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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sobre educação e violência

No dia dos professores, publiquei o texto 15 teses sobre professores e educação, que teve pouquíssima repercussão, muito provavelmente pelo conteúdo que apresentava. Tudo bem: sigo insistindo que este blog jamais alcançará mais do que o recorde de 150 acessos num dia. Eu já sabia que não seria lido, pois, desde o primeiro post,  eu afirmava que este blog conteria "restos de mim que, embora dispersos, muitos ilegíveis, a maioria deles desprezível". Pior: esses restos eram e são "cacos de um objeto que nunca chegou a ter unidade e que ficarão disponíveis por aqui, para quem quer que tenha tempo livre para ler".

Certamente poucos têm interesse de catar cacos incoerentes de um todo que jamais foi composto. Não os culpo: eu mesmo me canso das minhas incoerências. Mas eis que me deparo com a reportagem sobre o apedrejamento da casa da menina que tem uma página no Facebook intitulada Diário de Classe. Pelo clima que se pode notar pela página do Facebook e pela reportagem, para evitar que a menina escreva, agora recorre-se a certa xenofobia, o que me leva a algumas reflexões, desdobramentos daquelas teses que defendi no dia dos professores.

A primeira é que em qualquer escola, seja pública, seja particular, donos de escola, diretores, coordenadores, professores, funcionários e pais de alunos não pensam nos alunos em primeiro lugar - e deveriam pensar. Basta estar numa escola pra saber que os alunos que reivindicam pelos direitos dos alunos acabam enterrados em montanhas burocráticas e disciplinares; diretores, coordenadores e professores que fazem o mesmo ou são calados, ou demitidos; pais de alunos que interferem muito recebem o convite de tirar o filho da escola.

É o caso dessa menina, que convocou publicamente todas as instâncias da escola à mobilização pela melhoria do ensino. Está certa ela, e a intransigência do apedrejamento só revela como a escola brasileira não está pronta para o diálogo - exatamente o que a escola deveria fomentar. Mas não se produz diálogo com o professor no tablado ou em pé, enquanto os alunos estão sentados e dispostos em fileiras. Ninguém descobriu a aula em círculo ainda? Certamente não. Mas o bonito é perceber que uma singela página no Facebook convoca todas as instâncias escolares à revisão de suas posturas. O diretor terá de melhorar a gestão; o coordenador terá de aprofundar a mediação entre alunos, professores, pais e direção; os alunos, se cobrarem melhorias, terão de parar com as vadiagens e meter a bunda na cadeira; os funcionários terão de preocupar-se com a preservação da escola, dialogar com seus superiores a respeito disso; os pais terão de participar mais de todos os processos. (Mas o que todo mundo quer é chegar em casa logo e cuidar da própria vida: dizer que é preciso investir em educação qualquer um diz: quero ver é atuar em nome da educação no cotidiano).

Não há teoria do diálogo, há apenas a prática do diálogo - e esta não acontece nas escolas brasileiras, sejam públicas, sejam privadas, salvo raríssimas exceções. Piores são as privadas, em que é eterna a queda de braço entre pais (que acham que são donos da escola porque pagam as mensalidades) e os donos da escola (que de fato são donos da escola). A maioria dos pais acredita que a escola tem a finalidade de preparar seus filhos para o mercado de trabalho; os donos de escola acham que estão preparando, mas sempre na medida da margem de lucro que pretendem angariar ao final do mês. Quanto à formação do pensamento crítico dos alunos, fica sempre em último lugar: filhos com pensamento crítico dão problema, argumentam, agem sem consultar, depois de diversas tentativas de diálogo com os pais, que não dialogam; alunos com pensamento crítico dão trabalho, impõem à escola as novidades que ela ainda não soube assimilar - a crítica pública, em redes sociais por exemplo.

