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domingo, 17 de junho de 2012

Os olhos baixos hoje são meus

Eu nunca tinha me sentido desse jeito: geralmente eu andava no metrô ou na Paulista e achava que tinha  alguma cumplicidade com aquela gente toda. Eu achava assim, que conhecia cada olhar de sofrimento, quando as pessoas passavam eu achava que sabia tudo sobre elas: aquele que vai ali acabou de sair da recuperação da cocaína; aquele quer sair do armário mas não sabe como contar aos pais; aquela já saiu do armário mas nunca se sentiu tão sozinha porque descobriu que tem câncer - e quer de volta o primeiro namorado, o único que a entendia; aquele ali só pensa em tocar bateria, é só que lhe interessa e só pensa em si; aquela só pensa na filha mas não por amor, só por obrigação, o que é que diriam dela se soubessem que o que ela queria era jogar a filha na linha do metrô?; aquele acha que é escritor; aqueles dois não gostam um do outro, estão apenas se usando pra mostrar na empresa: ela quer dar pra outro, ele quis comer ela só pra subir de cargo, porque ela pode lhe arranjar isso; aquela velha era puta quando jovem, mas agora lamenta ter dispensado um moço bom que a queria tirar da vida; aquele velho comeu todas as mulheres do mundo, está com câncer na próstata mas não lamenta: acredita piamente que tem câncer perto do pau porque trepou bastante a vida toda. Assim era: eu acreditava que sabia quem eram as pessoas de olhar pra elas, que podia me comunicar com cada uma delas, por causa da cidade que nos cercava - nem todos eram paulistanos, mas queriam ser; nem todos gostavam da cidade, mas precisavam dela, como eu precisava.

Mas acabou: eu não me reconheço mais na Estação Consolação, tenho a sensação de que sou estrangeiro aqui. Estrangeiro não: ainda tenho o conforto de andar sem pensar pelas ruas, de saber quais são as saídas que têm escada rolante que sobe; ainda tenho cara de quem conhece a cidade: sempre me pedem informação; os amigos que não são daqui me ligam: qual é mesmo aquela pizzaria que você falou? É mais fácil ir pela Marginal, não é? Onde eu alugo um apartamento bom e barato? Mas subitamente todos os rostos me soaram estranhos, cada pessoa era uma enigma, decifra-me ou sai da minha frente que eu tenho hora pra chegar. Estou mais lento, não ando mais no ritmo da cidade: eu fiquei para trás.

Eu sabia qual era o metro quadrado que tinha maior potencial de aumento, conhecia o planejamento urbano, frequentava os bares de comidinhas e de bebidinhas, trabalhava na Vila Olímpia, bebia na Vila Madalena, terminava a noite na Augusta, poderia ter saído na vejinha como paulistano do ano, não tinha garçom pobre nem puta triste quando eu ia pra rua, todos me conheciam, e me abraçavam, e perguntavam da minha mãe, e da minha última namorada, tanto tempo faz, nem lembro mais, o manobrista deixava meu carro na porta, antes que eu me sentasse todas as minhas bebidas já estavam na mesa. Eu ganhava a corrida todos os dias, a cidade era minha em quase todos eles: eu vencia mesmo que fosse à custa do emprego de alguém - e ninguém que me conhece hoje acreditará que foi assim um dia. Mesmo eu não acredito mais: fui mesmo assim tão vencedor quanto faço crer que fui? Ou todas as vaidades - a pretensão de conhecer os rostos sem expressão no metrô - e todas as mentiras fizeram que eu mesmo não soubesse o falimento em que eu me enredava: esse de fato eu protagonizei?

Eu comecei andando de ônibus e de metrô, depois comprei carros populares, alcancei os de média qualidade e poderia ter comprado um carrão - o crédito não pára de aumentar e os juros seguem em baixa. Mas eu tinha uma vaga lembrança de como era andar de metrô e de ônibus - eu mergulhava nos olhos baixos das pessoas e roubava-lhes as almas que eu construía, e depositava nelas muita literatice e muito globo repórter: eu nunca fui escritor, senão ladrão de ideias, uma criança muito criativa, que dos olhos vermelhos da senhora no outro banco compunha uma história complicada, cheia de sofrimento, mas que acabava bem. De um atropelamento de cachorro na Marginal eu subia às alturas dos meus desejos de salvar todos os animais, desde que meu pai jogara janela abaixo um passarinho de asas quebradas que viera amparar-se em nosso parapeito - e formulava contos infantis de animais que venciam os homens e ensinavam a eles os meios de portar-se com reverência aos seres da natureza.

Sou todo falimento? Meu pai afugentou os maus espíritos que lhe fechavam o rosto e que lhe davam o aspecto soturno de neblina. Eu procurei em todos os cantos a sua solução - meu pai não era daqui,  talvez tenha encontrado na cidade distante e pequena a resposta que todos vêm procurar aqui, mas que não encontram, não encontram, não encontram - lugar de passagem, deus nos proteja da terra em que ninguém planta raízes, só desejos.

Todos vão embora daqui, um dia. Eu é que me releguei à existência esta cidade - encontrar-se onde todos estão perdidos talvez seja uma forma que eu tenha forjado pra dizer que mais vale apreciar o arbusto do labirinto do que procurar-lhe a saída. Eu me acomodara a um cantinho aonde os poucos iam: só quem era daqui mesmo conhecia. Eram todos mulheres e homens tristes como eu, todos vencedores, mas cansados, exaustos de vencer tudo, de engolir em seco as derrotas, preservando-as em silêncio, gabando-se apenas das supremacias quaisquer que conquistáramos - mas havíamos mesmo conquistado? Eu já não sabia mais: se as mentiras que contávamos pra vencer mentiam mesmo a vitória obtida. No mais, eu me perguntei: se mesmo o senhor meu pai havia encontrado o caminho dele,  mesmo que em transcendentes que eu jamais teria a coragem de pisar, não haveria jeito pra mim? Tinha de ter. No mais já era hora de deixar o morto morrer: o luto não deixa as almas irem embora, que é mesmo a função delas quando deixam os corpos. E se meu pai ficasse vagando este mundo, perto de mim, para me proteger das idas e vindas que já ficaram enterradas na cidade? Porque assim são os lugares: por mais que os homens não lhes preservem a história, a terra transforma tudo em semente que germina depois - pode ser uma flor feia, uma enchente violenta, pneus e chumbo abandonados em segredo, todos os corpos de assassinados e perseguidos, húmus às avessas, devolvidos aos vivos décadas depois, em heranças indesejadas: homens cruéis estiveram aqui, passaram rápido e espargiram dor por todo o lado.

Voltei a andar de metrô: as faces me parecem incógnitas, sem história - de passagem. Os olhos baixos hoje são meus. Não sei nada a respeito de ninguém, menos ainda a respeito de mim, acabaram-se as histórias e a criatividade. Plantei os pés no chão. Minto, mas me corrijo a tempo: talvez de mim eu saiba um pouco mais, cheguei quase a morar fora daqui, aprendi que não há ninguém que não se adapte a outro lugar. Conheço poucas histórias - mas não invento mais nenhuma. E há o amor: estranha sensação de desbravar a história dela na exata medida em que ela desvenda a minha - e ressignificamos um ao outro, sem que suspeitemos o que vai acontecer.

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