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terça-feira, 6 de agosto de 2013

A flor no banheiro do avião


No banheiro do avião havia uma rosa. Não viçava - estava até meio murcha, gasta de passar da mão do homem que a colheu, para a do transportador que a levou até o Ceasa, onde foi comprada por um lojista de flores, levada até à loja da Doutor Arnaldo, sempre em trânsito. No caminho ela própria, em semiconsciência de vegetal alienado da terra em que pôs raízes, temia quanto ao destino que teria: seria parte de uma coroa para mortos ou comporia com outras suas irmãs telúricas e de cor um ramalhete lindo que presentearia uma mulher amada, ou uma amante secreta, ou uma namorada nova, ou uma mãe aniversariante, ou uma debutante de quinze anos, ainda se usa debutar?

Pois antes de saber aonde iria acabar a vida, a rosa teve de penar o transporte até à loja, apertada entre outras rosas, milhares delas, todas em pacotes de papel pardo, todas transformadas em uma, todas sufocadas pelo cheiro de rosas, violetas, adubos, terras úmidas, terras secas, estrume, lixo, samambaias, pontas de cigarro, xaxins que não se usam mais, mas que ainda passam por baixo dos panos do mercado negro das plantas, que há tráfico e criminalidade até no que se refere a elas. Nos fundos da kombi só se podia sentir, para quem o soubesse e pudesse, o odor interminável do medo não apenas do desconhecido, mas também da plena ciência de que o descarte é uma realidade inevitável e assolaria cerca de metade dos vegetais, alguns ali já efêmeros, com expectativa de vida máxima de dias, alguns de horas, só de passagem pela vida humana.

Mas esta rosa era valente: comprimiu as pétalas, enrijeceu os espinhos e pôde suportar o transporte e o traslado para o balde de água gelada, além das seguidas supressões de alguns centímetros de talo, para durar mais. Na loja da Doutor Arnaldo, amortecida pela baixa temperatura em que se viu imersa, perdeu a primeira pétala - uma só, apenas aquela - espécie de lágrima frente ao pó, ao ruído e ao horror da vida humana na grande avenida. Presenciou um atropelamento, discussões de trânsito e gritos de guerra de torcidas organizadas. A vida e a beleza se lhe esvaíam lentamente, ela em delírio psicodélico vegetal, mergulhada em buzinas, ais, pregões, impropérios contra o governo e cantadas abusivas contra mulheres. No ápice do desacerto, alucinou uma flor sua irmã que rompesse o asfalto, mas isso era só poesia, que corre a seiva das flores, apesar do mundo.

Súbito, transformou-se em presente de aniversário: Rosa sempre funciona, a gente dá, elas gostam, insistia o florista ao comprador impaciente, de carro ainda ligado. A supressão de todos os espinhos relegou a rosa à passividade inerte de quem não pode se defender de nada - era agora um cotoco de beleza, cabeça vermelha reluzente e semimorta do mundo das mercadorias, o sorriso embaciado e fóssil de matéria às margens da decomposição.

E a seguir a rosa cumpriu seu último traçado: do banco do carro do ano, perdendo o viço no ar-condicionado, perdendo o ânimo na mesa-redonda do esporte, o escrete do fim da tarde. Dali às mãos pesadas que já faziam a mala e que a levaram ao nariz, num gesto último de esperança que já nasceu morta. Dali ao banheiro do avião, já em passagem para outra vida, a caminho do destino que não conseguiu completar.  
  

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