O mais grave é que a resistência à menina tomou a forma de xenofobia: aí a coisa complica mais, e demonstra que o mundo de fora habita a escola - por mais que os profissionais da educação insistam em pensar a escola como entidade à parte do mundo. Creio que diversos fatores - que seria extenso elencar aqui, mas entre os quais se incluem principalmente a universalização do acesso ao ensino, na década de 90, alcançada na Era FHC, mas sem a permanência e a qualidade, ambas ainda por alcançar; a ampliação do acesso à internet; as políticas de destinadas à redistribuição de renda, de Lula-Dilma - contribuem para que cada vez mais se faça ouvir a voz daqueles que deveriam ser o centro para o qual devem convergir todas as forças dos profissionais da educação e dos pais: os alunos.

Olha, cansei de ver escolas, donos de escola, diretores, coordenadores, professores, funcionários e pais de alunos que não pensam nos alunos. Ora, a finalidade da escola pode ser também prepará-los para o mercado de trabalho, mas parece que ela não pode ser apenas isso. Muitos argumentarão afirmando que o mundo é que é assim, e que é assim que tem de ser. Mas discordo: todos sabemos que os sujeitos que "se dão bem" passam muito além dos conhecimentos formais ensinados na escola, às vezes até prescindem deles. Outra coisa: o que é "se dar bem"? Eu daria uma boa aula sobre isso. Mas nenhuma escola ou pai de aluno quer ouvir um profissional que afirme categoricamente aos alunos: "Vai fazer letras se você quer passar a vida lendo poesia; vai fazer teatro, se quer passar a vida no palco". Depois de tudo que vivemos, depois de todas as terapias, meditações, missas, cultos, livros de autoajuda - será que ninguém percebeu que há um teto de propriedades materiais que são suficientes pra viver e que o resto - luxos, exageros, carrões, ostentações - não trazem a felicidade? Quase sempre é o contrário: o apego a esses luxos é aprisiona as pessoas às suas baias nas empresas multinacionais.

Há ainda o dado da violência. Eu nunca achei que chegaríamos ao ponto em que estamos - em que a violência das classes dominantes se renovaria com tanta força. Aqui em São Paulo, a guerra entre criminosos e polícia militar traz à tona os discursos mais violentos, os da extrema direita, como foi nas eleições - e as populações que mais sofrem são as das periferias, vitimadas no meio do tiroteio e da gratuidade dos assassinatos e das violações à liberdade: à cata do criminoso, esculacha-se o homem comum, trabalhador. No Rio de Janeiro, a pacificação foi conquistada a reboque de uma cidade militarizada: há pelo menos uma dupla de policiais militares ou civis a cada esquina da Zona Sul - é isso uma cidade segura?, me pergunto toda vez. Em Floripa, suposta "cidade mais bonita do mundo", como afirmou o prefeito que acaba de ser eleito, é apedrejada a casa de uma menina que denuncia o descaso com a escola em que estuda e sugere-se que ela e sua família abandonem a cidade, porque não são de lá. É este o país da tolerância?

Não se trata apenas de São Paulo, Rio ou Florianópolis: a violência está latente na experiência brasileira, sempre esteve, mas também sempre foi escamoteada por discursos em que pululam os lugares-comuns da "tolerância", da "igualdade de raças", de "mestiçagem", de "cordialidade". A Nação supostamente mais simpática, dócil, musical, acolhedora e cheia de ginga é também aquela em que não há diálogo toda vez em que o poder constituído é ameaçado; a simpatia acaba dependendo do bairro em que se está; a docilidade vai por água abaixo quando pistoleiros fuzilam os sem-terras, quando não se diferencia a polícia dos bandidos; são a ginga e a malandragem que permitem as furadas de fila, as paradinhas em fila dupla, as pequenas e as grandes corrupções.

É na escola que se aprende - eu me lembro bem, porque também minha avó sofreu ameaças quando defendi  meus pontos de vista, vinte anos atrás - que "fala quem pode, obedece quem tem juízo". Não mais.


  

3 comentários :

Anônimo disse...

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/1180873-sem-centro.shtml

texto que me fez lembrar de ti. (apesar do pedantismo do autor)

Carlos Rogério Barreiros disse...

Lembrou-se de mim, anônimo? Por quê?

Anônimo disse...

porque o senhor é dado a literatura periférica.