Total de visualizações de página

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Eu sou responsável

Ontem, o meu amigo Ícaro Suzuki, baixista da banda Madame Saatan, foi atropelado por um motorista embriagado - delegado da polícia civil, segundo noticia o portal G1. Passei o dia revoltado, mas como não bebo nem fumo mais, já há mais de um ano, não pude fazer nada a não ser enviar mensagens para a família e para os amigos próximos, partilhando a dor, e tentar pensar a respeito do assunto. E o que pensei fica registrado abaixo.

A primeira reação possível é demonizar o autor do crime: trata-se de delegado da Polícia Civil - sujeito que tem, portanto, supostamente, mais consciência da violência que assola nossas capitais. Queremos acreditar que um homem que vê diariamente crimes de toda sorte provavelmente tomará nojo de todos eles e levará uma vida limpa, tão distante quanto possível de toda sordidez que lhe passa pelas mãos no cotidiano. Errado: um delegado da Polícia Civil, um padre, o Papa, o Presidente da República - todos são homens comuns e terão vícios que por instantes lhes livram a cara do monturo que é viver neste mundo. Todos temos. Há um abismo entre saber que é errado dirigir bêbado porque isso pode machucar os outros, ou até tirar-lhes a vida, e não dirigir bêbado. Sabemos que fumar faz mal, mas fumamos. O delegado deveria dar o exemplo, por ser homem público, no sentido de que representa interesses coletivos, mas foi, antes disso, homem como outro qualquer. Poderia ser qualquer um de nós. Não o demonizemos, portanto.

É óbvio que ser homem comum não tira a culpa do sujeito que atropelou o Ícaro. Atropelou, vai ter de pagar. Estava de cara cheia, pode e deve ter a pena mais severa - a culpa é dele. Mas depois fiquei pensando que, apesar de a culpa ser dele, a responsabilidade é nossa. Para evitar que me xinguem, vou usar a primeira pessoa do singular: a culpa é minha. Eu já escrevi aqui antes que o horror do mundo sou eu. Me explico.

A vida toda, como qualquer homem comum, soube, por exemplo, que era errado dirigir depois de beber, mas fiz isso muitas vezes. Numa delas, fui responsável por um acidente em que meu irmão se machucou bastante. Qual a diferença entre mim e o delegado da Polícia Civil que atropelou Ícaro? Nenhuma, absolutamente nenhuma. E se disser a vocês que, depois do acidente, nunca mais dirigi depois de beber, mentirei. Sou homem comum, como qualquer um de vocês, mas tenho de responder pelas consequências dos meus atos. Tive a sorte, como muitos de meus leitores terão tido, de não ter matado ninguém.

Quero dizer com tudo isso o seguinte: acredito que nossas ações na realidade têm repercussões que sequer conhecemos. Restrinjo-me a mim: certamente as testemunhas que presenciaram o acidente pelo qual fui responsável terão pensado: eis aí mais um moleque irresponsável filhinho-de-papai que arrebentou o carro e que não vai responder pelas consequências dessa violência. E eles estavam certos. Assim, toda vez que colei na prova, que parei na faixa de pedestres, que fiquei em fila dupla, que entrei na contramão "só por meio quarteirão", que ultrapassei a velocidade máxima permitida a caminho da Ilhabela - eu estava abrindo precedentes para o atropelamento do meu amigo Ícaro. Eu sou responsável. Não o único responsável, nem o responsável direto, mas sou responsável. Quando deixei pra lá as "molecagens que todo mundo faz na juventude", quando repeti o dito popular que afirma que "aos jovens tudo se perdoa", tornei-me responsável por uma enfiada de desgraças de que não tenho notícia.

Não escrevo este texto com a intenção de me promover por meio do atropelamento de meu amigo. Nem quero dar lição de moral em ninguém - por isso escrevo em primeira pessoa. Muito menos pretendo com este texto divulgar a caretice antidrogas legais ou ilegais. Longe de mim a tentativa de limpar a consciência porque nasci em classe privilegiada. O que pretendo é fazer uma reparação: alguns leitores meus me entenderão melhor do que outros. O que pretendo é tentar verificar quais são os parâmetros que devem orientar minha vida neste mundo escroto, em que pessoas como eu - brancos de classe média, com alto grau de escolaridade, casa própria e acesso a informação - acabam mergulhando em conservadorismos como a defesa da pena capital ou da redução da maioridade penal, ou têm saudades dos "tempos da ditadura", em que "tudo funcionava melhor".

