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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Para refletir e meditar

Os acontecimentos de segunda à noite, em que as marchas tomaram as ruas do Brasil, foram tantos, às vezes tão dispersos e díspares entre si, e simultaneamente tão violentos e tão pacíficos - que a tendência natural é render-se a análises fáceis, a palavras de ordem supostamente "imparciais" e a mobilizações inoperantes ou acéfalas - que, no extremo, só servem ao inverso da proposta inicial, que está à esquerda da sociedade.

A maioria de nós esteve imersa (por mais ou menos tempo, pelos mais diversos motivos, com maior ou menor acomodação) na hipnose coletiva dos meios de comunicação de massa, durante muito tempo. Esse processo de cegueira, da mesma forma que qualquer estado da mente e da alma, não é superado de uma hora pra outra. Ninguém ama alguém subitamente, nem deixar de amar de uma hora pra outra. A dor do luto não passa em uma semana - às vezes nem em anos. Os olhos precisam de tempo para adaptar-se à luz de fora da caverna. Por isso, mesmo que estejamos convictos do propósito das marchas, podemos nos deixar abater por teorias da conspiração e pelo alarmismo gratuito, que em boa parte das vezes só resulta em pânico.

Insisto, por isso, no poder da reflexão e no da meditação.

Me parece, sempre sob o risco de errar feio, que refletir e meditar certamente são operações subjetivas que têm pontos de tangência e de intersecção. Os mais politizados têm larga experiência na reflexão, que entendo, grosso modo, como capacidade de análise para além dos fatos da mera aparência. A percepção, por exemplo, de que a ausência de repressão resultou em marcha pacífica na segunda-feira, em São Paulo, permite diversas análises, para além dessa constatação de primeira hora - que é real, mas que é ainda de superfície. É nossa capacidade de análise que nos leva, por exemplo, à conclusão de que indignação não é sinônimo de violência; que horizontalidade não quer dizer despolitização; e que pedir "sem partido" é uma forma, revestida da pretensão de paz, de politizar às avessas, parecendo alcançar uma unanimidade que é, mais uma vez, política - e corresponde aos interesses inversos das marchas, interesses conservadores a que o caos serve.

As operações de reflexão são mais complexas do que quer o estado quase permanente de imobilidade e de passividade. Pensar não é difícil, produzir análises coerentes não é pra poucos, como quer o senso comum - mas requer exercício que não costumamos fazer. E é preciso fazê-lo sempre, e o momento para fazê-lo é agora, sem se deixar levar pelo medo - consequência direta do desconhecimento. Mesmo os mais politizados talvez não tenham experimentado ainda o inverso da apatia do cotidiano, isto é, o estado permanente de radicalidade presente, que nos abre a todos paisagens desconhecidas - que sempre assustam. Por isso, mesmo as melhores lideranças progressistas podem equivocar-se nas postagens inflamadas do facebook, nas declarações públicas e nas entrevistas. É preciso corrigi-las oportunamente, porque radicalidade e horizontalidade pressupõem o processo de tentativa e de erro. Sem esse pressuposto, voltamos atrás, para dizer o mínimo.

Mas é evidente que um histórico reflexivo impõe racionalidade equilibrada, mesmo nas horas mais nervosas. Confesso que me impressionei muito positivamente com o temperamento equilibrado dos líderes do Movimento Passe Livre no Roda Viva: lá estão dois jovens cuja reflexão e formação anteriores ao calor da hora deu-lhes o pleno equilíbrio frente às câmeras e ao conservadorismo violento de pelo menos dois entrevistadores.

Quanto às operações da meditação, tomo-as aqui no sentido mais dilatado que o leitor conseguir supor - pra afastar o vocábulo meditação do campo da religião, tanto quanto for possível. A meditação é associada às atividades da mente, mas as transcende: encaminha-se no sentido do espírito, aqui também tomado de forma ampla, para poder abarcar desde os ateus até aos mais espiritualizados, sejam da religião que forem. Quero dizer com isso o seguinte: é mais do que hora de trazer para a análise essa dimensão, que existe, mas que é ainda muito ignorada quando se trata de questões políticas. Se ignorarmos que o estado de espírito das pessoas contribui para a violência ou para a paz, estaremos negligenciando um dado fundamental. A disposição para a brutalidade ou para o diálogo também passa por essa variável - normalmente desconsiderada.

Não me estendo no que se refere ao espírito e à meditação: estou aberto para debater a convicção de que um estado de espírito equilibrado conduz a uma reflexão de alcance maior, na mesma medida em que permite maior comedimento nas decisões tomadas no calor da hora. Talvez seja a hora, por exemplo, de investigar semelhanças entre o que se costuma chamar de ideologia, no sentido marxista, e samsara, do budismo tibetano. Quando gritamos "sem violência", mas partimos para o enfrentamento político (porque o é, por mais que muitos gritem "sem partido" querendo dizer "sem politização"), então é o diálogo que está no centro da proposta. Toda a experiência brasileira, entretanto, não foi de diálogo, mas de violência: eis o desafio. Para encará-lo, temos à disposição as armas da reflexão e da meditação. Pois aprendamos a usá-las.

domingo, 16 de junho de 2013

Uma pauta objetiva e uma luta pacífica

Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar: eis a pauta objetiva das manifestações. Tenho visto muita gente, nas redes sociais e nas aulas que dou, afirmando que "falta um objetivo claro" à movimentação presente. Pois, ao contrário do que supõe esse senso comum, o objetivo existe, é bastante claro e retém em si, simbolicamente, todas as outras pautas que traz junto consigo. Mas é primeiro necessário vencer esta etapa inicial - de forma pacífica, "sem violência".

É importante que a redução da tarifa ocorra por uma série de motivos. O primeiro deles é simbólico: a vitória da demanda resultará em credibilidade para a luta e para os que vão às ruas por ela. Já é mais que hora de a classe política tradicional entender: quem encabeça as manifestações é o Movimento Passe Livre que, ao contrário do que faz crer a grande mídia, não começou ontem: têm quase uma década de lutas, sempre com a mesma finalidade. A liderança, portanto, não está diluída - mas certamente pressupõe, ao redor de si, muitos outros movimentos sociais, em relação de horizontalidade. (Quer entender o que é horizontalidade? Leia a definição na carta de princípios do Movimento Passe Livre)

As manifestações presentes servirão, portanto, de laboratório para a classe política tradicional aprender que terá, cada vez mais, de dialogar não nos seus termos, a portas fechadas, mas nos termos dos manifestantes - nas ruas, que afinal pertencem à população como um todo. O tom professoral e paternal da grande mídia, do governador e do prefeito não amedronta mais, nem convence: é preciso rejeitá-lo e fazer saber que a esmagadora maioria dos manifestantes não é de baderneiros ou vândalos. Não há diluição da pauta nem das lideranças.

