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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Como nascem os palhaços

Quando nasci, o anjo da sombra me predestinou a levar a escuridão comigo. E assim sempre foi: quando meus pais brigavam, meu irmão mais velho me protegia, não me deixava olhar o que nosso pai fazia com mamãe. Nosso pai, esse, nunca foi homem cumpridor, ordeiro, positivo: era o próprio demônio, talvez fosse ele o anjo da sombra que me predestinara a carregar o mal comigo. Meu irmão, esse sim, era menino de luz. Já falei: ele cuidava de mim, me levava pra escola cantando, a mão dada na minha quando atravessávamos a rua num bairro distante de classe média baixa. Mas não importava: ele transformava o barro das ruas em festa, pulava as poças, transformava as dificuldades em jogos que eu-menino gostava de jogar. Esse meu irmão: o anjo de luz que na escola me tirava das enrascadas em que eu me metia, me salvava dos garotos maiores que queriam me bater. Meu irmão sangrava por mim, de modo que fui pegando gosto em vê-lo sofrer pela família. Era um gosto duvidoso, de criança-demônio já botando corpo. E ele não se importava, e me dizia que eu era bom menino, por isso cuidava de mim. Era pra eu estudar, ler os livros, fazer as tarefas, participar do teatrinho da escola - eu tinha talento, ele dizia, eu seria ator de cinema, seria um herói que não deixaria as crianças serem maltratadas, cuidaria de todas elas, pra nenhuma nunca mais sofrer.

Eu aceitei essa predestinação - e já maior fiz o papel de que meu irmão se orgulhou muito. Me lembro como se fosse hoje mesmo: eu tinha treze anos, ele dezessete, estava pra acabar a escola, e planejava com minha mãe irmos os três embora, sonho nosso, pra casa de minha tia, pra longe de meu pai. Tínhamos aguentado pancada a vida toda, mas meu irmão tinha contido meu pai à força na última briga. Não lhe havia dado um soco sequer - havia apenas segurado o velho, já consumido de tanta maldade e cachaça. O brabo tinha dormido embriagado no sofá e acordara na ressaca, logo cedo, com meu irmão dizendo que naquela noite eu representaria o Carlitos no teatro da escola. O homem acedeu com a tosse gutural dos bêbados amanhecidos sem o repouso, no intervalo dos pesadelos que eles vivem quando dormem - eu bem sei.

Já à noite, da coxia, eu podia ver minha família na plateia: meu irmão era mesmo o rei do público, bem-quisto de amigos e das meninas, todas o cercavam, que era um gosto quase nauseante de ver os brilhos dele - eu tinha essa inveja da felicidade alheia. Minha imobilidade, minha dependência de meu irmão. Minhã mãe, os olhos brancos de remédio e de suportar as brutalidades do pai de seus filhos; meu pai, os olhos de fogo - era certo que ele já tinha bebido, eu sabia quando. Meu irmão já o advertira que não estragasse o espetáculo, era claro, o homem olhava pra baixo.

E pra roubar a cena, eu emprestei ao Carlitos os meus trejeitos todos, deficientes da personagem que não mais existe. Os olhos maquilados ganharam uma expressão mórbida, de palhaço de filme de terror; ao figurino roto dei certas cores cujo todo ganhava um ar autoirônico e autodestrutivo; a bengala ganhou traços realistas, e passou de objeto de humor a ponto de apoio de um aleijão sarcástico - não havia mais finalidade de graça naquela personagem, que gozava os horrores e as deformidades, as fraquezas e os crespos do homem. O público aprovou-me a encenação num estranho frêmito, entre o aplauso e o horror, como se pais e filhos ali presentes subvertessem por meio de mim os preceitos clássicos do teatrinho de escola. Ali era lugar e hora de surgir tal criatura viciosa?

Em casa, meu pai comemorava a atuação do filho com Bravos! e Vivas! e mais um gole, que deu a meu irmão também, chamando-o maior de idade, já adulto, o bigode e a barba grossa tomado-lhe a cara. E nem percebemos o sonho ruim que voltaria a nos tomar a vida real: antes de meu irmão poder notar o ardil de que era vítima, meu pai deu-lhe à cabeça com a bengala que eu usara na peça, uma duas três vezes, o sangue escorria à larga. Chamou-o ironicamente de homem de araque, ah! moleque de merda, enquanto o amarrava, agora é que vai ver o que é ser homem, e meu pai feriu minha mãe com a faca, abriu-lhe o talho no rosto, depois estripou-a, o ventre todo em aberto, o útero seco jazia a um canto - e o velho sorria, olhando-me, como se esperasse que eu o contivesse, mas não pude fazer nada. Meu irmão teve os extremos da boca cortados até à orelha, para que sorrisse, disse meu pai, veja seu irmão mais novo como sorri enquanto lhe faço sorrir, moleque fujão filho-da-grande-puta que já está aqui morta, aonde vão, hein? aonde vão? Mas eu juro que não sorria, tinha era horror àquele espetáculo que me imobilizava.

Quando nasci, o anjo da sombra me predestinou a levar a escuridão comigo. E assim sempre foi: meu pai foragiu-se, até hoje não mais o encontraram, deve ter-se perdido nalguma outra cidade, não há justiça em bairros como o nosso. Enterrei minha mãe sozinho, porque meu irmão ainda se recuperava dos cortes que sofrera por minha causa - eu deveria tê-lo ajudado, deveria ter enfrentado meu pai. Meu falimento: a culpa da internação psiquiátrica de meu irmão é toda minha. Vi-o apenas duas vezes, uma no ambulatório, o rosto repleto de costuras, ele apenas balbuciava; na outra, já atormentado, para meu terror, meu irmão vestia do figurino que usei na peça, colorido, a maquilagem sombria, a expressão perdida, as frases desconexas de tempo ou espaço, sem saber a quem volver o ódio, e o medo, e a confusão completa. Perguntou-me por que eu tinha a expressão tão séria, chamando a si próprio palhaço, que fazia sorrir em qualquer situação. Deixei-o pra trás, nunca mais o vi, apavorado de ter suprimido a meu irmão todo o brilho que ele tinha. Minha tia abrigou-me e investiu em minha formação teatral, por meio da qual venho tentando fugir à predestinação maldita, à semelhança que todos dizem que tenho com meu pai. Mantive-me longe da bebida e das drogas e hoje ganho a vida como comediante num programa de sábado à noite na tv, levando aos lares a alegria que nunca pude ter no meu.




Even now
the world is bleedin'
but feelin' just fine
all alone in our castles
where we're always free to choose
never free enough to find
I wish somethin' would break
cuz we're runnin' out of time

and I am overcome (yeah)
I am overcome
holy water in my lungs
I am overcome

these women in the street pullin' out their hair
my master's in the yard
givin' light to the unaware
this plastic little place
is just a step amongst the stairs

and I am overcome (yeah)
I am overcome (baby)
holy water in my lungs (yeah)
I am overcome

so drive me out
out to that open field
turn the ignition off
and spin around
your help is here
but I'm parked in this open space
blockin' the gates of love

and I am overcome (yeah)
I am overcome (baby)
holy water in my lungs (yeah)
I am overcome (yeah, yeah)

I am overcome (oh Lord)
I am overcome (baby)
holy water in my lungs (holy water, holy water)
I am overcome

beautiful drowning
this beautiful drowning
this holy water
this holy water is in my lungs

and I am overcome
I am overcome (yeah, yeah)
I... I... I am overcome
I am overcome

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