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domingo, 6 de janeiro de 2013

Todos nós, um só: o mesmo

Nas estações de metrô da Zona Sul do Rio de Janeiro despontam cartazes brutais de propagandas da Nike,  em que se abusa da palavra Grandeza ou Grandiosidade, não lembro bem, mas não importa: o leitor, se não viu a propaganda, já entendeu o espírito, o mesmo do Amo muito tudo isso do McDonalds - apropriar-se das palavras pelas quais o cidadão médio tem algum apreço e investi-as e vesti-las da camisa da empresa. O poeta que vive de formular máximas de propaganda, fixando os clichês que vão cair na boca dos consumidores, e o músico que cria os jingles que serão assobiados insistentemente nos ônibus, nos metrôs, nas escolas e nos bares - são todos pretensos artistas que se apropriam de uma fórmula que vai se apropriando dos campos de sentido da língua e da canção popular, acanalhando-as. Terá sido o mentor de todos eles aquele que teve a ideia de usar Beethoven para anunciar a chegada do caminhão de gás, que no Brasil esteve umbilicalmente ligado à ditadura civil-militar. A grandiosidade, o amor e Beethoven estão tocados desses midas deste nosso tempo, em que crianças se encantam das empresas tanto quanto das personagens de desenhos animados, ambos, a molecada e os desenhos, nada mais que coisas ou animais, uns pra comprar, outros pra vender - e vice-versa.

Nos saquinhos de açúcar, frases edificantes inspiram o bom dia da mãe e esposa ao marido e aos filhos no café da manhã de um hotel de cadeia internacional, cujas unidades são idênticas em todo o mundo, em nação unívoca presidida pelas mercadorias: na mesa ao lado, as mesmas frases e o mesmo açúcar tonificam os ânimos do pessoal de vendas de uma empresa qualquer, em viagem à cidade fulgurante, de cujo afluxo de capitais todos querem abocanhar um pedaço. Os ensinamentos do pai e do gerente de vendas se assemelham, as programações do dia também: as gracinhas do palestrante motivador no evento corporativo não são tiradas mais inteligentes do que as do guia turístico apalhaçado que entoa o último sucesso esganiçado e infantilizado ao microfone, no ônibus, cercado de famílias-doriana e aposentados de ouvido regredido, sem serem surdos.

Já sabemos: o pai chamará à esposa e aos filhos de time, e o gerente se referirá à sua equipe como família. Todos tiveram os ânimos exaltados dos imperativos autoritários do saquinho de açúcar - "Viva intensamente", ordem a que acedemos aderindo à alegria compulsória, que não permite observar as violências cotidianas, as pequenas, mas não menos violentas; "Tira o pé do chão" manda o animador a que a TV chama de artista, assim investido porque assim nos foi dado. Quando as grandes violências forem noticiadas todos entrarão em choque, e quando se fizer necessário levantar o pé do chão e levantar a voz para além do grito de gol estarão todos quietos assistindo à TV. Na rifa dos sorteios do canal gratuito, só terá grandeza quem estiver vestido e investido de Nike; só terá amor quem estiver com a barriga cheia de Big Mac; todos assobiarão Beethoven em uníssono, tirando o pé do chão, comemorando mais um gol, mais um carnaval, abraçados, chorando, vestindo a camisa da família, todos ligado a uma só nação, a do time, que fez de todos nós um só: o mesmo. 

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