Além disso, as manifestações servem de laboratório para os próprios manifestantes - que não se podem deixar abater por esses discursos, pela truculência policial ou pelo cansaço. Se é verdade que as gerações que estão nas ruas são inexperientes e ainda estão aprendendo a expressar-se, depois de anos de silêncio, então talvez um primeiro aprendizado seja o de que não se deve esperar que a classe política lhes dê o que querem: é preciso conquistar, e as conquistas são feitas também de persistência. É preciso ter sempre em mente que "se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar".

Para não recair na mesmice, é preciso potencializar formas criativas de manifestação. As expressões corporais e visuais têm de se fazer presentes, cada vez mais, em cada uma das marchas. Ficou famoso o dançarino que desviou das balas da polícia. Pois que cada um dos manifestantes seja um dançarino driblador, pra demarcar simbolicamente o espaço das ruas como espaço de criatividade, não de violência - mas com a firmeza que é necessária para atingir o objetivo da redução da tarifa.

Enquanto o poder público aprende a lidar com os manifestantes e a entender que as novas organizações sociais têm caráter político horizontal, que o eco Amanhã vai ser maior seja repetido em todas as praças e esquinas, em todas redes sociais, em todos os sites de mídia independente, em todo o planeta. Porque esse eco contém rigorosamente o futuro encaminhamento de outras demandas. No dia mesmo em que a prefeitura e o governo do estado reduzirem a tarifa, então será a hora de abrir novas pautas - porque aí os manifestantes estarão mais preparados para dar continuidade às demandas e já terão criado precedente para a intervenção nos seus termos: sempre partindo do pressuposto de que outro mundo é possível.    

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Um novo cortejo

Numa de suas imagens mais penetrantes, Walter Benjamin afirma que

Aqueles que, até hoje, sempre saíram vitoriosos integram o cortejo triunfal que leva os senhores de hoje a a passar por cima daqueles que mordem o pó. Os despojos, como é de praxe, são também levados no cortejo. Geralmente lhes é dado o nome de patrimônio cultural. 

De cortejos como esse, no Brasil, especialmente nas grandes capitais, nós entendemos: os vitoriosos desfilam em carros de luxo, importados e blindados, ostentando de forma violenta o poder econômico que lhes dá autorização para cometer as mais abjetas arbitrariedades. A esmagadora maioria da população mastiga o pó dos trajetos intoleráveis do transporte de massas, de péssima qualidade. A cena é recorrente: do carrão, o alto executivo desfruta do conforto que falta às pernas brancas pretas amarelas do ônibus. 

Para maioria dos brasileiros, geralmente, o desfrute fica associado à celebração do futebol e do carnaval - as festas populares nas quais se dá vazão ao pó roído entre dentes cerrados no cotidiano. Futebol e samba, duas manifestações culturais genuinamente populares, de que as classes dominantes se apropriam rapidamente, de modo a converter o que veio dos morros e das periferias em patrimônio cultural brasileiro. Eis uma habilidade das nossas elites: deixar-se revestir do que é popular, diluindo em cores e festas os conflitos cotidianos. Pasteurizados, com as características mais radicalmente questionadoras anuladas pelo padrão Globo de qualidade, o samba e o futebol servem à embriaguez da imobilidade, jamais à mobilização popular.  

Mas isso parece que começou a acabar: as manifestações populares dos últimos dias pretendem tomar das mãos dos privilegiados o patrimônio cultural que não lhes pertence, mas de que eles souberam astutamente apropriar-se. As próximas manifestações tendem a ressignificar toda a alienação de que o nosso patrimônio cultural esteve contaminado. 

Escovando a contrapelo a histeria gratuita das torcidas e a alegria abobada e desatenta do folião, os manifestantes das próximas semanas, meses, anos, farão repicar palavras de ordem como "sem violência" e desfilarão atentos, sujeitos da própria história, driblando os escudos, as balas de borracha, o gás lacrimogêneo cuja data já expirou faz tempo. Nas mãos, terão flores, vinagre, cartazes, bandeiras e celulares.        

Pelas pessoas, contra as mercadorias

Custa apenas R$ 10 no site da Boitempo Editorial o livro Occupy com análises de vários intelectuais a respeito das manifestações que ocorreram no norte da África (a chamada "Primavera Árabe"), na Europa (os chamados Acampados) e nos Estados Unidos (o Occupy) em 2011. Por mais que pareça desnecessário, insisto agora, como insisti sempre, na leitura como forma de aquisição de conhecimento, mesmo em momentos urgentes como este, em que ocorreu brutal escalada da violência da Polícia Militar na manifestação aqui em São Paulo.

Nunca é demais insistir: é preciso que cada um dos manifestantes tenha plena clareza a respeito do motivo pelo qual vai às ruas. Acredito na força da reflexão - rigorosamente porque pensar talvez seja o primeiro gesto radical que se possa cometer. No ambiente da "competitividade", da "aceleração do processo decisório para a maximização dos lucros" e principalmente no ambiente do "salve-se quem puder" do cotidiano corporativo - refletir detidamente sobre a realidade talvez já seja em si uma pequena revolução. Não custa pensar a respeito das manifestações que rolaram fora do Brasil, aprender alguma coisa com elas e associar o aprendizado ao nosso caso específico.

No livro, de forma geral, cada um dos autores insiste na clareza da pauta: o que é que queremos? É certo que queremos muitas coisas, muitas delas difusas, outras delas ainda interditas, algumas certamente não têm nome ainda - estão em construção coletiva e horizontal. Mas me parece, de forma geral, sempre na iminência do erro (por isso peço que os poucos leitores que tenho participem com comentários), que é preciso delinear com clareza pelo menos as demandas mais amplas.

A multidão dos manifestantes certamente guarda inúmeras expectativas quanto aos resultados das mobilizações. Mas uma talvez seja comum: a de que estas servem primeiramente para dizer contra o que lutamos: contra a proteção e o privilégio das mercadorias e dos patrimônios em detrimento das pessoas. Formulei a sentença desse jeito, de propósito, para assinalar que nem os mais privilegiados escapam à lógica que protege as coisas (que parecem ter vida própria) e que desampara as pessoas (que mais parecem coisas). As violências, nesse sentido, não têm classe social: desde o filho da burguesia mais rica ao do pária mais marginal, todos são alvo, cada um de uma forma, da lógica da mercadoria que nos circunscreve a todos.

