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terça-feira, 22 de maio de 2012

Eu devia confiar mais em mim (sem carro)

Só tirei carteira de habilitação aos 21 anos, porque achava uma besteira ter carro. Eu devia confiar mais em mim - mas só me toquei disso hoje, depois de completar 36 anos de idade.

Mas hoje acabou a palhaçada: vendi meu carro, e não comprei outro no lugar. Pronto. Acabou: da última vez em que bateram no meu carro, uns quinze dias atrás, uma iniciante ao volante disse que não pagaria nada, embora ela tivesse seguro e eu estivesse na preferencial, que ela atravessou irresponsavelmente. Pra mim chega: não preciso mais passar por esse tipo de experiência, em que as pessoas não assumem as próprias responsabilidades porque o Carro - esse ente que pra elas é a Muiraquitã da qual emana a felicidade - foi lesado. Desde que tirei carta, fui fechado, humilhado, desrespeitado, me mostraram todos os dedos, me fizeram todos os sinais feios e obscenos que se pode imaginar, me xingaram de todos os nomes, riram de mim, ameaçaram me matar, puseram minha vida em risco. Sofri bullying automotivo, tomei faróis na cara porque eu dirigia um Uno, e porque quem vinha atrás tinha um Vectra, ou Bora, ou BMW, ou Mercedez, ou qualquer merda dessas - mas que, na hierarquia dos carros as coloca acima das regras coletivas dos limites de velocidade e de segurança.

(É o exemplo do imbecil que argumenta que pode correr à vontade porque tem airbag - ou seja, a ele nada vai acontecer. Como se o que acontecerá aos outros não lhe diga respeito - mas diz sim, amiguinhos, por mais que haja aqueles que saiam ilesos fugindo de acidentes ou não pagando multas ou impostos porque "têm contatos lá dentro". Ainda há de chegar o tempo em que respeitaremos limites de velocidade por convicção, e não por medo de multa; há de chegar o tempo em que os impostos sobre grandes fortunas serão revertidos para ações sociais: estamos trabalhando pra isso)

Nunca liguei pra carros, sempre caguei pra eles. Nunca fui apegado: meus carros sempre foram simples e tradicionalmente imundos - perguntem aos meus amigos, às minhas ex-namoradas, às minhas duas ex-esposas, aos meus irmãos, à minha mãe. Houve quem tivesse nojo de pegar carona comigo: "obrigado, vou de ônibus", muitos me disseram, quando viram o que havia dentro do meu carro. Mulheres juraram terminar comigo se eu não lavasse o carro. Outras levavam meu carro pra lavar e polir, inconformadas com meu descaso com aquele bem.

Um dia, no Rio de Janeiro, passou, dentro de um carrão bem bonitão (acho que uma Ferrari, o último dos fetiches em termos automobilísticos) um playboy, mas tão playboy, fazendo uma pose tão imbecil, que eu não aguentei: caí na risada. O cara ficou putinho, quase quis arrumar briga, fez cara feia, como se me chamasse de "suburbano". No mínimo, o cara trepa com o próprio carro, tal é o fetiche que tem com ele. Respeito: cada um com sua tara. Mas carro pra mim não rola, não dá. Cada centavo que eu gastei em carro me parecia dinheiro jogado fora. Quando eu comprei carro mil, me disseram que eu pagaria muito dinheiro de seguro (e tive de pagar), porque o carro era muito visado pelos bandidos; quando comprei um carro intermediário, de gente meio de classe média média - um Fox - ele passou três meses do primeiro ano de existência na concessionária. Só resolveram meu problema quando gravei, de gravador mesmo, todas as conversas que tive na concessionária, da moça do atendimento ao gerente, passando por técnicos sabichões e "consultores" sorridentes de plástico. Prometi levar o caso à TV, gravador em punho: aí recebi pronto atendimento. Até menti, dizendo que eu era "um blogueiro famoso na internet" - mentira deslavada, porque este blog, quando tem muitos acessos, não alcança nem 300 por dia - e que iria acabar com a concessionária nas redes sociais. Todas são iguais - ao menos as de classe média média a que eu fui.

