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sábado, 12 de maio de 2012

Manaó e o neto

Manaó estava já bem velha quando a filha, mão solteira, morreu no parto. Sobrou o neto pra velha – e esta não é uma história inventada, mas é criada no real, então é necessário dizer que a velha resmungou. Perder a filha, vá lá – já tinha perdido o marido pro álcool, um filho pro seringal, um no rio, dois de tiro, uma filha pro meretrício no Rio, uma em São Paulo, que casou com um italiano rico e abandonou a família . Ter de cuidar de criança, ela já tão velha, não podia ser. Mas não ia deixar o menino solto no mundo, que dava azar. Aí ficou cuidando dele, mas azeda, de peitos secos, seca de maneiras, de um jeito que o menino aprendeu a não ter fome e a se limpar logo. Falou com poucos meses, andou antes de um ano, aos cinco já ajudava na casa e queria trabalhar.

Naquele casebre não havia carinho. Manaó fazia as coisas da casa, cuidou do menino sem se afeiçoar, esperando que ele pegasse doença e morresse logo – a pior desesperança é aquela em que nem nascimento de criança deixa a gente se encantar com a vida. Manaó já não queria mais viver. Mas largar o menino no mundo não largava, que isso não se faz. Se tem cachorra que cuida dos gatos ainda de olhos fechados, ela, que já criara mais gente que muita mãe solteira por aí, não ia largar o moleque. E seguiu cuidando dele, as obrigações ela cumpria, mas não brincava, nunca falou nos diminutivos com ele, de modo que o garoto tinha cara e corpo de criança, mas já tinha nascido adulto e sisudo, acostumado a ter fome, depois a procurar a própria comida, depois a chorar sozinho, mesmo de barriga cheia.

O menino entrou na escola cedo, que a avó queria distância dele pra poder pitar quieta nos últimos dias. Uma cachacinha antes do almoço, o cigarro que ela mesma preparava meticulosa, uma comida quase sem sabor, só comida pra não dizer que era mesmo como os bêbados que tinham trocado a comida pela pinga. Enchia a barriga e dormia; o menino comia os restos, como faziam os bichos quando eram ainda novos. Ela não queria dividir comida com o garoto, mas não podia deixar criança passar fome, que é o maior pecado que pode haver, depois de matar um bicho ou uma pessoa só de maldade. Não: a velha não gostava mais das pessoas. Maldade mesmo era matar os bichos, mas não ia deixar o filho da filha passar fome, por isso deixava uns restos pra ele, acostumado com o que tinha.

Mas o menino sabia que podia ter muito mais, e ele gostava mesmo era da avó e do jeito dela, apesar de tudo. Entristecia quando ela não o tratava carinhosa, mas era ainda ela que o criara e a afeição do menino não tinha mais fim: era como o rio, cuja margem oposta se escondia aos olhos. Ele tinha o coração que na velha já tinha se esquecido de bater. O menino passava tardes lendo na biblioteca livros sobre os povos deles, procurando a avó em cada etnia que encontrava, vendo os antepassados em cada levante popular malfadado, escondido da história: ela tinha tantos sulcos no rosto, tantos! que devia ter sofrido na Cabanagem com os Irmãos Vinagre, depois ficado sitiada até os últimos instantes de Canudos, rezando com o Conselheiro, pra correr a São Paulo fazer greve com Leuenroth e Hélio Negro e circular o Brasil com a Coluna da Esperança, do Prestes – o menino devaneava assim, porque a avó parecia ter mais idade que a própria terra, que todos os homens.

Conforme ia crescendo, o moço levava para a avó as coisas que ia conquistando na rua: primeiro algum açaí ou cacau, pó de café que fosse, que ganhava trabalhando pros vendedores do mercado, depois badulaques que ia comprando conforme a gente ia ficando rico no Brasil, o mercado estava bom. Trabalhava e estudava, e começou a pagar algumas lavadeiras escondidas, para não dar trabalho à avó, depois uma moça que a ajudava a varrer a casa, depois mandava levar marmita para avó. Mas não deixava de jantar com ela, apesar da dor que tinha no coração porque ela comia cada vez menos, só um trisquinho e já não queria mais, tomava um copinho de coca-cola, uma cachacinha e perguntava a deus por que ele não a levava, o menino já estava grande. O rapaz que nunca soube o que era um carinho quando criança não tinha saudades da infância, em que fora sozinho, nem da adolescência, em que só trabalhara e estudara. E o coração do menino já homem era bom, porque ele concluiu que a velha não fora carinhosa porque não tivera a chance que ele teve. A vida não é linear, dissera o professor da faculdade.

E a velha ia morrer, tinha mesmo de partir, porque era a hora dela, ela e o neto sabiam. Sentaram-se para jantar e ela disse que não tinha vontade de comer nada, só comia mesmo por precisão e obrigação. Desde criança que ela não tinha vontade nenhuma de comer. Ele respondeu rápido que sentia o mesmo. Era verdade: desde pequeno acostumara-se a refeições frugais e restos e fragmentos dos pratos da avó. Mas não se magoava, pensou consigo. Os olhos dela ganharam vida subitamente: ela não podia deixá-lo sem comer, como pode este menino ficar sem comer? Assim, na refeição, subitamente descobriram algo comum: faltava-lhes a vontade de comer, comiam porque era preciso, havia hora de comer, havia hora de dormir. Que horror! ela disse, inflamada, Que horror uma criança não ter vontade de comer! Eu sou assim desde pequeno, Eu também era, filho. Ela chamou-o de filho pela primeira vez, antes era só menino ou os nomes de um dos filhos mortos que tivera ou do marido cirrótico.

Ficaram em silêncio, enquanto comiam sem vontade uma comida sem gosto - cúmplices, posto que inocentes, de certa falta de vontade de comer. O neto pergunta sobre a mãe, ela era igual a eles? Tua mãe era o contrário da gente, por isso você nasceu como velho e ela morreu criança. Você é como eu: você não sabe rir – ela disse mesmo assim, sem exclamações ou triunfalismos. Por que é que a gente não sabe rir? – era agora o garoto-em-homem, dando corda pra velha, perguntando e fazendo tudo pra não perder a avó pra indesejada inevitável. Nem seu avô sabia dizer e morreu de desgosto porque não arrancou de mim um riso, nem o teu pai, que morreu numa briga de faca de ciúmes da tua mãe, que ria pra todo mundo, quer fruta? Ela ofereceu, ele aceitou sob a condição de ela comer um pouco também, barganha que ela aceitou como se fosse cortejada.

Comeram pouco e sem vontade de nada, mas juntos, o que já era alguma coisa numa vida sem risos nem carinhos, e com uma despedida ainda mais escassa. Ela sentenciou: a gente não ri porque quando descobre as coisas de verdade, filho, as coisas e as pessoas como elas realmente são, não tem mais esperança: nem quando você nasceu eu achei que a vida era bonita. Mas Vó, eu nunca ri, mas eu gosto bem de estar aqui com você, não é isso que é ser feliz, Vó? Não, Filho: ser feliz é aceitar as coisas que a vida dá pra gente, como ela me deu você. E eu te dou um abraço apertado, Vó, que foi uma coisa que eu aprendi com uma moça que eu conheci e a gente pode sair de mãos dadas também, que foi outra coisa que eu aprendi, e passear.

Quando caiu o dia, depois de andar à beira do rio de mãos dadas com o neto, como nunca fizera com ninguém, a avó morreu quieta e serena.

Um comentário :

Yatap Kátia Patrícia disse...

Muito bom seu texto.
Que estória bonita e triste também...