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sábado, 28 de janeiro de 2012

O horror do mundo sou eu (ou muitos "de-vez-em-quando" compõem um "sempre")

Eu realmente gosto das manhãs de sábado em que posso ler notícias sem pressa. Mas não as leio nos jornalões - que abandonei faz tempo, já contei aqui. Vou blog a blog, página a página da internet, com pouca ou nenhuma folha de papel (hoje só assino a Caros Amigos e o Valor Econômico). Contar com o mundo digital e com fontes alternativas de informação é uma experiência maravilhosa, sobretudo para quem gosta mesmo de ler, como eu.

Mas a cada dia, aprendo que nem todo mundo quer ler. Durante muito tempo, julguei mal essas pessoas: eu acreditava que a única via para o esclarecimento era a aquisição de conhecimento teórico (na minha opinião, apenas o de teor materialista dialético e histórico) por meio da leitura, que levaria à prática, necessariamente carregada de engajamento político, em todas as atividades da vida. Pena: por mais que eu ainda acredite que esse procedimento é fundamental, não posso mais acreditar que ele seja a única via para o esclarecimento e o engajamento, por muitos motivos.

O primeiro deles é bem simples: há outras formas de adquirir conhecimento. Até onde posso observar, sem ser especialista, muito da sabedoria oriental tem por base o conhecimento difundido oralmente, da forma mais simples possível, por meio de alegorias e parábolas, para alcançar as abstrações. Mas atenção: a prática, no caso do conhecimento oriental, é parte da teoria, de modo complementar. Escrevo isso para evitar a facilidade com que lemos A Arte da Felicidade e não praticamos nas nossas vidas os ensinamentos que ali estão. Assim, concluo que cada pessoa assimilará o conhecimento profundo de diferentes maneiras - mas que este nosso tempo e a lógica de mercado em que vivemos se apropriam de discursos de longo alcance e os transformam em produto-mercadoria.

Além disso, me parece que o desenvolvimento de alguma espiritualidade também é um caminho para a aquisição de conhecimento. Não faço apologia de nenhuma instituição religiosa, claro esteja: só acredito que, do século XIX pra cá, especialmente, acentuou-se a desarmonia corpo-mente-espírito; que não estamos integrados à natureza - ao contrário, nós a dizimamos; e que damos atenção exagerada aos processos mentais, quando parece óbvio que eles, para funcionar adequadamente, precisam integrar-se aos processos espirituais e físicos. Corremos de esteira em esteira, de igreja em igreja, mas não nos damos conta de que precisamos dar início a um processo que parta de dentro pra fora.

Volto ao início do texto: gosto de adquirir na internet informações alternativas às veiculadas pela grande imprensa. Mas quem me dá algum norte e gume analítico não são as leituras que faço na web, mas nos livros de cabeceira, aqueles que me fundamentaram a leitura do mundo: por exemplo, o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, e "As ideias fora do lugar", de Schwarz. Só a leitura desses textos, entretanto, não serve pra nada, se eu próprio não me tornar agente de minha própria história, investigando-me no que tenho de pior, em termos pessoais, e nas ações aparentemente inofensivas que podem, no plano concreto da realidade, propagar práticas que, em última análise, prejudicam as pessoas e o mundo.

Um exemplo concreto, de coisas pequenas do trânsito: todos nós aceleramos no amarelo, fazemos conversões proibidas, paramos em cima da faixa de pedestres, não damos preferência a eles. Mas todos reclamamos, por exemplo, dos motoqueiros ou taxistas, que parecem cometer mais infrações do que o infrator comum. Pior: usamos o argumento de que "todo mundo faz errado" para fazermos também "mas só de vez em quando". Aí fodeu: o trânsito vai continuar violento mesmo, porque muitos "de-vez-em-quando" compõem um "sempre".

