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sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Turista Paulistano (o barato é dizer que tem)

O paulistano em cidade grande brasileira que não é São Paulo equivale a um europeu nórdico no Pelourinho: fica perdido, procurando placas indicando o caminho para uma das Marginais, numeração de casas em ordem crescente, alguém falando italianado. O paulistano procura São Paulo em todas as cidades, por isso acaba se hospedando em hotéis de redes internacionais - pra ter a sensação olfativa de escritório da Avenida Paulista ou da Faria Lima. Porque ao nariz delicado do paulistano todas as cidades fedem, exceto São Paulo; todas as cidades estão cobertas de lixo, exceto São Paulo. Em nenhum lugar o cliente é atendido com tanta celeridade quanto o é em São Paulo - isso pelo menos é verdade, argumenta o paulistano.

Mas o paulistano assistiu, no último festival de cinema, a um filme europeu alternativo em que jovens nórdicos mochilavam no Camboja à cata de aventuras - e quer aventurar-se também entre o pitoresco, afinal é no exagero romanceado dessas aventuras que surgirá o bom relato na mesa de jantar, para os amigos, no sábado à noite, num restaurante japonês da Vila Madalena. É preciso aparatar-se: de boné de time americano de beisebol, colete cáqui, camisa que comprou no intercâmbio na Nova Zelândia, calça jeans de marca, mas já envelhecida de dois anos, e tênis marrom para esportes radicais, o paulistano sai de GPS do celular nas mãos, à cata de pontos turísticos que ouviu a um amigo que já tinha visitado a cidade e que contara histórias incríveis num jantar no sábado à noite, num restaurante tailandês da Vila Olímpia. O GPS está perdido nesta terra de ninguém; ninguém sabe dar informação; até o suco demora a vir - faz tanto calor nesta terra; o ponto turístico não abre no fim de semana. No centro de São Paulo isso jamais aconteceria, argumenta - mas este paulistano nunca vai ao centro. (Mas a vitória de viver em São Paulo é exatamente ter o gozo à disposição, sem gozá-lo, em trepada homérica sem orgasmo, que cai, portanto, na vala comum do sexo meia-boca e burocrático de personagens de Kafka). O barato é ter e não usar. O barato é dizer que tem.

Quando vai a outra cidade, entretanto, tudo muda. Quando se trata de cidade brasileira, é preciso arrancar-lhe o exotismo que fará do paulistano um europeu. Mas a história para contar está garantida: enquanto caminhava, o paulistano descobriu um restaurante que não figurava nos guias gastronômicos da Veja, mas que lhe soou pitoresco o suficiente, sem ser sujo demais - perfeito para um relato enriquecido de detalhes. O dono do restaurante era indiferente, mas tornar-se-ia mal humorado, para que a história tivesse uma personagem ao mesmo tempo cômica e sisuda - exótica, em uma palavra. A comida ganharia ares e odores estranhos, de sabor especial, de nomes bastante indígenas, de uma tribo desconhecida o suficiente para o relato futuro alcançar musculatura antropológica. Sem dizer que estar num lugar é degustar-lhe a comida típica - o clichê que coroa qualquer relato de viagem com a coragem de experimentar pimentas e alimentos que poderiam, na cabeça do paulistano, matar de intoxicação alimentar.

No caminho de volta, empanturrado de comida diferente, a barriga saliente com a camisa pra fora da calça, o paulistano cruza um córguinho - córrego - que ele aprende a chamar de igarapé. Ali estão duas personagens fundamentais do relato futuro no almoço de sábado à noite: um mestiço sabe-se lá de quantas etnias - o paulistano só entende de nomes italianos, de cantinas no Bixiga e de cinemas na Paulista - e o lagarto numa árvore à beira do riozinho - opa, igarapé. O paulistano não sabe, mas os ancestrais do lagarto haviam fugido diretamente das paredes de uma igreja portuguesa, onde lagarteavam felizes e preguiçosos, mas buliram-lhes com o conforto, de modo que vieram ao Brasil no paquete de dom joão. "O lagarto está empanturrado, tem bastante comida pra ele aí", comenta o sertanejo, o boné de um posto de estrada que tem rodízio a R$ 10,90, camiseta do Flamengo, shorts adidas dos anos 80 e os pés esgarçados e ressequidos de andar de chinelo. O paulistano exulta: fotografa o lagarto, de modo a destacar-lhe a pança, mas não deixa entrarem na foto os restos de salgadinhos, as garrafas pet, os plásticos de supermercado, o sofá, um joystick de Atari - o igarapé lembra o Tietê, sobre o qual não vale a pena meditar, o cheiro é terrível, de modo que a lente do paulistano procura o lagarto estirado na árvore, tomando banho de sol, a barriga cheia de lixo - mas ninguém precisa saber que é lixo. Fotografa, em ousadia fetichista, os pés do caboclo - e depois usará essa foto em branco e preto na capa do Facebook, o que causará impressão forte entre os amigos do escritório, que lhe louvarão os dotes de fotógrafo. Será a glória.

Agora, satisfeito, o caminho de volta, ainda a pé, apesar da vontade de táxi. Na avenida, apinham-se shopping centers, depois lojas de grife, depois imóveis abandonados, depois uma pequena favela, depois uma montanha de lixo, coroado de uma revoada de urubus-reis – poderia ser feito um prédio de escritórios aqui, todo paulistano, mesmo que humanista, carrega no sangue um pouco de especulador imobiliário, além da antipatia e muito emproamento, é claro. Onde há calçada, há carros estacionados. O paulistano reclama os direitos: mas e como ficam os pedestres? mas e os direitos dos ciclistas? mas e o crescimento ordenado da cidade? mas e o transporte público? não tem CET? Nada funciona nesta cidade - é uma mordida de saudades de São Paulo, cidade finalmente mais próxima dos grandes centros do mundo - lá não se fuma, lá se ganha dinheiro, lá tem a usp, lá as pessoas não são tão malucas no trânsito, lá tudo funciona 24 horas, lá tem o einstein e o sírio-libanês, lá a gente é bem atendido, lá o PT não ganha (só às vezes), lá tem a Sala São Paulo e o Masp (mesmo que ele nunca vá, porque o barato é ter e não usar, pra dizer que tem), lá a calçada tem continuidade, aqui uma hora ela acaba, lá a rua não fede tanto, lá não tem tanta pobreza.

Acolhido no hotel, o paulistano medita na loucura de viver numa cidade como esta - sem sinalização, sem o GPS funcionar, cercado de gente que não sabe nem quer ganhar dinheiro, com terreno sobrando pra fazer um belo condomínio fechado, mas com essa família terrível que não desapeia do poder. Pela janela, na proteção do ar-condicionado, ele entende: lá fora, ganha o espaço uma revoada de tucanos, encantando-lhe os olhos e fazendo-o entender a diferença entre a grande metrópole e a capital local. 

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