Eu não sou assim, mas corro o risco de ficar assim. Eu não quero ser assim, e faço força diariamente pra não recair em conservadorismos e machismos de toda sorte. Mas não basta: tem de ser nas pequenas ações, de todos os dias, que eu tenho de agir de outra forma, além de agir cirurgicamente nas grandes ações, aquelas em que eu tenho a chance de sinalizar algo diferente para mais gente. É o que tento fazer como professor: não sei se consigo, mas tento dizer que todo mundo tem de ter chance de dizer alguma coisa. Diria que às vezes sim, às vezes não: várias vezes me perco em devaneios pessoais de raivas contidas contra, obviamente, mim mesmo - porque, afinal, não sou diferente do delegado embriagado que atropelou meu amigo Ícaro. Mas eu tento, tento, tento, todo dia, ser melhor do que isso. Todas as vezes em que eu escolhi ir à Ilhabela em vez de aproveitar a fundo o acesso que tive à universidade pública (estudando mais, lendo mais, participando mais dos debates políticos e acadêmicos), eu fui conivente com a impunidade que talvez livre a cara do delegado que atropelou o Ícaro. Todas as vezes em que me privei dos debates do sindicato dos professores, eu servi um gole a mais ao delegado que atropelou o Ícaro. Todas as vezes em que eu disse que política não se discute, todas as vezes em que eu deixei passar o meu próprio machismo nas relações amorosas que tive, todas as vezes em que eu fiz uma piadinha racista - eu atropelei o Ícaro.  

Este é motivo pelo qual escrevo este texto: temos de fazer força para que o motorista embriagado que atropelou nosso amigo seja devidamente punido. Mas eu tenho de fazer muito mais força para que eu não seja responsável indireto por ocorrências como essa. Primeiro: não posso odiar o motorista a ponto de desejar-lhe a morte ou a tortura, tenho de desejar-lhe a reabilitação, depois do pagamento da pena. Para isso, tenho de acreditar que é possível reabilitar delegados que atropelam pessoas na calçada - porque é isso que me fará diferente deles. Caso contrário - se eu entrar no esquema do "olho por olho, dente por dente" - sou mesmo igual a ele. E eu não quero ser igual a ele. Já fui, talvez ainda seja. Mas não quero mais, pra mim chega.

Mas para não entrar na Lei de Talião, tenho de formular alternativas. E eu não tenho nenhuma proposta, a não ser as seguintes (que parecerão pouco para a maioria dos leitores): a primeira é que todas as ações da minha vida têm de ser orientadas para o esclarecimento das pessoas. Tenho de orientar as minhas ações para a desalienação, a desmercadorização dos sujeitos. Menos pelo papo, mais pela ação. A segunda é que tem de prevalecer o diálogo, nas suas mais amplas instâncias, entre os extremos mais inconciliáveis. Preciso fazer força para que todos tenham voz, para que todas as vozes sejam ouvidas, para que sejam respeitados quaisquer registros - porque as formas de dizer guardam também a senha dos seus conteúdos. Ouvir o outro, de fato, é ouvi-lo na sua forma de falar. Explico, politizando o debate: subprefeituras em São Paulo têm de ser espaço de interlocução; ONG tem de ser como o AfroReggae, cuja finalidade é a formação de lideranças que tenham voz; nossas organizações têm de transcender os partidos e os sindicatos - na esteira dos movimentos sociais e das experiências registradas pelo Boaventura de Sousa Santos.

Ainda bem que consegui terminar este texto com esse parágrafo anterior, que é propositivo. Eu não aguento mais sentir raiva, em cuja base está o medo: eu precisava encarar de frente, sem temer, a verdade mais escrota sobre mim, que fica registrada aqui: eu também sou responsável pelo atropelamento do Ícaro. Não o único responsável, nem o responsável direto, mas sou responsável.

E por isso, peço desculpas a ele, amigo querido que não vejo há tempos, também por responsabilidade minha. Saudades, com uma oração que lhe faço, do meu jeito.  
  
  

Nenhum comentário :