Um raciocínio, mais importante a título de exercício discursivo do que qualquer outra coisa: a Polícia Militar deveria garantir a segurança dos manifestantes, ameaçados pelo motorista conservador e raivoso que, de dentro dos carros, quer atropelá-los pra chegar em casa a tempo de ver a novela. O prefeito e o governador deveriam entrar em conflito com a iniciativa privada em benefício dos manifestantes, argumentando que a redução das passagens, o investimento em transporte público e a garantia da qualidade de vida é que deveriam ser as prioridades e as pautas do poder público. Talvez seja esse o ponto a que queremos chegar - eu pessoalmente gostaria que fôssemos além dele. Mas o que interessa neste texto é que nosso ponto de chegada talvez possa dar o sentido do caminho que devemos tomar. 

O outro mundo possível que queremos começa agora: é a hora de levantar todas as reivindicações.    

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Diálogo pra começar

Parece bastante evidente que as manifestações que têm ocorrido em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades do país transcendem a reivindicação referente às passagens de ônibus. Certamente é apressado fazer análise, especialmente sob o risco de errar feio. Mas me desagrada mais a ideia de não dizer nada; para contribuir de alguma forma, embora minimamente, penso alto, a respeito do que tem acontecido. Proponho o que nem sempre ocorre: diálogo, pra começar.

Uma impressão que sempre tive, em sala de aula e nas salas dos professores, é que dialogar ainda não pertence ao nosso repertório. Foge-nos a faculdade de ouvir o outro, com atenção, porque talvez nos falte partir da hipótese de que podemos errar parcialmente, de que conciliações são possíveis, sem negociatas, mas com adesões verdadeiras, a despeito das diferenças. Parece que a nossa herança patriarcal escravista não admite concessões, porque elas soam como sinônimos de fraqueza - impensáveis na brutalidade e na truculência dos nossos setores mais privilegiados e na polícia, que institui a (suposta) ordem que lhes interessa.

Parece contraditório (mas não é) que a cultura da cordialidade, tão brasileira, seja assim tão intransigente. Mas é preciso lembrar-se de que sob toda a lógica do favor e toda a cordialidade que permeou as relações entre os grandes privilegiados e os pobres brancos ou mestiços (sempre à cata da proteção dos ricos), a mediação fundamental na sociedade brasileira sempre foi a violência. As nossas manifestações de cultura, seja pela omissão, seja pelo protesto, sempre apontaram pra essa feição muito nossa, menos aparente e sempre difusa, é claro, nos discursos nacionalistas. Dá pra escrever a História da Violência na Literatura Brasileira, se quisermos: é o pequeno Brás Cubas que monta o escravo; é a omissão do estupro de Besita no Til, de José de Alencar. É o estupro cometido por Macunaíma, que toma Ci à força. São os abusos do Soldado Amarelo, em Vidas Secas.  

Pra ser breve - porque pretendo escrever diversos textos, com várias hipóteses: sob o signo da violência de base e da cordialidade de superfície, a experiência brasileira acaba primando pelo adiamento dos benefícios reais, concretos e de longo prazo - porque a cordialidade empurra pra frente, no cotidiano, os benefícios coletivos, sempre deixados pra trás, e privilegia os ajustes e as promessas das trocas de favor. Os compromissos privados do toma-lá-dá-cá são tantos que sobra pouco espaço pras melhorias públicas e coletivas.

Acontece que experimentamos, nos últimos dez ou quinze anos, pra assinalar apenas um aspecto, um aumento sensível do consumo, fundado no baixo desemprego e no aumento do poder aquisitivo. Teríamos ingressado no mundo mágico das mercadorias, supostamente a passagem para o mundo civilizado. Mas convenhamos: nada funciona - desde a prestação de serviços privados (quem não reclama de problemas com telefonia, internet, banco ou cartão de crédito) até a de serviços públicos. Na realidade concreta, a sensação é de terra de ninguém - se não for de barbárie. (É a velha comédia ideológica descrita por Roberto Schwarz, o descompasso entre vida ideológica importada, a que queríamos viver, e vida material brasileira, distante da primeira, mas pautada por ela, sob a sensação da falta e do atraso).

A paciência talvez estoure precisamente no que se refere ao transporte público porque é no trânsito que a competitividade (que é inerente à lógica de mercado, de que o Brasil faz parte) se associa à pior feição da cordialidade, a mania de levar vantagem em tudo (que planta raízes fundas na experiência nacional). Em termos simples: vale tudo no trânsito, desde as supostas infrações inofensivas, até às violências mais brutais, como o atropelamento premeditado de ciclistas. Talvez não seja exagerado dizer que no convívio no trânsito estão depositadas, simbolicamente, mas também de forma muito concreta, não só a miséria nacional, como também o rebotalho e o arremedo de querermos macaquear (pra falar com Mário de Andrade) nossa condição de "bola da vez" mundial, por mais que a euforia seja exagerada.

Nosso trânsito é intolerável. É natural, portanto, que o ponto de partida das manifestações esteja associado ao transporte público - mas a violência experimentada no trânsito é apenas a fenda no asfalto da qual irrompem todas as outras violências escamoteadas do nosso cotidiano.

[Atualização, 14/06/13, às 13h40: na página do Existe Amor em SP, no facebook, foi publicada carta aberta ao prefeito Fernando Haddad, argumentando precisamente que há outros canais de diálogo além da tradicional "mesa de negociações". Segue fragmento da carta, a respeito precisamente do mesmo conteúdo proposto no texto acima: "O prefeito diz que tais manifestações não são maduras, pois não são capazes de apresentar lideranças. Pois lhe dizemos com toda franqueza: é você que não está sendo maduro. Pois não compreende a nova lógica do ativismo, da auto-organização, da inteligência e da indignação coletivas. Não entende que sua resposta não será dada em uma mesa de negociações. Há outras formas de dialogar".

domingo, 9 de junho de 2013

Brejeiro

Aconteceu quando cresceu o primeiro cabelo branco em mim: estava só, não foi ao espelho, no banheiro, mas na cama, que tinha ficado grande demais (eu sempre preferi dormir mais apertado, mais acolhido). Cocei a cabeça, traguei - eu ainda fumava - e um cabelo branco me veio à mão.Declarei: estou velho, agora é tomar jeito. Chega das noites viradas em botequins que começam elegantes, mas terminam sujos e aziagos, uma choradeira triste de órfão de pai e mãe (nas minha bebedeiras eu sempre acabava na minha mãe e no meu pai, mortos havia pelo menos dez anos), sob a consolação atenta das putas. Trocava telefone com elas e com outros órfãos, prometia empregos a todos, pagava a última de todo o mundo e mais alguém. Acabou, determinei. De hoje em diante é acordar cedo, crescer no emprego, fazer carreira no tribunal e caminhadas no fim da tarde, melhorar a dieta.

