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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Conto de Futebol

Gritaria interminável aqui no prédio: algum time carioca foi campeão. Não acompanho futebol – não porque o jogo em si me desagrade, mas tenho medo dos homens cegos pelo time, abraçados, urrando gratuitamente um hino de sons guturais, fogos de artifício, Vivas! Morras!, uma enfiada de impropérios, xingamentos, desejos de matar mesmo. Meu pai me chamava mesmo de maricas: português grosseirão, todo ele um lucro só, comerciante desde muito jovem, chegado ao Catete na década de 50, ele mesmo é que nos mandou, a meu irmão e a mim, para São Paulo: era para que estudássemos Direito no Largo, para sermos políticos. Se fosse em Portugal, ele dizia, nos mandaria a Coimbra estudar Economia ou Medicina. Era bravo, meu pai – e sabia aproveitar a vida, em bares, entre outras mulheres, uísque, charutos cubanos e carteado, tanto que era já quarentão quando foi pai pela primeira vez. E adorava futebol: ia ao Maracanã quase sempre que podia, não interessava quem jogasse. Se não podia ver o seu Porto do coração... ia assistir pelo menos ao espetáculo do futebol brasileiro. Viu Pelé, viu Garrincha. Meu pai acostumara-se ao Rio, como se fosse sua própria terra. Fugira de uma aldeia próxima de Braga, com minha mãe, escondidos os dois, às pressas, porque o pai dela não autorizava o namoro. Vieram pro Brasil fugidos. Acho que se deram bem, meus pais.

Ele tentara incutir em mim e no meu irmão o gosto pelo futebol que já trouxera de Portugal e que se tinha acentuado aqui no Brasil, país que ele adotara mesmo para si. Mas meu pai tinha emprestado dos canarinhos um jeito que me desagradava: quando ia me driblar, às vezes me empurrava, puxava-me a camisa se eu o desarmasse, não hesitava mesmo em dar carrinhos violentos. Eu gritava falta, mas ele e meu irmão riam e seguiam me fazendo de bobo, no bobinho – e era como se valesse a trapaça, mesmo entre nós, que éramos família. Eu acabava abandonando o jogo, porque eu não tinha tanto gosto assim pra bater bola, não queria ganhar, só queria me divertir com ele, só queria desfrutar do convívio com ele, que eu amava, apesar de temer, por causa dos repentes violentos que ele tinha quando bebia um pouco a mais. Também amava meu irmão mais novo, me sentia responsável por ele. Depois, quando mal entrávamos na adolescência, meu irmão brilhou no time de futebol do Santo Inácio, onde a gente estudava – meu pai teve orgulho. Não tive inveja porque meu irmão mais novo era mais bem quisto do que eu, tanto em casa quanto na escola, mas fiquei triste, porque o que o pessoal dizia era que o Quim, meu irmão, era mais esperto do que craque, fazia as catimbas de que o time precisava pra esfriar o moral do adversário quando este crescia na partida, ou provocava, sem o juiz ver, os jogadores da outra equipe pra provocar uma expulsão. Meu pai aplaudia. No colegial, ele mandou a gente pra São Paulo argumentando que o Rio estava um perigo e que o futuro estava na Avenida Paulista.

Estudei em São Paulo, mas frustrei um pouco as expectativas do homem: não fiz Direito, ao contrário do meu irmão, aluno primeiríssimo da São Francisco e destaque nos Jogos Jurídicos. Escolhi arquitetura, inspirado no Chico Buarque, meu ídolo, pelo qual eu aprendera a tocar violão. Acreditava que projetaria uma segunda Brasília, ainda mais ousada, ainda mais popular na concepção. As curvas de Niemeyer eram as curvas das mulheres que eu desejava, no Sujinho ou no Riviera. A gente fazia USP, meu irmão e eu, mas não saía da Consolação, depois beirava pras zonas da Augusta, porque morávamos no limite de Santa Cecília com Higienópolis, meio puteiro do centro, meio esnobagem de milionário – residíamos mesmo na corda bamba, entre as putas e as meninas da FAAP. Mas essa cidade de que me lembro nos escapou pelos dedos, acredito hoje. Tinha Cine Belas Artes, pegamos até um rescaldo de Woodstock na Consolação, Jungle na Wisard. Como morávamos sozinhos desde o primeiro colegial, meu irmão e eu fazíamos o que bem entendíamos – e cuidávamos um do outro. A diferença de idade era de pouco mais de um ano, e éramos bem próximos, porque os paulistanos nunca deixam de pegar no pé dos cariocas: a gente se protegia, ele cuidava mais de mim do que eu dele, porque ele sabia se impor. E a gente também se apaulistou. A cada período de férias, em que voltávamos ao Rio de Janeiro, meu pai resmungava que ficávamos cada vez mais paulistas, que não o abraçávamos mais, que estávamos frios feito pedra de gelo, especialmente meu irmão, Com ares de barão do café, quatrocentão bandeirante, meu pai agredia a família da namorada de meu irmão, riquíssima, família de juízes e desembargadores de antes do tempo do Rei. Não perdi a chance de dizer ao velho, em defesa do meu irmão, que beijar o próprio pai, a mim, parecia coisa de maricas – revanche que eu aguardara pacientemente desde muito tempo. Meu pai ficou mais sisudo e mastigou o bacalhau que a minha mãe preparara.

