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quarta-feira, 21 de março de 2012

Histórias secretas do Rio de Janeiro: as pessoas que voaram longe no carnaval

Os jornais não noticiaram, a Globo abafou. Mas quem vive no Rio de Janeiro, ou esteve por lá nos últimos tempos, sabe muito bem que algumas pessoas foram flagradas voando. Não se trata de novidade: a cidade é conhecida pela presença de supostos discos voadores, em testemunho de duas personalidades incontestáveis:



O que não sabem os dois ilustres ícones da canção popular brasileira é que o que eles chamaram de disco-voador nada mais eram do que grupos de cariocas voadores. Os dados que comprovam a presença de humanos investidos da capacidade de voar na cidade do Rio de Janeiro são igualmente incontestáveis. Um dos pontos turísticos da cidade chama-se exatamente Circo Voador - indicador claro de que não é de hoje que a cidade é mãe de continuadores da obra de Bartolomeu de Gusmão, este por sua vez inspirado em projetos helicópteros de Da Vinci. O Rio de Janeiro é cidade de circos-voadores e de asas-delta; é cidade de alturas - o Corcovado, o Pão de Açúcar, a Pedra da Gávea, o Morro Dois Irmãos, todos esses acidentes geográficos elevados só podem culminar na conclusão de que a cidade é vocacionada às alturas: Cidade de Deus. Seu símbolo máximo - o Cristo Redentor, uma das sete novas maravilhas do mundo, aeroplano pronto para partir para os céus e sentar-se à direita de deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra - antes criador do céu, note-se, céu que já foi ganho pelos cariocas, sem aviões.

Os morros: muitos cariocas habitam os morros, mais próximos do céu, a que estamos todos destinados; mas  quem escolhe o morro pra viver tem o céu mais perto de si. Conhece bem os caminhos, as ladeiras, as subidas, a proximidade das alturas. São criaturas à imagem e semelhança do Cristo, todas elas de braços abertos para o Rio de Janeiro, para as maravilhas das praias e das florestas, para os monumentos à brasilidade, o Maracanã e o Engenhão. Não é à toa que os gringos, agora, dispensam a estadia à beira da praia: descobriram o morro como forma de levar a vida, perceberam que a ostentação periférica dos hotéis chiques do Leblon, de Ipanema e de Copacabana não lhes pode ensinar o desapego real e concreto da vida nas comunidades. Eis aí outro dado incontestável da habilidade de voo dos cariocas: a respeitabilidade do estrangeiro que se hospeda nas alturas. Se o gringo topou e gostou, é porque deve de ser bom.

Pois vamos aos fatos: no fim de semana posterior ao carnaval, deparei-me com pares de sapatos abandonados numa rua tranquila de Ipanema. Imaginei que fossem os pisantes perdidos de um folião, e sorri. Mas enquanto eu os fotografava, para mostrar aos amigos de São Paulo com que leveza se vivia a vida no Rio de Janeiro, fui surpreendido por um agente do Bope.  

O homem perguntou-me sem nenhuma gentileza por que eu fotografava os sapatos. Disse-lhe que me interessava registrar as passagens de leveza da vida do carioca. Rude, o oficial respondeu-me que a vida era leve pra quem podia e que eu não lhe fodesse a vida - esses filhos da puta saem voando e podiam pelo menos levar os sapatos. Como era? Saem voando? Caralho, não é por isso que você tá fotografando a porra do sapato? Propus-lhe que me contasse do que se tratava, mas ele desconversou e foi embora - põe essa merda na conta do papa. Inquieto, perguntei à minha senhoria - uma portuguesa idosa e que parecia mesmo chegada ao Rio no tempo do rei - que história era aquela. Sentamo-nos em bancos antigos postos na porta da pousada, à moda antiga das cidades pequenas, em que os mais velhos se sentam na rua para observar o movimento e contar histórias, faltando só mesmo a fogueira.

