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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Cinco anos d'O Jardim das Horas em São Paulo

Hoje faz cinco anos que o trio cearense O Jardim das Horas chegou a São Paulo. Sorte do público da cidade, que teve a chance de assistir aos espetáculos deles; sorte minha, que os conheci pouco depois que chegaram. Lembro-me do primeiro show da banda a que tive a chance de comparecer - no Tapas, seguido de um show do Sonso (também foi esse o dia em que conheci Daniel Groove, mas ele merece um post e uma data só pra ele, que ainda estou pra escolher qual seja). Como todo mundo que assiste ao show do Jardim pela primeira vez, encantei-me com a beleza da voz e da expressão de Laya Lopes; com a espécie de nirvana musical que Raphael Haluli experimenta quando está no palco; com a potência criativa de Carlos Gadelha - que, no palco, sempre parece emanar aquele ar dos grandes guitarristas. Fiquei impressionadíssimo, me lembro bem. Na semana seguinte, zarpei para Salvador, para participar de um congresso de Literatura Portuguesa, e a trilha sonora da viagem foi O Jardim das Horas. Amanhecia, entardecia e anoitecia com o Jardim.

Mas se fosse para escrever sobre as canções do Jardim, do ponto de vista técnico, eu não redigiria o texto neste blog, mas no da Identidade Musical. O que eu quero escrever são duas impressões pontuais e pessoais que os membros do Jardim e suas canções tiveram em mim desde esse dia. Conto rapidamente, são dois parágrafos: se quiser, pule-os, diria Machado. Eu não sou Machado, e tenho menos leitores que o defunto-autor Brás Cubas: sugiro sem ironia que o leitor pule mesmo os parágrafos em que relato minha pobreza de espírito e ouça a canção do Jardim, no fim deste post.

Primeiro, sobre a amizade: no breve período em que a Identidade Musical trabalhou com o Jardim, tive a chance de conhecer pessoalmente os três integrantes da banda. E eu, boêmio contumaz naquela época, percebi que nenhum dos três bebia, o que me incomodou profundamente. Não digo que tentei afogá-los forçosamente em cerveja - mas quase. Era praticamente um contra-senso, segundo a mentalidade ainda infantil que eu tinha, que artistas tão talentosos não bebessem. Laya e Carlos me contaram: um dia, foram a uma festa em São Paulo, e beberam não em excesso, mas mesmo assim acabaram embriagados. Assustaram-se com a capacidade de contaminação e intoxicação do ambiente etílico paulistano, em que, mesmo bebendo pouco, você acaba com as percepções alteradas. Coisas de energia, que eu não entendia - hoje começo a entender. Da última vez que encontrei Carlos, num show dos Porongas, na Casa do Mancha, o guitarrista me acolheu grande e docemente ao descobrir que eu havia parado de beber: finalmente eu entendia o que ele, Laya e Rapha tentavam me explicar, mas eu não podia entender.

Segundo, sobre a canção: podem chamar-me endoidecido, mas nada me tira da intuição e da cabeça a seguinte hipótese: existe relação entre o conceito de ideologia em Marx (pra falar rápido, a falsa consciência) e entre aquilo que obscurece e confunde "o caminho reto que me levará pro alto", isto é, aquilo que nos impede de perceber a nós próprios e aos ardis da realidade concreta e material. Não estendo a conversa pra não incomodar nem doutrinar ninguém, mas acredito que, para ver "a claridade do que é real", é preciso um longo esforço, que provavelmente passa pela reformulação do corpo, da mente e do espírito.

Abaixo, o clipe de "Anoiteço", bem melhor, além de mais claro, evidente e clarividente do que este texto, já que o próprio Jardim é " um estado de espírito em cada um de nós, a vida em que se planta e que se colhe", segundo o próprio Raphael Haluli.



   

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