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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Não sorrio

Não sorrio como um idiota pra cada um que me aparece pela frente. Dizem que sorrir para as pessoas, gratuitamente, faz fluir energias positivas, beneficia o mundo, faz dele um lugar melhor pra viver. Pois digo que a alegria vã na maioria das vezes me soa artificialmente construída e prejudicial à consciência. Não me falta educação, mas não sou de sorrisos, pra ninguém. As faces sorridentes dos foliões no carnaval guardam olhos vazios: conheço bem o oco de quem não se satisfaz com a última dose, o último beijo, o último trago - sei o que é adiar o sono ao ponto de desmaiar, e acordar perdido, desejando ter morrido. A alegria imotivada dos locutores das FMs ensurdecedoras, o otimismo bestial dos apresentadores da Globo, o grito incontrolável de gol dos narradores de futebol - tudo expressões barulhentas que escamoteiam o silêncio do nada que tentamos esconder envergonhados. Ir atrás do Trio Elétrico, fazer parte dessa corrente bonita de brazilzão de meu deus, cumprir com a minha parte pra fazer um país melhor - adesões a uma vida inverossímil em que nos amparamos da tragédia que é viver. E sorrimos. 


No elevador, aqui no Rio, há pouco, um estrangeiro me relatou, em dez segundos de viagem, a trajetória que cumpriria rumo a Amsterdã. Não respondi nada, não disse lhe nada. Não o conheço, nunca o vi, por isso deixei que falasse sozinho. Ele falava, eu desviava os olhos. Ele insistia: eu coloquei os fones de ouvido. Ele me deu tchau: não lhe disse palavra. "Louco", ouvi-o rosnar, mas não era eu que falava sozinho. Não quero saber da vida de ninguém, como não quero que saibam da minha. Não há motivo para sorrir: há sim muito a fazer, mas adiamo-lo em desfiles de carnaval, jogos de futebol, conversas de bar, repentes de autopiedade e trabalho, muito trabalho, pra ganhar dinheiro, muito dinheiro. O mundo não é um lugar feliz, as tragédias do imponderável nos rondam a todo instante, além das que o homem engendra contra o próprio homem em explorações de toda ordem. Cuidemos de nós mesmos, muito quietos em nosso canto, consumindo tanto quanto podemos do que nos cair no colo, sorrindo sempre que for possível, melhor quando for da cara do outro, aí gargalhamos, rolamos no chão, mijamos de rir, quando o motivo é a tragédia alheia - neste mundo, cada um que padece conta como concorrente a menos.


Sorrimos para a sorte, mas fechamos os olhos às oportunidades diárias de subverter o horror - que vive dentro de nós, nos recônditos que a alegria gratuita e os sorrisos colgate não deixam aparecer. Beijamos a camisa, a bandeira, os desconhecidos; damos um tapa e um trago, mandamos pra dentro o que nos cai nas mãos; choramos a vitória do Senna, o campeonato mundial, a morte da bezerra; vestimos a camisa da empresa, sentimo-nos mais confortáveis em bancos de couro, e sorrimos. Sorrimos para o cliente, o balconista, o colega, a mãe, o filho, o desconhecido, o amigo, o mundo. E cada vez que os dentes clareados ardem luminescentes nas propagandas de pasta dental, fica ofuscada a carne putrefacta de milhares de corpos sem vida, mutilados, seviciados, violados, violentados, corrompidos, de lábios suturados uns nos outros, de línguas que perderam o fio e de cordas vocais esgarçadas: não sorrio.

4 comentários :

Luciana disse...

Não há mesmo como sorrir com uma leitura dessas.

Carlos Rogério Barreiros disse...

Obrigado, Luciana: a intenção era exatamente essa! =)

Fabi disse...

mas sorriu no comentário

Carlos Rogério Barreiros disse...

=) Sorri de novo!