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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dia dos mortos

A cidade vazia, embora não pare: é toque de recolher disfarçado de madrugadinha afora de primeiro para dois de novembro, dia dos mortos. Mas os mortos estão aqui, argumenta um colombiano, morador de cortiço da região central, ancestrais indígenas, é o que se vê pelos lábios, pelos olhos, pela tez, apesar do corpo e da voz claudicantes: é preciso falar com os mortos. Que venham os mortos todos, eu respondo - nunca precisamos tanto deles por aqui.

Mas é que a gente não deixa os mortos morrerem - argumenta um espiritualista agnóstico. E parece que faz mesmo sentido. Choramos tanto os mortos, e as vozes, e as roupas, e os corpos, e as presenças deles, tudo que deixaram, que não abraçamos forte as crianças que já vem chegando, que já vem andando quase e falando ao telefone, os dedinhos correndo a tela do smartphone da esquerda para direita, já elas todas brutalmente prontas para o mundo que os mortos deixaram.

(Mundo desacertado, argumentam uns bons professores. Não é querendo desmerecer as heranças - mas ficaram é sim uns despojos genéticos de olhos e de unhas bem grandes, cabeça pequena de criança inconsequente, corpo musculoso de rato de academia, pé nenhum: flutuamos na iminência de uma nuvem ao rés do chão, que não nos deixa ver onde pisamos)

Ficam os mortos portanto interditos: nem podem nos ajudar de caso pensado, iluminados, transcendentes, porque não os deixamos cumprir a saída deste mundo; nem somos nós propriamente os viventes - para morrer, basta estar vivo. Mas que é preciso para estar vivo? Este é o lugar nenhum, e aqui somos apenas semoventes ocos, se nos for permitido vagar.

(Homens baterão à porta à procura de abrigo antes mesmo de outros homens baterem à porta à caça daqueles - delegamos a alguém que já nos foge à memória toda a maldição e toda a benção. Esquecemos, passou. Alongamos o futuro todo na medida do estreitamento do hoje. Aprisionamos os mortos e prestamos culto à vitrine: é nela mesma que depositamos toda a fé)

A cidade vazia, embora rasgada de um ronco interminável de motocicleta, das ruas, das marginais, das radiais, dos rodoanéis, de um lado pra outro, em círculos, sem produzir nenhum sentido, sem chegar a lugar algum, deixando rastro de fumaça e de zoada infernais. Mas aqui é mesmo o inferno, não existe amor aqui, temos manual prático de ódio, estamos em pânico há muito tempo: as vozes que não podem ser ouvidas não são entrevistadas no jornal, e ficam assim artificiais, registradas por quem nunca as pôde nem quis ouvir.

Explosão: o choro alto do recém-nascido sujo da mãe, cortam-lhe o cordão umbilical e ele silencia, porque já não pode viver. Na sala de parto há uma televisão, as enfermeiras debatem a novela, o médico e os residentes falam de futebol e o anestesista está grogue de ter bebido um pouco antes do trabalho. Trabalhar no feriado: quem mandou endividar-se por causa do carro novo? ele rumina passivo.

Imprecação: o anestesista não quer mais sofrer tanto, Mas que se foda tudo (a frase é dura, mas ele não pode sentir nada), o de cima caga no de baixo, e esse cirurgião é um metido filho de uma grande puta, por mim, podem morrer todos. As enfermeiras não vão pra casa por causa do toque de recolher. O médico não mora no bairro perigoso. Os residentes vão dali mesmo pra balada, com guloseimas furtadas ao hospital.

Ninguém sabe, mas a criança percebe tudo e arrefece. Ninguém percebe, nem quer acreditar que o coraçãozinho nem bem nascido já se havia partido em pequenos pedaços de asfalto e pólvora - uma fuligem de nada, que é mesmo o cordão que ata a vida à morte. A criança desanimou antes mesmo de olhar o mundo, apesar de todos os monitores, reanimadores, técnicas de massagem cardíaca, produtos químicos, frases de autoajuda, Volta, garoto, implorava o anestesista, que teve de ser arrastado pra fora da sala de cirurgia porque se mijara todo. As enfermeiras rezavam, o médico não podia acreditar que perderia uma vida naquele dia, os residentes se emocionaram, mas descobriram no instante seguinte que   era aquela a primeira de muitas histórias que poderiam capitalizar em almoços, debates na faculdade, festas de família e amigos, numa autobiografia a respeito do desafio de ser médico em uma sociedade que perdeu a confiança na efetividade objetiva da ciência.

Longe, bem longe da cidade - um diabo ronda as matas, e os homens não podem resistir: cogitam de suicídio coletivo. Os mortos de muito antes querem falar, mas não podem: estes vivos é que não podem ouvi-los.  

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