Ao longo dos anos, fui enganado por mecânicos, borracheiros e rebimboqueiros de parafuseta; motociclistas buzinaram em meus ouvidos sem motivo nenhum; perdi horas inúteis parado no trânsito, em que eu poderia estar fazendo amor, lendo James Joyce - tradução da Bernardina da Silva Pinheiro (que eu nunca li) -, ouvindo Leonard Cohen ou preparando aula. Não tenho a menor vergonha de contar: li as Memórias Póstumas de Brás Cubas inteirinhas, mas aos pedaços, pela primeira vez, no ônibus que saía da Augusta (eu dava plantão de redação no São Luís) e ia pra USP. A cada viagem, muitas páginas, cujas dúvidas eu ia anotando como dava, no bambolear do bumba, pra depois perguntar pro José Antonio Pasta, meu professor de Literatura Brasileira, a quem, anos depois, eu daria carona - e que dizia que eu dirigia muito mal, com toda razão. O fato é que não melhorei no volante, mesmo dirigindo diariamente, mas li muito menos depois que comprei meu primeiro carro. E ainda tenho de aturar o impropério de que "Ayrton Senna é um herói nacional" porque ele... sabia dirigir um carro. É muita imbecilidade simbólica investida num só objeto: um carro. Foda-se. Tô fora.

Tem outra coisa: como disse acima, sou mau motorista, admito. Sou desatento: basta dizer que tive a carteira de habilitação retida por um ano por causa de três multas de rodízio e duas de velocidade - numa, eu trafegava a 65 por hora numa via cujo limite era 60; na outra, na mesma via, eu trafegava a 70. Quase matei meu irmão em um acidente que causei, de inteira responsabilidade minha. Meu irmão me livrou a cara: poderia até ter me posto em cana, se quisesse. Não há dia em que eu não pense nesse acidente, e muitas vezes acordo com o som do ferro retorcido e a imagem de meu irmão coberto de sangue, perguntando-me o que é que tinha acontecido - tudo culpa minha. O pessoal do resgate riu de mim e tirou sarro da minha cara, com razão. Quase matei de susto meus pais e outros motoristas, várias vezes, por causa de minha imperícia.

Em suma: o trânsito é mais seguro hoje, em que eu não dirijo mais.

Agora tem uma coisa, que eu aprendi, e que me fez escrever este post: quando completei dezoito anos, eu já achava que ter um carro e dirigir era uma grande merda - a responsabilidade pela vida dos outros; a atenção redobrada que nos é exigida; a cobrança social por ter um carrão (sempre tem um carro melhor do que o seu, sempre; só o Thor Batista pode ter uma Maclaren [cara, alguém em pleno século XXI chama "Thor" e tem uma Maclaren: isso faz de Thor e Ayrton Senna praticamente irmãos]; a pressão da Polícia Rodoviária (basta ter uma luzinha faltando pra tomar a maior multa); os custos de IPVA, de Seguro Obrigatório, de estacionamento, de combustível, de multas (justas ou não, resultantes da indústria da multa ou não); o apego inevitável (onde é menos perigoso parar?); a manutenção, a lavagem, o cuidado com os bancos; tem de trocar o óleo, tem de limpar isso e aquilo, calibrar os pneus; as sacanagens da indústria automobilística (lembra o caso do Fox que decepava os dedos das pessoas e que nunca saiu nos grandes jornais?), que é uma das mais beneficiadas do Brasil, mas que fode o meio-ambiente, o consumidor, as pessoas em geral; o convívio, no trânsito, com verdadeiros animais (eu fui um deles, admito sem medo), que dirigem irresponsavelmente; as horas perdidas ao volante.

