais duas diferenças entre mim e o Gira, além da curta duração de meus relatos: a primeira é que perdi a convivência com a maioria das pessoas exatamente depois de alcançar alguma razão, ainda que infundada em termos científicos - já não se pode dizer, portanto, que seja razão, mas apenas que está em mãos que não vejo e que não são as minhas; a segunda ficará ainda mais obscura do que a primeira: emergi também do abismo, mas sem moça que mediasse meu olhar e a sociedade humana. Esta, olhei-a com os olhos que estiveram anuviados a vida toda, mas finalmente esfreguei-os e vi a tragédia da humanidade, e a minha própria.

Foi então que resolvi cuidar só do que posso: de mim, sem vaidades; dos entes próximos, em especial de meu sobrinho, que acaba de ingressar no mundo; das plantas e dos animais, que nada tem que ver com as maldades dos homens. No mais, leio bastante, escrevo os impropérios que me cabem, durmo tanto quanto possível e cumpro as funções profissionais da melhor maneira que aprendi, sem prejuízo de meus alunos, de meus empregadores e de mim mesmo. O mais é ficar calado ou resmungando, entregue a pensamentos solitários, mergulhado na consciência mais crua e na solidão, em sugestões de realidade. Não atrapalho ninguém: já é alguma coisa.

5 comentários :

Sofia disse...

Aposto que a moça, certamente vaidosa, trocaria todas as palhativas riquezas por um carinho ou um cuidado de um louco. Dizem que só estes é que sabem do amor.

Rogério Duarte disse...

Sofia: há vaidades que são intransponíveis, há quem não aceite amores de loucos.

Não digo mais nada porque uma sua homônima botou louco um professor - basta ler o Quincas Borbas para verificar. O homem terminou a vida abraçado a um cão, seu último fiel amigo. É já o que me acontece.

fernanda disse...

Só os loucos para transpor as barreiras do amor dos vaidosos.

Mia disse...

Quem sabe a moça também não é um pouco louca e, por isso, entende a loucura alheia...

Rogério Duarte disse...

Fernanda: e a maravilha está toda aí, não está?

Mia: tomara que assim seja.