As mortes todas vieram depois: meu pai teve um câncer previsível no pulmão, o homem-chaminé. Foi um dia bonito no Catete, diversos comerciantes antigos do bairro acompanhando o rabecão até ao São João Batista, meu pai dormiria entre aqueles artistas e políticos todos. Minha mãe, que só vivia pra ele, morreu poucos meses depois – disseram que de desgosto, no apartamento antigo do Flamengo, de que eles não saíram nem amarrados, por mais que pudessem ir para o Leblon ou para os Jardins, no prédio em que meu irmão morava, já casado. Disseram que acontece bastante isso: morre um cônjuge, o outro perde a vontade de viver. Pusemos as cinzas dela ao lado do caixão de meu pai – ela pedira pra ser cremada.

E foi aí que começou o que eu quero te contar: o Quim ficou responsável pelo inventário que, se não era milionário, também não era de se deixar passar, havia principalmente os imóveis que meu pai acumulara ao longo da vida, coisa de português. Nada mais natural: meu irmão era advogado, entendia melhor os trâmites legais, acordamos que ele seria o inventariante e que eu não me preocupasse com nada. Em pouco tempo tudo estaria justamente dividido, rigorosamente metade pra cada um. Foi então que meu irmão mudou, nos meses seguintes: cada vez que eu perguntava a respeito do assunto, ele me dizia que eu não sabia as besteiras que meu pai tinha feito. Devia pro bicho? eu perguntei, porque sabia que meu pai jogava sempre, ainda antes de ficar velho acreditava que os sonhos lhe enviavam mensagens cifradas que ele tinha de desvendar – o inconsciente falava, ele dizia froideano. Mas meu irmão desviava do assunto e me pagava o almoço no Figueira ou no Rodeio, dizia que não me preocupasse com dinheiro nem com a burocracia toda, se eu precisasse de dinheiro que lhe pedisse. Eu até precisava, mas tinha vergonha de pedir: meu irmão mais novo já sócio no escritório do amigo do pai da moça, circulando de Cherokee, eu bolsista do CNPq, fazendo bico, pesquisando a obra de Niemeyer, apertado pra pagar as contas do apartamento da Santa Cecília sozinho. Mas foi a minha cunhada que pela primeira vez atendeu o telefone do meu irmão e disse que ele não podia me atender. Desde então, ele nunca mais pôde.

Quando saiu o inventário, meu irmão mandou o advogado dele me dizer que eu ficara com o apartamento do Flamengo, que estava fechado desde a morte de minha mãe, com uma dívida alta de IPTU, que eu assumi. Eu no fundo sabia que meu irmão estava me enganando, hoje eu sei, depois de tanta terapia e reunião: eu tinha assinado uma procuração de plenos poderes para ele. Mas eu não podia, não queria acreditar que ele me daria o chapéu – a gente era irmão, eu cuidava dele quando ele era pequeno, mas depois de um certo tempo eu é que dependia da assistência dele, arrumava as namoradas sempre na turma dele, tirava uma casquinha do prestígio que ele sempre tinha, o prestígio que ele tinha herdado do meu pai, aquele jeitão de conhecer as pessoas, de entrar nos lugares e ser notado por todo mundo, de atrair a atenção das mulheres, de sempre se dar bem no fim, a qualquer custo, que nunca parecia alto, que sempre parecia ter a leveza e a naturalidade do gesto que encantava as pessoas.

Gritaria interminável no prédio: vou andar na praia. Recuperei esse gosto que eu havia perdido, caminhar na praia, saio pelo Aterro aqui do Flamengo, vou até Botafogo. Mas hoje estou perdido, a confusão de fogos de artifício, a barulheira na cidade, a gritaria nos bares, as buzinas muitas. Pois sigo andando, atravesso Copacabana, alcanço o Arpoador e sigo: vou até o Leblon, com sorte encontro meu irmão, que comprou apartamento por lá, na General Urquiza, porque o filho da puta gosta de ficar perto do Marina. Se eu encontro ele, encho a cara de porrada. Mas é o fim da tarde e me encanto da paisagem – minha raiva não é real, nunca foi. Eu estou é decepcionado, mas sempre conheci a verdade. Às vezes eu não queria era ver. Mas o dia está tão bonito que perco a vontade de briga e aprecio a praia. É dia quente: na areia, joga-se de tudo. À minha direita, um casal jovem de namorados, ela e ele musculosos, os corpos definidos, atracam-se pelo chão, não em um beijo apaixonado, mas em treinamento de MMA, claramente definido pelas orientações que ele dá a ela. Assusto-me, porque suponho que qualquer um dos dois que se machuque pode brigar de verdade com o outro, mas a lógica entre eles parece diferente: a agressão é carinho e diverte. Mais à frente, adolescentes equilibram-se em cordas bambas, tesas entre palmeiras próximas, saltitam, cantam, divertem-se sem tocar o chão – engendram o impossível de flutuar por um instante, em naturalidade que encanta as meninas e os turistas que registram tudo avidamente. Desagrada-me a exibição gratuita, quase exótica, de uma habilidade acrobática para estrangeiros espalharem nas redes sociais, impressionados com o sorriso do menino pobre que se equilibra na corda e pede um real.

Abandono o espetáculo aborrecido e vislumbro a orla como um todo, mais amplamente, em perspectiva – é coberta de guarda-sóis, pouco se vê a areia. E além do vai e vem das ondas, percebo que a praia empresta vida dinâmica a milhares de bolas que saltavam daqui para lá, de um lado para o outro, em traçado elíptico ou circular, rotativo e translativo, diferente e idêntico às curvas de Niemeyer, entre redes de vôlei ou de futvôlei, de campos demarcados na areia, entre gols demarcados por chinelas, sob os olhos atentos dos estrangeiros.

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