Eu já pensava tudo isso a respeito de ter carros. E ainda assim insisti em ter carro. Burro. Imbecil. Alienado. Rogério-Vai-Com-as-Outras. Classe média ascendente metido a rico acéfalo que eu era. Eu devia confiar mais em mim, nos meus instintos, nas minhas convicções. Existe vida sem ter carro. Dirigir é pra quem tem perícia pra isso, não pra mim. Não é pra qualquer um.

É claro que não ter carro tem desvantagem: não posso viajar na hora em que eu quiser (mas posso alugar um carro pro fim de semana, né?). E acabou. Só tem essa. Não ter carro não tem mais nenhuma desvantagem, ao menos pra mim. Não sou mais escravo dessa merda.

Mais ainda: sem carro, eu planejo melhor a minha vida e meus horários. Uso vários meios de transporte (combino andar, com táxi, com ônibus, com metrô, tudo dependendo de onde eu estiver e de como estiver o tempo e o meu humor). Bom tempo: saio cedinho pra andar uma parte do caminho ouvindo um som. Mau tempo: saio cedinho de táxi pra chegar logo no metrô, sempre lendo alguma coisa. Eu não bebo mais, então acordar bem cedo é fácil - aliás, fiz isso a vida toda, de ressaca ou não, pois na minha profissão as pessoas entram em aula às sete da manhã. Mais do que isso: rejeitando a propriedade do carro, eu crio um modelo de felicidade pra minha vida que está desligado desse bem. Aplicando o dinheiro do carro, eu ganho uma graninha, que com o tempo pode até virar uma grana legal, pra comprar um livro - sempre nos termos de classe média média, que é o que sou e que vou ser, e pra mim já basta. Empregos, só vou aceitar aqueles cujo acesso me for favorável - e isso vai melhorar minha vida, cujos caminhos, custos e escolhas estão destinados ao meu bem estar.

Para a próxima eleição, vou fazer questão de procurar candidatos com projetos alternativos de transporte: eu posso gozar do luxo não ter carro, já que moro num bairro razoavelmente central. Mas se eu morasse na periferia, ou seriam as horas intermináveis no ônibus ou no carro - e isso não é justo com o resto da população. Estava demorando pra rolar acidente no Metrô, do jeito que ele está. Quem andava de Metrô há vinte anos e anda hoje sabe do que estou falando. E o papo de investir em transporte público é mais velho que andar pra trás. Vinte anos de PSDB e... quase nada mudou no Metrô - e a demanda só aumenta.

Uma amiga minha, muito, muito querida, artista talentosa e polemista de primeira linha no facebook, a Camila Conti, vive dizendo que espera pelo dia em que São Paulo pare, tal o trânsito. Pois bem: eu também. Nesse dia, quando me disserem que parou tudo, estarei a pé, não chutarei meu carro - porque eu não vou ter um carro. Eu vou a pé pra casa. Mas e o resto do pessoal que, ao contrário de mim, mora longe do emprego, como vai fazer? Essa é a questão: cada vez que um carro vai pra rua a IPI zero, a qualidade de vida cai - mas a economia está aquecida, o crédito está a mil, o consumo está crescendo. E a turma compra carro em sessenta vezes. E tome-lhe trânsito. Não tenho um plano detalhado de como combinar crescimento econômico a mudança dos hábitos de consumo, mas observo com facilidade que, infelizmente, nossos ideais de felicidade estão diretamente associados a nossos ideais de consumo (e o carro zero é um dos mais apreciados ideais de consumo deste nosso tempo) - e isso nos leva por buraco.

Não ter carro vai me dar mais tempo pra ler, pra caminhar e pra ouvir música. Deveria ser assim pra todo mundo. Quando se fala em outros mundos possíveis, é preciso pensar em projetos de cidade que permitam a todas as pessoas (não só as que, como eu, têm a chance de morar em bairros mais centrais e próximos de seus locais de trabalho) o desfrute do tempo para as atividades que as beneficiem em termos físicos (no meu caso, andar), mentais (no meu caso, ler) e espirituais (no meu caso, ouvir música e fazer pequenas meditações sobre a vida).