Ninguém me reconheceu quando entrei, o nosso desembargador era relativamente despreocupado dos horários, desde que não houvesse abusos. Entrei pontualmente às oito, as baias já cheias: meus colegas todos tinham filhos, levantavam cedo pra levá-los pra escola e aproveitavam pra sair mais cedo. Eu não: nove e meia era meu padrão, se não fosse mais tarde. Enrolava, cigarrinhos, procrastinava paquerando uma funcionária, jogava conversa fora, esbanjava jovialidade onde só havia decrepitude, era assim que eu pensava. Ria: vocês são escravos do sistema; eu uso o sistema pra aproveitar a vida. Os meus colegas riam de mim, como se fizessem festinha, eu amolecado apesar da roupa social, eles progenitores de razão e sisudos, apesar da anuência.

Fui é ficando sozinho. Namorada eu nunca tive uma fixa, os amigos eram de bar: vadiei tanto na faculdade a ponto de terminar a graduação dois anos depois dos que entraram comigo, então acabei sem ninguém. Meus pais morreram, eu já disse. Irmãos eu não tinha, das tias velhas eu queria distância. Passei no concurso desse cargo de auxiliar, segundo grau mesmo, vendi a casona de Moema e me mudei pro quarto-e-cozinha do centro, antes ainda de virar moda. Comi muita gente no Copan (quem nunca trepou no Copan?), especialmente as estudantezinhas da região. Fui ficando - minha chefe dizia, a gente teve um lance num jantar de fim de ano, sem sacanagem forte, só um beijo, ela dizia: você é moleque, ah, brejeiro.

Passou: eu tinha cabelo branco agora. Ninguém me deu bola, nem comemorou minha chegada quando eu entrei - eu queria ser aguardado. Fiz barulho, incomodei, dei bom-dia colega por colega, todos de olhos nos monitores, o tique-taque estalado e assustador dos teclados de letras apagadas (mas não importa, porque escrevemos quase sempre as mesmas coisas). Tive fome logo, não podia me concentrar: pouco ou nada ouvia o que as pessoas tentavam me dizer, desliguei o iPod, não dava pra trabalhar assim. Derrubei café no monitor, tropecei numa extensão e cortei a energia de metade das estações. Rasguei a folha de um processo sem querer, eu suava que nem condenado, não podia atender ninguém no balcão, mas nenhum dos meus colegas me notava. A gota d'água foi uma gota de muco - meleca, digo logo, meleca que escorreu do nariz num processo, bem na frente do advogado, que se emputeceu e bradou datavênias. Me mandaram pra casa, mas eu não fui: gente responsável aguenta o tranco, eu cansei de ver os colegas trabalhando gripados, eu não tinha nada. Eu fico.

Só medo eu tinha: quando me sentei, ainda antes do almoço, fiquei parado, imóvel, estático - e suava. E se depois daquele balcão o advogado viesse me pegar, em vingança da fungada que eu dei na cara dele? E se o segurança viesse me arrastar pra fora do tribunal, porque eu não estava em condições de trabalhar? E se me impusessem internação psiquiátrica, férias forçadas? E se eu não suportasse a pressão de tanta gente olhando pra mim? Mas veio a moça da limpeza - no colo da Keylla eu sabia que podia chorar, ela tinha os olhos de ternura que tinham também as moças dos últimos bares a que eu recorria. Mas ela me empurrou longe, Não ganho pra consolar marmanjo, porra. E foi aí que eu desabei e vim parar aqui.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Títere (ou Os entreatos sem sentido)

Sou títere - não do destino impalpável
nem de homens misteriosos
que me regem em segredo -
mas de uma pulsão que ainda não é vida,
que me tolhe os movimentos,
não me permite pensar,
e me suspende a respiração.

Falta-me luz:
cada dia mais meus olhos são opacos,
não tenho voz nem fôlego,
as pernas querem estar deitadas,
o pênis está morto,
as mãos insistem em repetir o movimento -
e meu último suspiro
talvez o único
sugere que registre estas palavras
em homenagem ao teatro de bonecos de Paraty.

As instalações em espaço desigual,
em desarranjo de espetáculo
interposto em tempo a que falta poesia
- e só pode faltar;
cada pedra do calçamento
brada a idade e o peso de suportar
ora os homens, que insistem em pisar desigualmente,
ora a maré, que insiste em subir cada dia mais
(por que não toma logo tudo
e nos arrasta a todos?
Ou pelo menos eu - basta levar-me a mim);
cada homem da cidade - o artista de rua,
o especulador imobiliário, o turista aprendiz,
os viciados da madrugada, o comerciante e o milionário,
os visitantes predatórios, as crianças a caminho da escola -
Todos, e nenhum, podem saber
que põem pé ante pé, que creem tomar as decisões,
sob a interferência demoníaca da mesma pulsão,
que nos esculpe a feição vazia,
mas alegre, porque deus é brasileiro.

Entre todos eles,
acuado pelo barulho que fazem,
mas que parece incomodar apenas a mim;
espantado da inteligência que têm,
dispostos a fazer contas de tudo,
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto;
resta-me assistir ao espetáculo
do teatro de bonecos de Paraty.

Já imersos no escuro, antes do início,
erige-se o silêncio
das aras em que até a respiração
conspurca a sagração dos homens -
na forma de bonecos que têm a vida que eles não têm.

Invejo: aqui os homens ficam em segundo plano
(é melhor que aí estejam e fiquem)
para não atrapalhar o sopro e o pulso que correm em cena:
são amores tais,
à margem da recorrência desexistida e reencenada;
a cada nota soada duma partita de Bach,
assoma um movimento rigorosamente
mais espontâneo que o meu e o daqueles homens -
falta-nos a expressão de cada um dos dos bonecos.

Em meio à escuridão absoluta -
o jato de luz mergulhado
na singeleza do pé que coça
a outra perna -
petrifico-me em massa disforme
de expressão ou sentido
e experimento
a passagem-limite entre o silêncio e o som
e o efêmero e o eterno.

Os aplausos - quase todos autômatos
movidos do instinto mesmo de bater palmas
para fazer significar e reproduzir o espetáculo
em mercadoria compreensível -
os aplausos me avisam que é hora de voltar
ao palco fervente dos excessos de luz universal
que dispensa nuances,
carregado da impressão forte
de que não há público,
e serei sempre a mesma coisa
reencenando entreatos sem sentido
um monólogo sem texto.
  




quarta-feira, 29 de maio de 2013

Entrevista sobre Faroeste Caboclo, no site Conexão Jornalismo

Eu não poderia supor, lá em 2007, que a pesquisa que fiz a respeito de Faroeste Caboclo (disponível no site Domínio Público) repercutiria hoje, seis anos depois - mas o lançamento do filme mudou tudo e me deu a chance de divulgar um pouco aquele trabalho. A seguir, uma entrevista que dei para o site Conexão Jornalismo.

