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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Grande acontecimento 42 - O filho do cientista

Esquina território aberto: os homens estão em conflito. Ninguém presenciou de fato o atropelamento do cachorro. Não tinha dono, tinha indigência: atravessou, embora na faixa, sem olhar pros dois lados e foi fulminado pela SUV furiosa de marca internacional, da terra de ninguém, onde as mercadorias têm a segurança garantida por homens truculentos que assustam mais que Cérbero. Mas este cãozinho que agora convulsiona os últimos espasmos de vida alegre na terra dos homens não pôde ter medo: atravessava irresponsável a rua, como devem ser os cães, o rabo balançava querendo e bem quisto pelos mendigos da praça de baixo, ele os aquecia, eles o alimentavam em simbiose mais vantajosa para os homens, que os cachorros afinal dão carinho e calor sem cobrar nada.

Uma criança observa atônita o horror da agonia: a criança desconhecia a morte, agora já nem criança é mais, desencantou, erigiu-se em amálgama estranho de medo de morrer e empatia pela dor, o cão não está mais aqui, faço força para crer que já esteja no paraíso canino, repleto de gatos pra perseguir e de ossos fartos pra degustar. Morreu o cão, morreu a criança, e o motorista justifica a si mesmo que tinha pressa e que se não cruzasse a avenida naquele instante perderia mais um minuto, mais um, além daqueles que ele enrolou na cama, enrolou na privada, bateu uma punheta no banheiro cometendo adultérios inconfessáveis, enrolou brigando com a mulher, perdeu levando o filho na escola - quem paga essa porra toda sou eu, ainda tenho de levar esse moleque medroso pra essa escolinha riponga onde se planta uma horta em vez de fazer conta, amém.

Não suponha o leitor que a criança que se horroriza com o corpo inerte do já-nem-cão é o filho amedrontado do motorista em chamas. Nova composição do asfalto com matéria orgânica: a indústria farmacêutica propõe à indústria química parceria inédita para a criação de um novo composto de pedaços de animais mortos para revestimento do solo. Tudo forjado pela criança, que virou coisa, que virou adolescente, que virou químico que deu utilidade prática e rentabilidade garantida à experiência mais amarga que tivera: presenciara o esvair da vida de um cachorrinho na esquina de casa, atropelado pelo vizinho.

Pesquisador brasileiro ganha o Nobel: foi mesmo essa criança o primeiro orgulho científico do Brasil, o nosso herói que trouxe para casa não uma medalha, não a taça do mundo, mas sabe-se-lá-quantos mil de prêmio devido à pesquisa do novo composto. Recriou a dor, declarou o apresentador dominical da rede de tevê mais assistida do Brasil; o nosso Einstein, gritava a manchete da revista mais lida do Brasil. Você pretende inspirar a juventude, que é o futuro do Brasil, a ingressar na pesquisa científica? Sim, mas por enquanto o que eu pretendo mesmo é tirar umas férias no Rio de Janeiro, depois vou me  dedicar ao programa que vocês me deram no jornal do domingo, conhecer os artistas de novela e virar comentarista de futebol, ou de carnaval, ou o que mais vocês quiserem me oferecer. E a quem você dedica esse sucesso todo? À minha família, porque família é tudo de bom, e ao cachorrinho que perdeu a vida e cuja matéria orgânica hoje serve para a pavimentação combinada - pavimente você também as ruas de seu município com esse composto revolucionário e acabe com o problema dos animais abandonados.

(Havia um naco de criança ainda no químico: depois de envolver-se com prostitutas, drogas e negociatas políticas em Brasília, suicidou-se engolindo uma moeda, que lhe obstruiu o intestino e que explodiu, espalhando merda por todo o apartamento funcional. Dizem os amigos que desde sempre o herói brasileiro abandonara a ciência da química e se envolvera com o ocultismo da alquimia, supondo que os sucos gástricos e as enzimas poderiam transformar a liga das moedinhas em ouro puro. Nosso herói queria, por assim dizer, cagar dinheiro - e acabou cagado.

Deixa uma casa fedendo, viúva interesseira e um filho de sete anos, todos irreformáveis. O garoto, dizem que é doentiamente apegado a animais, porque em vez de doá-lo aos centros de zoonoses, abriga-os todos em casa, dorme com eles, aquece-os, e eles o aquecem, e já não querem mais nada garoto e animais. Do filho do motorista não se tem notícia).

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