Ou, nas palavras muito melhores de Ricardo Antunes, p
rofessor titular de Sociologia na Unicamp,  visiting research fellow na Universidade de Sussex, na Inglaterra, na Introdução dum livro cuja leitura sugiro a todos:

“A atividade baseada no tempo disponível para produzir valores de uso socialmente úteis e necessários – contrária à produção baseada no tempo excedente para a produção exclusiva de valores de troca para a reprodução do capital – torna-se vital”


ANTUNES, Ricardo. “Introdução: a substância da crise”. In: MÉSZÁROS, István. A crise estrutural do capital. São Paulo: Boitempo, 2011. 

5 comentários :

Ju Marques disse...

Depoimento 1.
Eu tentei tirar carteira de habilitação aos 18 anos. Uma confusão burocrática da Ciretran me impediu de continuar.
Durante anos eu prometi ir lá ver o que tinha de fazer pra me tornar uma motorista. Tantos anos se passaram, quase 10, e eu ainda ensaio esse retorno.
Principal motivo: falta de motivação.
Tenho uma boa relação com minhas perninhas, com táxis, ônibus e metrôs (fora de horários de pico, claro). Gosto da liberdade de não pensar em nada enquanto passeio, e gosto de aproveitar o tempo pra ler, ouvir música e olhar as pessoas.
Tenho preguiça da tensão que deve ser dirigir em dias de trânsito, em dias de chuva, etc, etc... Ou seja, São Paulo com carro não é pra mim.

Depoimento 2.
Só sinto muitíssimo por não saber andar de bicicleta. Não, eu não sei. Eu aprendi, acho, mas nunca treinei. E hoje em dia, preciso retomar esse objetivo de vida. O Ibirapuera tá aí pra isso, né?

Comentário 1.
Adorei o texto. Entendo a revolta. Aprecio a vontade de transportes públicos melhores. E me identifico com a maior parte do texto.

Comentário 2.
Impossível não lembrar dos documentários "Sociedade do Automóvel" e "Quem matou o carro elétrico?". #FikDik

Ok, ok... eu sei que falo de mais.

Beijo

Anônimo disse...

Parabéns pela iniciativa, acho mais saudável ficar sem carro! Mas vem cá, ficou mais caro ou mais barato essa troca?

Carlos Rogério Barreiros disse...

Anônimo:

É claro que ficou mais barato. É só fazer as contas.

Anônimo disse...

Carlos Rogerio,

Fui seu aluno há duzentos anos. Pelo que lembro, era seu primeiro ano como professor de Português no CSL. Oitava série, giz marrom cocô, Frei Luis de Souza e muita análise sintática - muita talvez não seja adequado aqui; não era quantidade, mas uma qualidade única para ensinar.
Na última aula, tivemos a sorte de ouvir: "Vou ler para vocês algo que ninguém aqui vai entender neste momento. Mas fica plantada a semente. Lá vai... Nonada! tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem, não. Deus esteja"
Não entendi nada mesmo, conforme se esperava de um moleque de 14 anos metido a inteligente e bom aluno. Mas gostava tanto daquele professor que mais tarde fui ler o livro.
Treze anos depois (acho que são treze, mas de tão viva a memória parece menos - talvez seja mais, sei lá), terminei de ler Grande Sertão pela terceira vez.
Obrigado por isso e por ter me lançado na alma a vontade de lecionar. Formei-me em Economia na USP e depois em Mestrado na FGV, onde acabei virando professor também, embora já tenha parado de dar aulas (este negócio cansa muito).

Um abraço,
Felipe Miranda (você certamente não vai lembrar, mas isso não importa)

Anônimo disse...

Belo texto. Parabéns!