A senhora deu-me um gole de cachaça e me contou que havia histórias de pessoas voadoras no Rio de Janeiro desde o tempo de Dom João VI, se não antes, que ela bem não se lembrava, cuidava dos netinhos agora. Mas que sempre se falou dos voadores no Rio de Janeiro. Debret registrou alguns, mas os desenhos foram vetados pela coroa, que não queria chamar a atenção dos ingleses: eles poderiam imaginar que uma nova tecnologia se desenvolvera no Brasil e acabariam por invadir estas terras de paz. Mauá quis explorar o potencial competitivo dos voadores, mas a maçonaria proibiu-o por motivos que não lhe podiam ser revelados. Os artistas vinham ao Rio na tentativa de libertar-se de tudo e conseguir a prerrogativa última de voar. Especialmente no carnaval voava-se. Estava lá o sujeito no meio do entrudo, era molhado por uma criança e zás - saía voando. Na maioria das vezes, eram homens do povo que partiam para os céus - Manuel Bandeira mesmo registrara um, sem revelar que batera as asas antes de morrer afogado na Lagoa Rodrigo de Freitas. Embora raramente os abastados desafiassem a lei da gravidade, os bailes chiques de carnaval no Teatro Municipal acabaram porque uma rica senhora de família tradicional que remontava às caravelas, tendo alçado voo, agarrara-se à estátua da Tragédia, mas não conseguira manter-se segura por muito tempo - tendo sido encontrada dormindo serenamente em Santa Teresa, numa casa em que se tocava chorinho, a maquilagem manchada, como se tivesse cavalgado um ser alado por toda a noite e rompido em lágrimas de êxtase. Envergonhado, o marido teria exilado a mulher na Europa e pedido a amigos influentes que acabassem com o carnaval no Teatro, o que efetivamente ocorreu nos anos 70. Supus que minha narradora misturasse as épocas, confundido entrudos com bailes no Teatro Municipal, que não poderiam pertencer aos mesmos períodos - mas pertenciam, afirmava ela. Nesta cidade o tempo avança na medida do recuo, e a Sol atrai para si algumas pessoas, ícaros pagãos da decadência, os descrentes de tudo - disse ela, pessoana.

Mas então - a mesma Sol que desgraçara a vida de Macunaíma só porque ele tinha brincado com uma portuguesa? - eu perguntei. E minha senhoria sorriu, que ela mesma era neta da neta de Macunaíma. Assustei-me, mas reagi de pronto: diga-me então o que é que tem a Sol. E ela respondeu: a Sol brilha todo dia nesta cidade, nunca o senhor esteve aqui em dia chuva, esteve? Pois sim, aqui não há tempo de chuva, nem de estio, mas só esta mediania sem fim que o senhor está vendo, seja a papelópolis das repartições públicas, seja o lagartear de quebreira azul dos meninos do rio, calor que provoca arrepio, dragão tatuado no braço, ô quentura que não acaba mais. As pessoas idosas duram mais porque a vida é mais saudável - eu mesma completo 204 anos no próximo oito de março, porque participo dos programas da terceira idade que a prefeitura oferece, e faço alongamento e yoga na Praia do Leblon. Nos tempos de carnaval, a Vei assiste a toda festa lá de cima, lembra do meu tataravô Macunaíma e fica com raiva, porque ele era alegre e leviano como os foliões. Escolhe um bem feliz, bem feliz, que quer se consumir, tomar um porre, porque está feliz e zás - riba pra cima, que o coitado se assoberba da quentura e da intensidade e vai se consumindo na infinidade de luz.  

Era dia de calor, e eu passara a tarde escutando a história e bebendo da cachaça, mas súbito me vi enredado de um bloco carnavalesco que passava. Molharam-me, mulheres e homens me tiraram pra dançar, disseram-me graças, beijaram-me a boca, fizeram-me cheirar lança-perfume. Olhei o céu - já anoitecia. Eu estava no Rio de Janeiro? Fixei os olhos no Cruzeiro do Sul - paulistano nunca vê estrelas - e tive assim a impressão de que as tinha próximas de mim, e que vagava entre os astros, depois de que pisava os astros, no Canal Ursa Maior, eu-pierrô, ela-mascarada, que me atraía e me beijava - quem é você? adivinha, se gosta de mim, que eu quero me arder no seu fogo.

E vi: os olhos bem abertos de Vei, a Sol, dizendo-me que éramos todos iguais, que não prestávamos, que nesta terra tinha muito herói pra pouco índio. Fugi da maneira que pude, e acordei descalço, num amontoado de gente, trapos de fantasias de pessoas empilhadas, em pleno Largo da Carioca, onde eu já encontrara antes o diabo.

Levantei-me e fui à pousada recuperar-me. Mas o verão acabou hoje, 21 de março: minha senhoria voltou a Portugal, para encontrar a família; não há registros de que as pessoas tenham alçado voo no Rio de Janeiro, porque os jornais não noticiaram, e a Globo abafou. Mas ainda podem ser encontrados misteriosos sapatos, chinelas, sandálias e tamancos espalhados no chão da cidade.






Crédito das fotos
Sapato de folião na Rua Aníbal de Mendonça, fevereiro de 2012, de Carlos Rogério Duarte Barreiros
Havaianas na Cinelândia, fevereiro de 2012, de Carlos Rogério Duarte Barreiros     
Ressaca carnavalesca: foliões no Largo da Carioca, 1973, Anibal Philot, Agência O Globo

4 comentários :

Anônimo disse...

maravilhoso!!!!! daria um livro, maravilhoso!!!!

Rogério Duarte disse...

Obrigado, Anônimo!

Ju Marques disse...

Coisa mais linda... =)

Rogério Duarte disse...

Obrigado, Ju!