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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Oferenda expiatória de mim mesmo (ou bom dia ao Rio de Janeiro)

Meu bom dia ao Rio de Janeiro começa no avião
quando vejo de cima os morros, o Cristo, o Pão de Açúcar
a Baía da Guanabara - que me parece sempre uma imensidão de água
que eu não sei explicar por que os homens insistem em poluir
manchada de óleo e da ponte Rio-Niterói, que parece rasgar ao meio,
numa lufada de grande obra do Brasil: Ame-o ou Deixe-o -
a Baía bucólica do Joaquim Manuel de Macedo.

Depois a moça do avião diz que sou benvindo ao Rio de Janeiro -
mas eu já sabia: sou dessa raça que não nasceu aqui, mas que guarda raízes aqui
amei aqui, chorei aqui, bebi aqui, parei de beber aqui -
trabalho aqui quando o Marcello chama, mas mesmo assim eu gosto
porque trabalhar aqui também é uma forma de amar o Rio.

O bom dia segue adiante quando atravesso a passarela do Santos Dumont
e olho de um lado a Perimetral que leva a todos os caminhos, alguns turísticos,
outros que ninguém quer ver - mas que é preciso ver,
e me dói esse abandono;
e olho do outro lado o Corcovado ao fundo, os prédios e os morros -


essa mistura caótica que é o Rio, que escamoteia a nossa escravidão
cujos efeitos ainda vão demorar muito pra passar
foi assim que disse o Joaquim Nabuco, e é assim que é
(porque é o que ele me diz quando lhe digo bom dia, logo a seguir,
na frente da Academia Brasileira de Letras).


Na Academia, aliás, a passo rápido, dou um bom dia por Manu Bandeira
ele diz que eu não preciso pedir licença pra passar no escritório dele, mas eu sei que eu preciso


e depois aceno ao longe pro Machado, sentado imperioso e sisudo,
cheio de tanta pena e de tanta desesperança e de tanta acidez que faz mal pro estômago
quantas dores de cabeça e quantas noites mal dormidas ele terá tido -
de suportar os escroques que tinha de suportar pra viver?
Mas e se ele gostou de privar com escroques?


Não quero pensar.

Depois dou bom dia aos seguranças do Consulado Americano
que não me deixam fotografar-lhe a fachada:
serei eu de uma rede terrorista?
se fosse na década de 70 eu seria terrorista de esquerda latina
se fosse na década de 80 eu seria um soldado russo tardio, agonizante
se fosse na década de 90 eu seria um discípulo de Saadam
se fosse hoje eu seria qualquer coisa - qualquer tez basta pra ser terrorista
(e eu só queria fotografar o lugar em que sequestraram o embaixador,
porque eu quero ser de esquerda sim, embora me esconda atrás dos livros.
É possível fazer revolução com poesia?
não vai dar tempo de visitar o Drummond em Copacabana)

A seguir, um Ghandi gigantesco caminha a minha frente: aos seus pés, flores


(a cabaça das ideias talvez mereça rosa, lírio ou azaleia)
Tanta violência, mas tanta ternura, nesta terra em transe,
em que milicianos oferecem crédito fácil,
traficantes organizam as comunidades,
filhos de milionários atropelam gente pobre,
especuladores imobiliários transformam máquinas em gente
e gente em máquinas
todo mundo passa no farol vermelho,
todo mundo tira alguma vantagem quando dá,
e todo mundo assiste ao futebol, vê a novela e vive como pode
- esta terra é o Brasil, não é mais o Rio.

Mas o que eu vejo é um Ghandi gigantesco, numa praça do Rio.
Depois, na Cinelândia,
Uma estátua do Getúlio, que perseguiu o partido, mas que ajudou o trabalhador,
Uma estátua do Juscelino, que abriu para a indústria, mas que nos endividou até o pescoço,
O Teatro Municipal imponente, o Carlos Gomes regendo a tragédia ao fundo
(ali faltam dois prédios, ninguém diz mais que eles desabaram, mas a gente gosta daqui,
eu gosto do Rio, apesar disso tudo)


Ao fundo da Senador Dantas, está o Largo da Carioca
(eu não vou lá porque aquele é o Liso do Suçuarão da cidade do Rio -
veredas tortas, veredas mortas - ali mora o demônio)
da esquina eu vejo os Arcos da Lapa e de lá me vêm
os choros que eu não quero ouvir! me doem tanto os choros
e me lembram aquela morena que eu perdi.

E concluo meu bom dia,
reverenciando Vei, a Sol, que impera majestosa na cidade
(salvo no Jardim Botânico, onde tem sombra pra gente descansar
e uns caminhos bucólicos pra namorar)
acenando ao Cristo, que me abre os braços, por mais que eu não lhe creia,
prometendo aos companheiros do Posto 11 que quando der eu passo lá,
pra tomar uma café, falar das tristezas e das alternativas de ser feliz apesar de tudo.

E na cor da morena, no bom dia sorridente do porteiro
do prédio de escritórios em que eu trabalho
fica a impressão de que talvez seja possível ser mais feliz aqui -
onde toda a tristeza talvez possa, ao menos, ser lançada ao mar
em oferenda expiatória de mim mesmo.

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