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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Ponte Aérea



(Dos "Cadernos do Rio de Janeiro", que estou preparando, dedicado aos amigos Marcello Bolzan e João Marcelo Souza)

Dispo-me agora frente ao detector de metais que
se funcionasse apitaria em silvo americanófilo:
Lá vai o Carlos, pseudocomunista, falso acadêmico,
farsa de carne e osso, que ninguém descobriu
porque ele deu sorte.

Mas não me barram: sigo adiante
no mundo estrangeiro da mercadoria,
alheio eu às marcas, que se agigantam,
alheio o mundo aos homens,
que se apequenaram, ou desapareceram,
ou zelam pelos relógios da vitrine.

Sento-me no sofá da sala VIP:
ali todos os homens são importantes –
eu também sou:
nossos nomes vão inscritos sob a insígnia
de um guerreiro clássico e plástico.

As notícias na tela da TV,
As partidas e as chegadas,
As telas de pequenos computadores –
todos os homens levam consigo o mundo
(ao menos o mundo deles próprios,
o que já é alguma coisa).
Eu fantasio que levo o Brasil na bolsa
na Antologia Poética de Drummond em livro,
na Obra Completa de Machado em PDF.

Embarco: é proibido sentar ao meu lado,
comprei mesmo a passagem que impede
a alguém que me faça companhia.
Tiro os sapatos: terei paz e algum silêncio
por quarenta preciosos minutos.
Não quero suco, nem água, nem barra de cereal,
e torço para a queda do avião
para que possa carbonizar-me silenciosamente
enquanto os outros passageiros e tripulantes gritarão
desesperados: ai, minha mãe! ai, meu pai!
Fecho os olhos, com a música no volume máximo.

Desperto: sobrevoo a Ilhabela com reverência,
Identifico as praias, trechos da estrada que beira ao mar,
(uma curva em que eu quase morri quando moço)
o hospital da Ilhabela, a Vila, sinto o Cheiro Verde,
e cruzo a Ilha em um olhar rumo a Castelhanos,
sem precisar de jipe: uma parte minha ficou lá,
quando pouco já bastava
– todo meu afeto eu deixo na Ilhabela.

(Eu programo no iPod a trilha sonora
da Trilogia das Cores: Home at Last
e sinto-me como se viajasse entre as bagagens
mas não há ninguém ao meu lado,
porque eu paguei pra ficar só)

Do Not Take Another Man’s Wife:
sobrevoo a Ilha Grande e procuro em vão
o presídio: não há nada lá.
Sob os escombros, posso ouvir os gritos dos homens
que pedem outra lápide, não esta, sobre seus corpos.
Não pedem perdão, porque sabem que erraram.
Não pedem oração, porque estão perdidos.
Não pedem epitáfio, porque não cometeram grandes feitos.
Pedem memória: basta-lhes o nome na pedra
para que possam ser chorados talvez pelas amantes,
talvez pelos filhos que deixaram.

A Valsa pra Lua, de Vítor Araújo,
demarca a areia delgada da Restinga do Marambaia,
praia em que quase ninguém pôs os pés,
quase só um traço de areia,
em interstício de lagoa e mar:
todos caminhamos ali,
sob o sol guascante que castiga os lombos
sob a tempestade tropical que enregela os ossos
sem que se possa saber onde começa o mar
e acaba o céu desabado sobre nós.

Vejo Rio de Janeiro: A Última Sessão
o Recreio, a Barra, o Engenhão e o Maracanã
(assim, um depois do outro,
e comprimo a sensação porque
dentro de instantes pousaremos
no Aeroporto Santos Dummont)
Vejo o Rio de Janeiro:
o Cristo, a Lagoa, o Pão de Açúcar
e me encanto de tudo,
esvai-se-me a sensação de propriedade
e abraço a cidade como se fosse minha.

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