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domingo, 11 de agosto de 2013

O terremoto


Com o passar dos anos, tornei-me um indesejado: meus amigos evitavam chamar-me para as festas, especialmente quando começaram a ter filhos. Não era apenas a inconveniência dos meus excessos – chegava atrasado, queria intervir nas conversas, falava alto, mudava o som, acabava com a cerveja, saía depois de todo mundo, não sem sujar tudo e não limpar; era também o medo de que eu machucasse as crianças. Era intolerável a minha insistência no passado: eu tinha saudades do tempo de mudar as coisas de lugar. Eu não podia.

            Os sons que me importunavam à noite, quando eu tentava dormir, eram pavorosos. Tentei remédios, tentei uísque, tentei fechar o corpo, mas não adiantou. Eu estava vazio: fechar o quê? Não eram saudades, anos depois nem era mais o apego ao passado. Era uma sensação que ainda não sei explicar. Todo o ruído da cidade me irritava, toda elevação de voz me agredia, nem dirigir eu podia mais, por causa das buzinas, das investidas ofensivas dos outros motoristas. Toda esquina cheirava a mijo ou a pólvora, todo restaurante virava balada num programa de calouros no volume máximo. Eu vivia sob o medo – medo da polícia e do bandido; medo de que a paz que eu tinha em casa fosse invadida por um boteco barulhento; medo de ter de acordar cada dia mais cedo para ir ao trabalho, até o dia em que teria de dormir lá, e nunca mais voltar para casa. Medo de que vissem que eu não podia fazer nada.

            Veio o verão: o calor brutal da cidade não me deixava em paz. Ao fim do dia eu estava revestido de pó, fuligem, suor de medo e desodorante vencido, com fumacê de cigarro que eu não podia largar. Eu tinha o veneno no corpo, nos olhos, na alma, mas não tinha vida social. Não largava nenhuma mania, escovava metodicamente os dentes, ouvia todo o dia as mesmas músicas, repetia os horários, salvo a hora de acordar e de sair de casa, que eram sempre mais cedo, até eu ter de acordar em plena madrugada para trabalhar no emprego que alguém havia dito ser tendência. Eu tinha quarenta e cinco anos de punhetas bem batidas, de pavores bem cultivados, de restos e fragmentos de vida guardados no armário do fundo da casa com as roupas do meu pai, que já havia morrido fazia dez anos – mas eu tinha medo de revirar as roupas dele e de encontrar ali alguma evidência de que ele me odiava, como os meus amigos. Eu tinha dez anos de TV a cabo, uma planilha imbatível de programação pra não perder nenhum clássico, uma dieta balanceada de restaurantes pra pedir comida na internet, a bunda mesmo eu limpava com papel comprado online, tudo perfeitamente organizado, metodicamente ordenado, conforme o figurino que eu imaginava que se esperava de mim.

            Era um fim de tarde quente de outono, o vizinho fazia um churrasco com o som no volume máximo, a mulherada gritava uhú como se entrasse na casa do BBB; o cheiro insuportável de gordura queimada na churrasqueira, de baseado vagabundo de faculdade, em gritarias e tragos tabaqueados de vontade de esmagar o mundo, a TV no volume máximo no jogo de futebol a que todos assistiam enquanto bebiam cerveja com uísque, como podia aquela gente fazer tanta coisa ao mesmo tempo? Gargalhadas de uma piada sobre a torcida adversária no Facebook punham-me em frangalhos os nervos, o assovio de convocação para mais uma rodada de carne, os trechos de conversa, Eu comprei, O meu carro, Eu comprei, O meu telefone, Eu comprei, A minha namorada, Eu viajei e comprei, O melhor, O melhor, O melhor – e a gargalhada longa, e a confissão de lado, assentida pelo interlocutor, Como é bom ser superior às borboletas! E alimentavam as crianças que gritavam insistentes por mais, e mais. A minha janela tremia das vibrações da caixa de som, no teto do meu quarto eu via os reflexos dos fogos que eles soltavam pra comemorar os gols, as compras, os brindes, as coisas. Era a alegria compulsória: não havia uma brecha para silêncio. Eu não podia ler. Eu rolava na cama de dor, de medo, de aflição, ninguém pode me entender. Foi aí que aconteceu.

            Primeiro pensei que alguém tivesse aumentado o som. Mas houve um, dois, três, quatro, seis segundos de silêncio – como se houvesse uma orquestra fazendo o mais brutal atonalismo, o horror no primeiro plano, o silêncio de fundo. Eu celebrei e fechei os olhos, porque já sentia as vibrações – eu esperava por elas havia anos. Ninguém poderia supor um terremoto nestas terras: nada estaria mais no lugar, naquele mesmo instante já os livros despencavam da estante, a TV do vizinho se espatifava no chão, mas todos estavam quietos: nem as mulheres gritavam, nem os homens bradavam macheza; as crianças, telúricas, aceitavam, mais próximas do transcendente, o que vinha da terra; alguns velhos sorriam porque se lembravam de alguma coisa parecida, outros faziam cara feia querendo dizer que preferiam a morte – tanto trabalho pra rearrumar a casa depois, pra ela mesmo assim nunca mais ficar do jeito que era.
  
          O cheiro era de terra molhada, de corpo de namorada que saiu do mar e beijou salgado na boca – eu tinha essa impressão clichê de que no epicentro do terremoto dava pra deitar no chão e dormir, como criança que se acostuma à barulheira da festa e se deixa embalar, ou adolescente que põe uma caixa de som em cada orelha e adormece ouvindo Rocket to Russia. Sem os fogos, sem a TV, sem a luz estroboscópica, era fim de tarde em São Paulo – como são bonitos os fins de tarde de junho, repicados de nuvens coloridas na esperança de que nem todas as cores sejam dos gases poluentes, algumas ainda podem ser naturais, espécie de aurora boreal nunca vista. Tudo mudou de lugar, todas as sensações eram novas, e o meu medo tinha passado.  

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