Escrevo isso para falar sobre mim, não para cagar regra na cabeça dos outros, nem para passar sermão via internet - por sorte, sou pouco lido, e muitos dos poucos me leem não terão paciência de chegar a este ponto do texto. Acontece que hoje celebro uma data pessoal que me ensinou, entre outras coisas, o seguinte: o trânsito violento sou eu. Eu é que faço o trânsito violento, dando-me certos descontos ("vou entrar na contramão só por cem metros", "vou parar em fila dupla só por dois minutinhos", "vou entrar com recurso contra uma multa que mereço só pra ver no que dá", "vou falar com meu tio que trabalha na prefeitura só pra ver se ele dá um jeito"). Eu é que faço a realidade ser a merda que ela é. O horror do mundo sou eu.

A mediação - entre, de um lado, o conhecimento adquirido por meio dos livros e da minha formação claramente marxista e, de outro, a ação concreta na realidade - parece estar na autoinvestigação (preferi essa palavra em vez de autoajuda, porque esta já tem cheiro de produto-mercadoria) que teve de passar, ao menos na minha experiência pessoal, pela espiritualidade. Não relato nada sobre isso - minha vida pessoal diz respeito exclusivamente a mim. Mas assevero que agora só acredito que outro mundo é possível (afirmação que não canso de repetir por aqui) por meio da alteração (mental e espiritual) do sujeito. Talvez só paremos de destruir a natureza e de desrespeitar os animais quando nosso modelo de felicidade estiver desligado do consumo desenfreado; talvez haja mais diálogo e menos violência se o modelo de felicidade estiver desligado da propriedade.

A internet é claramente um meio pelo qual se podem difundir, com maior alcance, novos modelos de felicidade. Mas é, ao mesmo tempo, um meio de fetichizar a suposta participação política (roubei do Walter Benjamin essa ideia, é claro). Em palavras bem simples: cada protesto no Facebook, cada "causa" nele criada, cada boicote ao BBB, à Globo, ou ao que quer que seja, pode nos dar a sensação de que atuamos concretamente na realidade, quando, de fato, estamos apenas atuando virtualmente - sem alterar nada no plano concreto. É fácil curtir uma causa, difícil é vivê-la, sem dar as mesmas desculpas e descontos que nos damos no trânsito; é fácil ser contra a exploração da mão de obra asiática, difícil é desligar-se dos hábitos de consumo que alimentam a roda da exploração; é fácil apregoar o uso da bicicleta nas cidades e o fim do consumo de carne animal no mundo, difícil (e chato, chamam-me sempre de chato e radical) é articular essas causas à lógica de mercado como um todo: e aí nos damos conta de que mesmo essas causas supostamente nobres respondem aos interesses de novas indústrias que perpetuam o modelo de felicidade associado ao consumo; é fácil escrever num blog que é preciso praticar a teoria, difícil mesmo é praticá-la no cotidiano.

Não concluo nada. Quando olho o mundo que consigo alcançar, tenho a percepção de que não falta força de vontade a mim e às pessoas, falta-nos a todos boa vontade para nos investigarmos integralmente, com honestidade. Deixamos de lado essa investigação, claro, porque ela é doída e nos mostra partes de nós que, evidentemente, não queremos ver - quem é que gosta de sacar que é parcialmente responsável pela tragédia que é o mundo atual? (Somos todos, disso não tenho dúvida). Quem é que gosta de sacar que é o horror do mundo e de si mesmo?

Mas o furacão que foi 2011 e a bomba que tem sido 2012 sinalizaram-me que o caminho talvez esteja, repito, na autoinvestigação, de modo a obter a percepção clara de mim mesmo, dos que me cercam e do mundo - este também lido na chave das leituras que desencantam o mundo, perscrutando os meandros e os procedimentos das ideologias (no sentido marxista, é evidente), alcançando os recônditos do sujeito - para que eu possa perceber-me ainda mais, para que possa (ou, pelo menos, tenteagir no sentido da democratização ("Se o socialismo fosse definível, seria definido como democracia sem fim", escreve o Boaventura de Sousa Santos) e da desmercadorização do mundo.

2 comentários :

Everton Pardal Soares disse...

Destrui toda a matrix, meu amigo, continue na luta, seguindo os textos daqui, abraço.

Rogério Duarte disse...

Saudades de você, Pardal!