Só uma pequena correção: na chamada, a repórter afirmou que, no mestrado, comparei Faroeste Caboclo com Clarice Lispector e Guimarães Rosa; na verdade, comparei a canção da Legião com Vidas Secas, do Graciliano Ramos, e A Hora da Estrela, da Clarice Lispector.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sem comentários

Hoje foi difícil conter a emoção: não entendi ainda a morte de meu amigo João, assassinado pela namorada por causa de ciúmes. Que Deus o proteja e que as pessoas aprendam a conviver melhor com as diferenças, Assim declarou Pedro Pio no Facebook, enquanto observava o corpo do amigo no caixão. A imprensa havia noticiado, daí a preocupação de Pedro em linkar o nome do amigo: era preciso que o mundo conhecesse o escândalo, a dor, a brutalidade do crime: João havia sido sufocado com o próprio pênis, que lhe fora cortado enquanto dormia, e inserido violenta e anatomicamente em sua garganta.

Não se comente que João traía a namorada com as colegas de trabalho - e não era cuidadoso nas redes sociais. A namorada dava rebates falsos de suicídio, batia com a cabeça na parede, ameaçava João com frases obscuras escritas com o sangue da própria menstruação, Vou cortar o seu barato, dizia uma delas, fotografada pelo jornalista do tabloide carioca, que sabia bem onde farejar notícias de grande apelo. Em poucos instantes, as reações à postagem de Pedro foram se acumulado: mais de cem amigos curtiram, muitos eram solidários à dor, A internet é pra isso mesmo: partilharmos com o semelhante cada passo dado no horror da vida - foram as palavras da própria assassina, ainda desaparecida - comentário que repercutiu e que levou a imprensa à declaração de Pedro, e a ele próprio, instantes depois.

Em entrevista: João poderia ter seus demônios (expressão de cinema, Pedro percebia-se atento e articulado na frente das câmeras), mas não merecia a morte (choro profundo ao fundo: é a mãe do morto, lamentando a morte amarga). O que os entes queridos desejamos (Pedro sacara a silepse das aulas de Língua Portuguesa do colegial) é justiça, apenas isso: prisão perpétua. Mas se este país fosse sério, arrancaríamos o clitóris dela.

Não será necessário dizer que a última afirmação obteve o efeito pretendido pelos sensacionalistas. Em poucos minutos, espalhava-se nos sites de notícias, nas redes sociais e nas correntes de emails a virulência justiceira. Louve-se tanto espírito crítico: um salve para a objetividade técnico-científica, que estimou em cerca de 70% a aprovação pela demanda algo justa, embora apressada, do amigo do assassinado, Deus o proteja, não tanto agora, que era preciso proteger Pedro dos raivosos defensores dos criminosos, Assim declarou o site religioso, de que o Narrador se preserva de citar, para não se tornar ele o perseguido - quem é que quer ser persona non grata nestes tempos? Pedro teve pouca sorte: em poucos instantes a notícia foi coalhada de mensagens belicosas.

É por isso que o Brasil não vai pra frente: o eunuco deveria ter sido mais cuidadoso e não deixar vazar na net a foto com as piriguetes - Declarou o primeiro, respeitado comerciante da Zona Oeste, que mantém a esposa em rédea curta - narradores gozam desta chance de saber tudo, conhecer todas as pessoas, em exercício de plena consciência ordenadora do caos real. É precisamente nos comentários das notícias que repousa a verdadeira matéria literária, os homens de carne-e-osso que servem de personagens.

Queisso, eunuco? Mesmo sendo cuidadoso, ele ia perder a cabeça: mulheres sabem quando estão sendo traídas, é o sexto sentido, no mais ela devia cornear ele também - Salve a percepção única das energias que subjazem a aparência candente da matéria, literária ou jornalística, não importa, há leitores que só de lerem a reportagem reconhecem-lhe os mais sórdidos e obscuros detalhes com apoio da empiria, da sabedoria coletiva e das fofocas de rua, que temperam a monotonia do relato histórico.

Gentem, pensa nisso, a moça sofrendo todos os dias, pelo menos ela devia ter se valorizado mais, porque ele ficava botando ela pra baixo, que eu digo: mulher que se sente bem com ela mesmo não precisa de homem - Reverenciemos a emancipação pela estética, o batãozinho pela manhã, fazer as unhas à tarde, o banho de creme na cabeleira antes de dormir, que o cheirinho da natureza brasileira traga para sua casa um pouco da amazônia, já mesmo agora a fragrância dos menores frascos invadiu esta meia literatura, não se imagine que nos referimos às dimensões do membro sufocante.

Lamentável: os dois estão errados. Ele por não propor uma relação aberta; ela porque aceitava tudo isso que as nossas novelas divulgam. Falta educação pro nosso povo - A convocação à aula de Educação Moral e Cívica, onde se fez uma nação orgulhosa dos seus heróis, onde tudo está no seu devido lugar, a Ordem impera, a Família agrega, a Escola ensina, vigia e pune, o Trabalho dignifica, o Jornal informa e a Puta serve para desopilar o fígado, assim declara o arauto da emancipação.

Cortar o clítorís é pouco: corta as tetas da vaca, joga pedra e enterra a cortadora de pau, que de louca já basta eu hashuashuashua - Eis o herdeiro do humor refinado, cujo cabedal também serve de referência a este Narrador que tudo vê, por isso pode observar a adolescente tonta de benzina cheirada teclando em aula, Vish, cortou o pau do namorado, aí ficou sem pica pra chupar, É o que a colega dela postou, Aos jovens tudo se perdoa, replicou um anônimo, mas podemos saber que se trata de homem religioso, correto, benevolente, que se masturba de tesão por comentários de jovens na internet - tem gosto pra tudo.

