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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Impressões de cheiro, cor e outros tantos sentidos obscuros

Manhã: abro a janela e Copacabana vai entrando em casa sem pedir licença. Entra simplesmente em forma de brisa do mar às avessas - que aqui não tem só mar, tem asfalto, tem fumaça de óleo diesel, tem aroma de dendê logo cedo, sabe-se lá quem é do prédio que cozinha às sete da manhã. Arranho os olhos, lavo a cara: mas é no Rio que estou?

Tomo banho rápido, visto rápido a roupa, jeans e camiseta, é e foi assim sempre, não muda, salvo o humor - melhor, camiseta clara; pior, camiseta escura. Em dias difíceis, em que encontro os companheiros no início da noite, todos me dizem que amanhã vai ser melhor: estamos todos taciturnos, mas nutrimos grandes esperanças. A cidade cheira ao perfume que uso pra espantar o monturo que guardo em mim.

Quando entro no elevador, mofo: mofo dos turistas e moradores que circularam aqui molhados de mar, que se embriagaram na praia e decidiram dar um último mergulho, e que por isso foram deixando gotas de excitação melancólica no elevador - identifico-as todas, não perco uma sequer, o corpo não deixa, em assimilação somática do que está para além de mim. Posso sentir quase mesmo o calor dos corpos, o cheiro de sal, de cerveja e de cigarro escorrendo pelo corpo.

Abalo pela Viveiros de Castro: estamos em plena Copacabana. Cheiro de mar, cheiro da lavanderia - há pilhas, toneladas mesmo de lençóis com cheiro de doença, de todas as doenças, de roupas pra lavar, todas manchadas de gotas de sangue de picanha, cerveja derrubada, chope entornado que escorreu pelo canto da boca, porra, azeite de dendê (o mesmo que eu senti logo cedo), chocolate, açaí, sangue de porrada na cara, sangue de menstruação - tudo que vai escorrer sabe-se lá por onde, desaparecer da frente - a gente só quer ver mesmo as coisas bonitas da cidade, a princesinha do mar, a garota de ipanema, as relíquias da cultura e da exuberância brasileira, deus abençoe esse país.

Mas o chão tem merda escorrida de todos os cachorros de todos os apartamentos, dos quais caem pontas de cigarro, que espalham fumaça e cinzas que posso sentir em todos os lugares - é em mim que reverberam os gritos da madrugada que ouvi durante o sono. Não acordei, mas registrei - foi aqui mesmo, na esquina, que a namorada apanhou do namorado embriagado, que o travesti prometeu fazer um escândalo, que o gringo deu um pega, que mijou o primeiro cachorro do dia, passeado do aposentado que fede a naftalina, porque não tem mais vida, porque não soube envelhecer trabalhando - única alternativa de longevidade no presente. Nem há mais passado, o futuro está encolhido, melhor não pensar nele.

Há lixo por toda a parte, ainda que não vejamos. Tento me acolher no perfume que carreguei no corpo pra fugir do monturo que há em mim, da esterqueira da rua - já levaram o lixo, mas ele ainda está lá. Vejo uma pessoa em trapos debaixo da marquise de um prédio de apartamentos da década de 50, se não for de antes. É um cagaçal - talvez não seja pessoa, os pés pretos, encastoados de piche, asfalto, merda, areia da praia e chão de bar. As unhas crescem - ouvi dizer de uns voluntários que cortam as unhas a essas pessoas. As barbas misturam-se às roupas surradas, há entre um moletom rasgado e um edredon do
Flamengo (ou será uma toalha de praia?) - um cachorro ali aninhado, que também aquece. Saltam-me as pulgas no corpo por instante, mas voltam atrás - Ele não dorme mais aqui, disseram. Apresso o passo.

A entrada do metrô me abre a boca de hálito quente: eu sei que há ratos ali, escondidos, que dançam à noite nas praças Lido e Serzedelo Correia, em baile perfumado, maldito, devorando o lixo, a merda, os restos, as pessoas. Pra que tanta chuva? Pra que tanto sol? Os dias são como os homens - não temos a medida, bravatamos a noite toda para podermos suportar o dia, em que nos encaramos uns aos outros no vagão que cheira a metal queimado, a jornal vagabundo e a perfumes de que abusamos pra disfarçar a decrepitude putrefacta de nós mesmos.  

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