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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A delicada sinfonia do desfrute das mercadorias



Há um determinado momento que precede o devaneio. Posso senti-lo, quando não estou sob o efeito de nada: geralmente parte do estômago, como se fosse fome. É evidente que até pode ser fome, mas não se trata apenas de comida - é fome de mais. Simples, nessa frase quase sem sentido. Porque o devaneio é assim, não tem expressão clara e organizada, não dá pra texto, não tem coesão nem coerência. No devaneio, experimenta-se um estado primevo, ancestral, anterior - mas rigorosamente determinado por este tempo. No devaneio, sou o homem selvagem do presente, que não caberia jamais numa anedota, num romance histórico ou num compêndio antropológico sobre os homens primitivos: meu devaneio é vórtice por meio do qual turbilham todas as injustiças, todas as crianças mortas, todas as violências, todas as árvores derrubadas, todo os animais maltratados, todos os velhos abandonados, todo lucro das indústrias farmacêuticas, bélicas, tabagistas e de bebidas. Meu devaneio não é mais violento do que a ignição de um carro qualquer, do que a pressão inconsequente de um gatilho, do que o abandono de um recém-nascido. Meu devaneio é o vórtice por meio do qual se encontram, e se confrontam, e se combinam, e se acentuam todos os males do mundo - é no olho do meu devaneio que se pode ver a face violenta do leigo mais ativo da igreja, a perversão mais obscura do maníaco sexual, a degradação mais baixa de quem tem de vender a própria força de trabalho pra sobreviver - esse rolo-compressor de compra-e-venda que nos transforma todos em coisas. É no barulho ensurdecedor do meu devaneio, tempestade em alto-mar, que se pode observar um sopro de vida e de sujeito, quase afogado, mas ainda batendo os braços pedindo ajuda.

Começa no estômago o meu devaneio, e é gatilhado pelos mais singelos motivos: pode ser uma frase ambígua, um copo que cai no chão, uma música de letra inexplicável, ou simples demais, ou forte demais. Pode ser só a sensação de que estou velho, ou de que serei abandonado, ou de que sou perseguido, ou de que não cumpri o protocolo e as manifestações de apreço ao senhor diretor, filho de uma grande puta. Pode ser só a suspeita de mim: eu mesmo, eu próprio, cheguei a existir? Ou é isto tudo um teste sem sentido? Ou neste momento outros gênios-pra-si-próprios experimentam devaneios iguais ao meu - eu-igual-a-todo-mundo, de seriado americano em seriado americano, comprando confortáveis porta-controles-remotos, pra não sair nunca mais do sofá? O meu devaneio começa quando fundo um movimento, inauguro um partido político, ponho o dedo em todas as feridas alheias, revelo e esculhambo todas as ideologias, engraveço as mediocridades de todos os que me cercam, reduzo as vidas a partes integrantes do sistema de que nem eu mesmo posso escapar, a não ser por um devaneio.

Depois do gatilho, a violência pura: eu conheço as fraquezas todas, sei das contradições e sei que dizê-las é tabu, oh! somos todos homens cordiais, aproximamo-nos uns dos outros movidos de interesses materiais, simulamos afeições e despedimo-nos em abraços repletos de cartões de visitas, em networking cotidiano, porque se eu tenho amigos eu tenho tudo - acesso às prefeituras, aos governos, aos jornais. Mas se não há nervo legítimo em nenhuma relação, começo pondo abaixo, até que não sobre pedra sobre pedra, as instituições familiares - reduto burguês de manutenção de patrimônio; daí passo aos casamentos de compadrio; deles pulo aos amigos comuns, amigos pais de meus filhos, amigos da empresa, amigos da infância - todos conhecidos na escola, na empresa, no clube, na igreja, no condomínio, na academia das pessoas da mesma classe, gente de família, gente de berço; desses eu pulo para os conhecidos em instituições públicas e privadas que presenteio nos períodos de festa, migalhando um contato, um emprego futuro, um empréstimo a juros menos escorchantes, um favor que seja. Todas as relações mediadas pela propriedade, pelos presentes, pela felicidade da propaganda, pela exibição - uma supremacia qualquer que seja.

À merda com tudo isso: no meu devaneio eu começo destruindo a propriedade, despedaçando tudo, para bradar a todos que não me definam pelos meus bens; depois parto para a implosão das relações afetivas - nenhuma delas restará em pé quando eu demonstrar que todas têm por base o interesse material: que o casamento é manutenção de patrimônio, que a festa é obtenção de prestígio, que os presentes são forma de repor o dinheiro gasto na festa e que as fotos da viagem são arremedo de celebridade. Enterradas todas as pessoas e todos os sentimentos nobres na vala comum da mercadoria substituível e passageira, parto para a autodestruição: raspo os cabelos, os pelos todos; lanho a pele tanto quanto possível, imprimo-me ferimentos sistemáticos, para que todos saibam que minha coerência alcança o ponto indiscutível da autoaniquilação completa: eu cheiro mal, compus o horror do mundo, espalho a desgraça tanto quanto qualquer um de vocês, mas ao menos não discurso sobre moral, sobre bons costumes, sobre o valor da família, da tradição, da propriedade. Estou aqui nu, na janela, gritando, à moda de animal, entre sardônico e desesperado: por que vocês fogem todos de mim?

O devaneio perde intensidade quando ergue a voz o tique-taque estalado dos teclados de computador, os ringtones dos celulares, os barulhos ensurdecedores das motocicletas sofisticadas - a delicada sinfonia do desfrute das mercadorias, o rolo-compressor que me achatou a voz, até num momento de devaneio. Não bato mais os braços: agora tento boiar, em último recurso de sobrevivência. Suavemente conduzido pela maré, encaminho-me, dócil, ao lago abrigado pelas medianias, sem devaneios, sem turbilhões, o estômago serenado e a cabeça livre de perguntas. 

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