Mas o corpo de João já está enterrado, Pedro já apagou aquele perfil porque estava comendo menos mulher por causa dos comentários, além de temer ser atacado por uma - e ainda se proliferam os comentários na página, que obteve vida própria, fomentada pela natureza do crime e pelo natureza analítica dos comentadores. As imagens dos filhotes do zoológico de Jacksoville, Flórida, cujas peraltices foram reverenciadas pelos brasileiros que se cansaram de visitar Miami e Orlando, por isso foram mais ao Norte, É uma beleza, a gente não precisa ficar trombando com brasileiros o tempo todo, além disso tem algumas lojas de departamento com produtos até trinta por cento mais baratos - toda essa matéria ocupou os destaques dos sites de notícias, deixando em segundo plano a página da morte brutalíssima de João - que se transformou em uma espécie de rede social informal, em que se podia dizer tudo, pensar tudo, conhecer gente diferente, e até por que não? fazer amigos ou encontrar um chinelo felpudo e quente para o pé cansado, Deo gratias, os comentários seguem vivos, em polêmicas que transcenderam a supressão de órgãos, enveredando naturalmente para o transplantes de pênis arrancados, as oportunidades no cinema pornô em sites abertos, as possibilidades de manter viva um pessoa sem pênis por tempo indeterminado. A própria assassina - ou alguém que se dizia a assassina - aparecia de vez em quando, Galêre, hoje vou responder duas perguntas, mas só duas! Mas a oportunidade de divulgar por ali produtos como preservativos e pomadas que apimentavam o sexo, engendrada pelo repórter-autor da notícia original, que nem interessava mais, foi considerada pela maioria dos debatedores como conspurcação do espaço aberto, que não deveria servir aos interesses escusos de quaisquer indústrias, mas apenas à discussão livre e democrática, sem fins lucrativos. E tenho dito: acabaram-se assim os acessos à página, que ainda deixa saudades - e um grupo de discussão no Facebook.        

     

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Uma flor nasceu

A coisa mais importante que fiz hoje, além de evitar os velhos vícios, foi perceber que floresceu uma violeta nos vasos que preservo aqui em casa. Verdade seja dita: eu cuido menos do que deveria das minhas plantas, mas estou sempre de olho de olho nelas. Me ensinam muito. Como não aprendi ainda - e não sei se vou aprender um dia - que cada um é que tem de cuidar da própria vida, saí contando por aí que uma violeta florescera em casa. 

Tinha de ver: primeira coisa a escolher é o lugar de elas ficarem. Aí espera: elas têm de gostar dali. Vêm folhagens, folhagens. Um dia, sem você perceber, tem ali um botãozinho mínimo, ainda não sendo, muito breve ainda: só uma potenciazinha de vida. Mas vai ganhando tamanho - e cor: antes mesmo de a violeta nascer, a gente sabe que cor ela vai ter, porque o botão já aponta. Eu fito. Deve doer aquele nascimento. Mas talvez não: as plantas devem saber, muito melhor que os homens, que o que chamam de dor é na verdade só a sensação do novo que vem.  A cor - era violeta a violeta, violeta forte, escura, violeta retinta.

Depois: a plenitude. Na franja da flor ainda redobrada repousam minutos extensos sem identidade com nada. Já houve muitas violetas - nenhuma como a minha, que brotou aqui no meio da bagunça: esta casa sempre foi dos livros. Mas eu tive sorte, eu sempre tive: mesmo o cactus que eu tinha, na solidão maior da embriaguez que não me deixava estender a mão pra molhá-lo - mesmo o cactus dava flor. Você já viu flor de cactus? Tem cabimento? A planta é arredia, adversa - recoberta de espinhos. Conhece o mundo, conhece quem a cultiva: não conta com nada nem ninguém, só com o sol o dia todo - e fica retendo água pra o caso de eu me esquecer dela, ou de mim, ou desaparecer por uma semana, ou não ter forças pra regá-la - e sobra um pouco pra botar um flor, como se dissesse: tem coisa bonita pra ver no mundo, é questão de deixar de lado o medo de botar uma flor.

Mas o motorista de táxi me disse que num dia de trânsito como aquele o que interessava era tirar da rua os manifestantes que atrapalhavam o trânsito - concedi que sim, mas que manifestar-se era uma forma de florescer. Os alunos me disseram que o que interessava era o assunto que ia cair no vestibular - supus que eram jovens, e matei-os de tédio descrevendo cuidadosamente como tinha vindo minha violeta ao mundo. O garçom me disse que o que interessava era o prato do dia, que estava uma delícia - julguei que poderia ser, desde que considerássemos as folhagens de tempero que haviam deixado especial tudo que era industrial. Outros professores me disseram que o que interessava era o aumento - acedi, obviamente, mas lembrei a importância das flores. Os jornais me disseram que o que interessava era a Copa, outros disseram que o que interessava eram as Olimpíadas: só posso discordar, mas ninguém curtiu meu comentário no Facebook, que julgava mais importante o florescimento do que os eventos esportivos. Todas as pessoas me disseram que o que as interessava eram elas próprias, e aceitei; mas que se lembrassem de vez em quando das violetas, ou dos cactus, que afinal diziam alguma coisa, até sem flores. As vitrines me disseram que o que interessava eram as queimas de estoque - e não se pode dizer nada às vitrines, porque elas são coisas. Os emails me disseram que o que interessava era a black friday - não respondi porque estava escrito bem grande "não responda a esta mensagem". Os homens de família me disseram que o que interessava eram suas famílias - e ai de quem mexesse com os filhos deles, por isso fiquei com medo de dizer que, além dos filhos deles, há ainda as violetas que florescem. As amantes dos chefes de família me disseram que o que interessava era estarem bonitas - o mesmo que as mães de família disseram, e não pude dizer nada, porque não me deram atenção. Os meninos de família disseram que o mais importante era ter um carro (e o som estava tão alto que não pudemos conversar) e comer as meninas - irmãs de outros meninos de família, que disseram que o que mais interessava eram os jogos da Copa (cujo foguetório já começou e fica difícil de conversar assim).

Ao fim do dia, eu estou exausto - e falando sozinho. Volto para casa e me sento à frente do pequeno vaso - espaço restrito que algum criador de violetas reservou à minha violeta, talvez em linha de produção de pequenas cores da vida, pra iludir gente sentimental como eu. A cor da minha violeta não existe na natureza: foi projetada geneticamente pra que eu achasse que está ali o despertar espiritual, ou o sentido da vida, ou o rastilho de pólvora da revolução. Mais um produto entre tantos, que me enfeitiçava - o último produto, talvez o primeiro de todos, pois eram a própria vida e a criação primeva que eu tinha comprado por nove e noventa, em promoção do supermercado. Investiguei-a: a cor já perdia parte do viço, aquela violeta estava pontuada de amarelo.

Os olhos turvaram de uma lágrima que me amarrou a garganta: porque percebi num átimo que a violeta estava entre a opacidade fria do encanto, que interessava a todos, e a mais pura claridade do que é real, que não interessava a ninguém, só a mim - e esta é que me aquecera logo cedo. Nem que fosse apenas por meio da lembrança do cactus que eu jogara no lixo como se fosse coisa - eu precisava olhar diferente a violeta. Quando fechei os olhos é que vi - as cores da violeta, nas quais estava refletida a luz indireta que a aquecera, o cheiro ancestral dos campos das violetas selvagens, todo o espetáculo da vida presente.     

