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quinta-feira, 26 de abril de 2012

A título de provocação e de inspiração - Parte II

A acupunturista perguntou-me: qual o sentimento predominante na sua vida? E eu tive de responder: é o medo - medo de quê, Rudgero? E eu responderia que pra começo de conversa é medo da cidade, em que se configuram os horrores deste tempo, as violências de toda ordem, das mais sutis às mais explícitas. Eu diria que nesta cidade grassam o autoritarismo e o conservadorismo travestidos de bom mocismo, como os filhos limpos dos bairros ricos, sorrindo os dentes clareados e vestindo as camisas polo rosas, brilhando cristandade e exalando monturo de anos de plantações de café e indústrias, de imprensa criminosa e especulação imobiliária.

Mas a cidade e os filhos dos bairros nobres não serão tudo, argumentará minha terapeuta - ao que responderei, a razão em punho, o punho em riste: não são tudo mas tudo ordenam, tudo dispõem à sua vontade e à sua volta, em círculos concêntricos de condomínios fechados, shopping centers integrados, prédios corporativos, parques bem cuidados e obras viárias - a glória mais alta que ora se alevanta neste bric, seja talvez bricabraque, em que restos indispostos de selvas e favelas recebem turistas curiosos de um modo de vida impressionante, regido de privação e integração à natureza: ó gloriosa sustentabilidade ostentada desta terra de injustiças sociais, quanto do teu húmus não são cadáveres anônimos de trabalho morto de homens mortos em vida.

Mas deus esteja, argumentará o sacerdote, seja ele qual for, que de sacerdotes não curo: há sentido em tantas mortes, em tanta miséria, em tanto vazio - este oco imenso que não para de crescer - ao que lamentarei, as mãos atadas em gesto de oração, mas pensas à moda de Drummond: certamente creio que haverá sentido, mas o que eu vejo é o horror absoluto, frequentamos uma igreja e nos julgamos sãos, lemos um livro e nos julgamos sábios, viajamos aos Estados Unidos e imaginamos conhecer uma cultura nova, consultamos o Google e acreditamos ter nas mãos a máquina do mundo, seja da Microsoft ou da Apple. Eu não me vejo - salvo num triz de literatura, quando às vezes -, apavorado da fenda que eu próprio sou, cindido ao meio entre nada e coisa nenhuma.

Mas ao menos a arte nos salvará, proporão alegres os meus amigos queridos, e os artistas, a arte que afinal alivia o medo - mas é por pouco tempo, argumentarei, o copo imaginário numa mão, o cigarro hipotético na outra, porque com paraísos artificiais eu não conto, por mais que eu careça dessas panaceias. Mesmo a arte se compõe no edifício da roda-viva, mesmo ela se degrada no limite do mercado, que não conseguimos transcender - de medo de ficarmos sozinhos, de sermos passados para trás, de morrermos na sarjeta, de vivermos em privação - que são as últimas atrações de Hollywood, do cinema brasileiro e da cidade que eu temo tanto, que transforma a miséria em produto, onde os prédios tomam vida aos homens e os fazem esgotar as últimas gotas de revolta em horas extras não pagas, onde o trânsito regula os horários que gozamos em carros confortáveis, a província arrogada de metrópole.

Mas existe este blog, a rede, o facebook - os espaços em que se pode dizer tudo a ninguém, então você acredita, Rudgero, que alguém lerá este texto até o fim, que isto é literatura, que vivemos uma oportunidade e um momento históricos, conte-me mais sobre isso, rirá irônica uma postagem malfeita de uma personagem que desconheço, num debate superficial, num espaço exíguo, sem método, nascedouro das piores expressões contemporâneas do fascismo: nós todos, os dentes clareados, de camisa polo rosa, rindo à toa por causa do último resultado do futebol europeu, fechando uns aos outros no trânsito e no afeto, cultivando a lógica da concorrência com frases de efeito extraídas do pensamento budista ou cristão - tanto faz, porque o mercado editorial não cura de religiões nem de nuances.

Eu me lembro bem: a atriz global dizia que tinha medo, o que imputava medo - especialmente aos homens de bem, de bens e de família. É o medo, então, que eu ataco em mim: mostrando os meus dentes manchados aos bem nascidos, defendendo o ateísmo só a título de provocação, rindo das propostas pretensamente sustentáveis, lendo cada vez mais só pra sustentar a crítica e acentuar o volume das risadas, falando mal dos filmes e dos artistas limpinhos do padrão Globo de qualidade e do padrão Veja de superficialidade, despejando na rede malcriações como esta, que redigi apenas a título de provocação. E foi assim que tomei coragem, num momento de inspiração.             

2 comentários :

Anônimo disse...

Apontar o medo não é coragem. Enfrentá-lo requer mais que um texto.

Carlos Rogério Barreiros disse...

Apontar o dedo de forma anônima também não é lá das ações mais corajosas, Anônimo.

No mais, acredito que pensar e escrever, provocando, já implica algum fazer.

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