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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Progressistas e reacionários: como a Volver incomodou o senso-comum

Abaixo, fragmento do meu texto que foi publicado no site da banda Volver, a propósito da canção "Mangue Beatle", que também pode ser ouvida a seguir.

Mangue Beatle - VOLVER by volver-brasil

Parece que a experiência brasileira tem dessas: todas as propostas progressistas de renovação acabam assimiladas pelas mais arcaicas, de conservação, em todos os planos, especialmente no da cultura. Cazuza dizia que via “o futuro repetir o passado” e que via “um museu de grandes novidades”. A banda baiana Camisa de Vênus relatou, na canção “Passamos por isso”, que os produtores de uma gravadora tentaram convencer os integrantes a mudar o nome do conjunto porque era preciso “conservar as raízes” e porque o nome Camisa de Vênus era “alienação”. O poeta Paulo Martins, narrador agonizante de Terra em Transe, obra-prima de Glauber Rocha, dizia em versos que “Ao passo que vamos, recuamos”. Em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector – outra artista radicada em Recife, também ela alvo de ataques por não ter produzido “obra engajada” –, o narrador Rodrigo SM, apesar de assumir o “direito ao grito”, sabe que sua obra é escrita “sob o patrocínio do refrigerante mais popular do mundo” e que nem por isso lhe paga nada. Em suma: parece que, sendo brasileiros, experimentamos, em todas as instâncias, a sensação de que os maiores avanços são também os maiores recuos (nossa história está cheia de episódios assim), e que ficamos de mãos atadas quando queremos, de fato, avançar.

É rigorosamente essa a experiência registrada em “Mangue Beatle”, da Volver.

Acho que, com esse texto, me meti em uma briga de gente grande. Aguardemos as reações - que talvez não ocorram. Sabe-se lá: aqui é o Brasil, terra onde aquilo que não há, acontece, pra tomar palavras a Guimarães Rosa.

A versão do texto disponível no site da Volver é curta; vou publicar, nos próximos dias, a versão estendida do texto, no blog da Identidade Musical.

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