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Entre os bichos

Deve ser o calor: eu não consigo pensar. Há um rato que não sai desta casa, posso ouvi-lo correr à noite. São os animais, eu penso, há muito que aprender com eles, não há mais que aprender com os homens. Revirar as teorias todas, das ciências humanas, naturais e todas as matemáticas de cálculos improváveis sem descobrir nada. A resposta está nos animais – e a minha cabeça dói demais, deve ser o calor, deve ser a abstinência ou a lucidez que veio depois. Os animais me olham em enigma, são bichos esfíngicos os três cachorros que eu tenho aqui.

São animais, isso é certo: cachorros quando brigam, o que está apanhando de um apanha de todos. Talvez venha daí a expressão chutar cachorro morto – que se aplica aos homens, não aos animais. Eu não queria voltar aos homens, mas tenho de voltar, a escrita é dos homens. Homens também são mais cruéis com os que estão no chão.

É por isso que dizem pra gente não mostrar as fraquezas. E deve fazer sentido. Ser homem e ser bicho, pelo jeito, não são coisas tão distintas assim. A gente é gente e é bicho – as duas coisas ao mesmo tempo, justapostas. E os cães são um pouco pessoas também, por que não? Até aí acho que é fácil de entender – todo mundo sabe que guarda em si um animal irracional incontrolável, ninguém sabe o que acabaria fazendo em situações de extrema necessidade ou em casos de vida ou morte. Diz que a gente nunca sabe como vai reagir ao assalto ou ao atentado à nossa vida. Podemos ficar acuados num canto, como fazem os cachorros, ou partir pra briga de cachorro grande – guarde aí mais esta expressão referente aos homens, dissertada da vida dos bichos.

Mas acho que a parte difícil é entender que em cada homem tem um lado de bicho que recua ou que ataca – não importa muito, será sempre bicho, inconsequente e irracional, mostrando os dentes pro mundo todo, recolhido na casinha, confortado nuns lençóis quaisquer, sem planos pro futuro, sem história, tudo pra trás apagado; e cada homem tem um outro lado de gente, radical mas não animal, que foge sempre da casinha, dos lençóis, portando o passado sem que lhe pese, olhando o futuro sem que o cegue, os pés e os olhos na vida presente. O difícil é que os homens são essas duas coisas – e a verdade deve estar entre elas, momentos de clareza que a gente tem quando o bicho é domado e o homem dá um passo só que seja. Anote aí.

Mais difícil é entender que também os bichos funcionam assim. Quero dizer: os homens serão mais gente se derem brecha pros bichos ensinarem as coisas. É tratar os bichos como bichos, não como imbecis ou como inferiores. Não consigo explicar melhor, nem vou conseguir me levantar amanhã – é tanto calor, e tanta dor de cabeça que eu mal posso pensar. Eu dizia: bicho é bicho, homem é homem, mas se a gente não entender que, posto superiores, também somos iguais aos cães – então estamos perdidos.

Porque os cachorros, mesmo estraçalhando os cães mais fracos, sabem deixar o passado pra trás – e nós só fazemos pesar o passado nas costas, de modo a não poder andar mais enquanto não despejarmos aquele montaréu de tralhas guardadas. O cachorro não: perde a perna e não se lamenta; perde o olho e segue vendo com outras partes do corpo; tem o corpo quase todo incendiado pelas crianças e segue se ligando a um dono que possa acolhê-lo. Os homens não sabem fazer isso – nossa proteção e nosso erro, é certo, as duas coisas ao mesmo tempo de novo.

Os cachorros estão no presente, o que os homens não sabem fazer. Os homens se relacionam com os fantasmas que eles próprios não deixam morrer – é preciso deixar morrer os mortos. Os homens se relacionam com as fantasmagorias que eles próprios criam – mas não sabem que criaram, só uns poucos homens sabem, e esses não querem ou não lhes é permitido explicar. É complicado – a cabeça dói, confesso, eu não queria pensar assim. Fantasmas e fantasmagorias – tudo que os cachorros desconhecem.

Cachorros guardam luto, mas não guardam a vida pros mortos. Cachorros só se relacionam com a realidade concreta – e aos fantasmas e fantasmagorias, se os há, latem insistentemente, depois vão-se embora. Devotam aos homens o plano de amanhã – mas estes estamos ocupados demais prestando culto aos inquilinos da nossa dor, que nem existem mais, e prestando atenção à conversa de que tudo é ou não é, quando os cachorros já ensinaram que tudo é e não é. Fantasmagorias, anote aí: quanto antes nos livrarmos delas, mais facilmente viveremos como cães, ao sabor do que é concreto, sem deixar o passado pesar demais ou o futuro amedrontar a ponto de ficarmos no canto, escondidos.

Aos cachorros falta e sobra fé, que os homens insistem em ter – mas que não percebem que ao que chamam fé é fantasmagoria. Tenho dor e medo: é mais que hora de fechar os olhos. Mas insisto: aos homens falta a confiança de estar entre os bichos, por mais que saibam que não são completamente bichos. Aos homens falta saber que ser e não ser, posto seja menos reconfortante, é mais real. Os cachorros intuem que não são homens – mas insistem em tentar ensinar-nos as coisas, latindo insistentemente contra as fantasmagorias, sorrindo (cachorros sorriem, para quem sabe olhá-los com outros olhos além dos de humanos) aos novos dias que estão abertos apesar dos horrores de ontem mesmo, depositando a fé em nossa capacidade analítica, tão mal usada, de estar entre os bichos, entre as coisas reais, por mais que não as possamos explicar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Grande acontecimento 42 - O filho do cientista

Esquina território aberto: os homens estão em conflito. Ninguém presenciou de fato o atropelamento do cachorro. Não tinha dono, tinha indigência: atravessou, embora na faixa, sem olhar pros dois lados e foi fulminado pela SUV furiosa de marca internacional, da terra de ninguém, onde as mercadorias têm a segurança garantida por homens truculentos que assustam mais que Cérbero. Mas este cãozinho que agora convulsiona os últimos espasmos de vida alegre na terra dos homens não pôde ter medo: atravessava irresponsável a rua, como devem ser os cães, o rabo balançava querendo e bem quisto pelos mendigos da praça de baixo, ele os aquecia, eles o alimentavam em simbiose mais vantajosa para os homens, que os cachorros afinal dão carinho e calor sem cobrar nada.

