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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Diálogo pra começar

Parece bastante evidente que as manifestações que têm ocorrido em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades do país transcendem a reivindicação referente às passagens de ônibus. Certamente é apressado fazer análise, especialmente sob o risco de errar feio. Mas me desagrada mais a ideia de não dizer nada; para contribuir de alguma forma, embora minimamente, penso alto, a respeito do que tem acontecido. Proponho o que nem sempre ocorre: diálogo, pra começar.

Uma impressão que sempre tive, em sala de aula e nas salas dos professores, é que dialogar ainda não pertence ao nosso repertório. Foge-nos a faculdade de ouvir o outro, com atenção, porque talvez nos falte partir da hipótese de que podemos errar parcialmente, de que conciliações são possíveis, sem negociatas, mas com adesões verdadeiras, a despeito das diferenças. Parece que a nossa herança patriarcal escravista não admite concessões, porque elas soam como sinônimos de fraqueza - impensáveis na brutalidade e na truculência dos nossos setores mais privilegiados e na polícia, que institui a (suposta) ordem que lhes interessa.

Parece contraditório (mas não é) que a cultura da cordialidade, tão brasileira, seja assim tão intransigente. Mas é preciso lembrar-se de que sob toda a lógica do favor e toda a cordialidade que permeou as relações entre os grandes privilegiados e os pobres brancos ou mestiços (sempre à cata da proteção dos ricos), a mediação fundamental na sociedade brasileira sempre foi a violência. As nossas manifestações de cultura, seja pela omissão, seja pelo protesto, sempre apontaram pra essa feição muito nossa, menos aparente e sempre difusa, é claro, nos discursos nacionalistas. Dá pra escrever a História da Violência na Literatura Brasileira, se quisermos: é o pequeno Brás Cubas que monta o escravo; é a omissão do estupro de Besita no Til, de José de Alencar. É o estupro cometido por Macunaíma, que toma Ci à força. São os abusos do Soldado Amarelo, em Vidas Secas.  

Pra ser breve - porque pretendo escrever diversos textos, com várias hipóteses: sob o signo da violência de base e da cordialidade de superfície, a experiência brasileira acaba primando pelo adiamento dos benefícios reais, concretos e de longo prazo - porque a cordialidade empurra pra frente, no cotidiano, os benefícios coletivos, sempre deixados pra trás, e privilegia os ajustes e as promessas das trocas de favor. Os compromissos privados do toma-lá-dá-cá são tantos que sobra pouco espaço pras melhorias públicas e coletivas.

Acontece que experimentamos, nos últimos dez ou quinze anos, pra assinalar apenas um aspecto, um aumento sensível do consumo, fundado no baixo desemprego e no aumento do poder aquisitivo. Teríamos ingressado no mundo mágico das mercadorias, supostamente a passagem para o mundo civilizado. Mas convenhamos: nada funciona - desde a prestação de serviços privados (quem não reclama de problemas com telefonia, internet, banco ou cartão de crédito) até a de serviços públicos. Na realidade concreta, a sensação é de terra de ninguém - se não for de barbárie. (É a velha comédia ideológica descrita por Roberto Schwarz, o descompasso entre vida ideológica importada, a que queríamos viver, e vida material brasileira, distante da primeira, mas pautada por ela, sob a sensação da falta e do atraso).

A paciência talvez estoure precisamente no que se refere ao transporte público porque é no trânsito que a competitividade (que é inerente à lógica de mercado, de que o Brasil faz parte) se associa à pior feição da cordialidade, a mania de levar vantagem em tudo (que planta raízes fundas na experiência nacional). Em termos simples: vale tudo no trânsito, desde as supostas infrações inofensivas, até às violências mais brutais, como o atropelamento premeditado de ciclistas. Talvez não seja exagerado dizer que no convívio no trânsito estão depositadas, simbolicamente, mas também de forma muito concreta, não só a miséria nacional, como também o rebotalho e o arremedo de querermos macaquear (pra falar com Mário de Andrade) nossa condição de "bola da vez" mundial, por mais que a euforia seja exagerada.

Nosso trânsito é intolerável. É natural, portanto, que o ponto de partida das manifestações esteja associado ao transporte público - mas a violência experimentada no trânsito é apenas a fenda no asfalto da qual irrompem todas as outras violências escamoteadas do nosso cotidiano.

[Atualização, 14/06/13, às 13h40: na página do Existe Amor em SP, no facebook, foi publicada carta aberta ao prefeito Fernando Haddad, argumentando precisamente que há outros canais de diálogo além da tradicional "mesa de negociações". Segue fragmento da carta, a respeito precisamente do mesmo conteúdo proposto no texto acima: "O prefeito diz que tais manifestações não são maduras, pois não são capazes de apresentar lideranças. Pois lhe dizemos com toda franqueza: é você que não está sendo maduro. Pois não compreende a nova lógica do ativismo, da auto-organização, da inteligência e da indignação coletivas. Não entende que sua resposta não será dada em uma mesa de negociações. Há outras formas de dialogar".

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