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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Risco de poema

para Mário Henrique Bernardes

Em meio à ponte aérea -
entre os alheados da Vila Madalena
e os inocentes do Leblon 
(onde a areia é quente e há um protetor suave
que ela passa nas minhas costas) -
não me esquecem as cinzas.

As minhas mulheres originárias e
os meus homens ancestrais hoje são cinzas
Não podem alentar-me a alma
nem fertilizar-me a terra -
e aguardo, atônito, o horário da próxima reunião
(não há tempo para o luto ou para as coisas da alma).

Fac-símiles digitalizadas trazem-me aos olhos
as cartas dos ancestrais -
o bisavô anarquista depois bolchevista,
o avô prefeito e inconformado,
as bisavós, avós, mães
- mulheres-amparo, mães-providência.
Mas não tenho uma linha que escreva.

Recebo pelo correio a edição comentada
- tudo velho, correio, cartas,
aquele e este Mário
aquele e este Carlos -
Sabemos um do outro pelas redes sociais e pelos aplicativos de contatos
mas fomos aprisionados da roda-viva
que não nos permite sequer cismar um pouco, à noite,
o mineiro e o paulistano, 
afogados que estamos de tradições e trabalho
vértice em versos
vórtice em impropérios
que vão ficar pra outro dia.

Houve aqui um rabisco de empenho
um esboço de compromisso
em traços rápidos, preciso-imprecisos, à Niemeyer:
Houve risco de poema,
mas já passou, ninguém viu.

Um comentário :

Anônimo disse...

Bonitão! =)