Uma criança observa atônita o horror da agonia: a criança desconhecia a morte, agora já nem criança é mais, desencantou, erigiu-se em amálgama estranho de medo de morrer e empatia pela dor, o cão não está mais aqui, faço força para crer que já esteja no paraíso canino, repleto de gatos pra perseguir e de ossos fartos pra degustar. Morreu o cão, morreu a criança, e o motorista justifica a si mesmo que tinha pressa e que se não cruzasse a avenida naquele instante perderia mais um minuto, mais um, além daqueles que ele enrolou na cama, enrolou na privada, bateu uma punheta no banheiro cometendo adultérios inconfessáveis, enrolou brigando com a mulher, perdeu levando o filho na escola - quem paga essa porra toda sou eu, ainda tenho de levar esse moleque medroso pra essa escolinha riponga onde se planta uma horta em vez de fazer conta, amém.

Não suponha o leitor que a criança que se horroriza com o corpo inerte do já-nem-cão é o filho amedrontado do motorista em chamas. Nova composição do asfalto com matéria orgânica: a indústria farmacêutica propõe à indústria química parceria inédita para a criação de um novo composto de pedaços de animais mortos para revestimento do solo. Tudo forjado pela criança, que virou coisa, que virou adolescente, que virou químico que deu utilidade prática e rentabilidade garantida à experiência mais amarga que tivera: presenciara o esvair da vida de um cachorrinho na esquina de casa, atropelado pelo vizinho.

Pesquisador brasileiro ganha o Nobel: foi mesmo essa criança o primeiro orgulho científico do Brasil, o nosso herói que trouxe para casa não uma medalha, não a taça do mundo, mas sabe-se-lá-quantos mil de prêmio devido à pesquisa do novo composto. Recriou a dor, declarou o apresentador dominical da rede de tevê mais assistida do Brasil; o nosso Einstein, gritava a manchete da revista mais lida do Brasil. Você pretende inspirar a juventude, que é o futuro do Brasil, a ingressar na pesquisa científica? Sim, mas por enquanto o que eu pretendo mesmo é tirar umas férias no Rio de Janeiro, depois vou me  dedicar ao programa que vocês me deram no jornal do domingo, conhecer os artistas de novela e virar comentarista de futebol, ou de carnaval, ou o que mais vocês quiserem me oferecer. E a quem você dedica esse sucesso todo? À minha família, porque família é tudo de bom, e ao cachorrinho que perdeu a vida e cuja matéria orgânica hoje serve para a pavimentação combinada - pavimente você também as ruas de seu município com esse composto revolucionário e acabe com o problema dos animais abandonados.

(Havia um naco de criança ainda no químico: depois de envolver-se com prostitutas, drogas e negociatas políticas em Brasília, suicidou-se engolindo uma moeda, que lhe obstruiu o intestino e que explodiu, espalhando merda por todo o apartamento funcional. Dizem os amigos que desde sempre o herói brasileiro abandonara a ciência da química e se envolvera com o ocultismo da alquimia, supondo que os sucos gástricos e as enzimas poderiam transformar a liga das moedinhas em ouro puro. Nosso herói queria, por assim dizer, cagar dinheiro - e acabou cagado.

Deixa uma casa fedendo, viúva interesseira e um filho de sete anos, todos irreformáveis. O garoto, dizem que é doentiamente apegado a animais, porque em vez de doá-lo aos centros de zoonoses, abriga-os todos em casa, dorme com eles, aquece-os, e eles o aquecem, e já não querem mais nada garoto e animais. Do filho do motorista não se tem notícia).

sábado, 19 de janeiro de 2013

Lucidez

Raul Seixas controlava a maluquez, misturada com a lucidez. Ao que digo, sem querer me comparar é claro: impossível descrever processo tão óbvio quanto normal. Malucos todos somos, é mais que evidente; lúcidos, há-os poucos. Diria sem medo que ser lúcido, rigorosamente lúcido, tediosamente lúcido - porque um grama de humor, de ironia, de fé ou de esperança embaçam a clareza última - ser lúcido é a maior das loucuras que se pode cometer. Não que eu seja lúcido, nem que haja circulando, aos borbotões pela Rua Augusta ou pela Nossa Senhora de Copacabana, sujeitos lúcidos. Acredito que eles existem, e que às vezes se deem a ver, mas a lucidez requer obscuridade, porque a visibilidade causa repulsa ao homem lúcido - desses paradoxos que só soam assim aos homens cujos véus nos olhos acabam por impor aos outros homens e ao mundo organizações lineares que só existem em forma ideal. O homem lúcido terá percebido, e às vezes faz perceber, que as coisas são e não são, num edifício imponente da Vila Olímpia ou da Barra estão homens mortos que ali deixaram restos e fragmentos de si, na forma de trabalho morto, do qual estão divorciados há tanto tempo e há tantas gerações que sequer podem acreditar haver meio de consórcio. O homem lúcido assiste ao filme de terror e sabe que o clichê do cemitério indígena sobre qual se construiu a casa mal-assombrada é a imagem desgraçada e corrompida do divórcio completo dos homens com a natureza: o homem lúcido não se dá a ver também porque, ao contrário dos homens comuns, sente as dores que circulam fora dele com toda a intensidade. O homem lúcido projeta sobre os objetos a revelação fulgurante das justaposições que ele e as coisas são, todos tão plantados na vida concreta que dói olhar. Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada - e ponto-final, declarará o homem lúcido, que não se dá à poesia ou às artes porque são também elas outra forma gratuita de fantasmagoria, salvo em raras exceções, que não podem ser divulgadas nem o serão. O homem lúcido aguarda paciente a própria morte, interferindo na vida tanto quanto possível sem deixar-lhe nada que não lhe tenha tirado, rigorosamente quite com a existência, desaparecido para os homens.

Não há evidentemente homens rigorosa e tediosamente lúcidos - salvo uns poucos, que raras vezes se dão a ver. A lucidez faz doer especialmente os olhos, que têm de suportar em si a multiplicidade das dores do sujeito e do mundo, sem culpa católica, é evidente: o homem lúcido verifica os nexos imperceptíveis entre todos os homens e todas as coisas, e as fraturas todas, por menores que sejam, causam-lhe dor, e cada embuste feliz que obscurece a percepção é um golpe. Não há fé na lucidez - há sequer o pronome eu, há menos ainda a razão espaço e tempo. Não há deus, claramente.   

domingo, 6 de janeiro de 2013

Todos nós, um só: o mesmo

Nas estações de metrô da Zona Sul do Rio de Janeiro despontam cartazes brutais de propagandas da Nike,  em que se abusa da palavra Grandeza ou Grandiosidade, não lembro bem, mas não importa: o leitor, se não viu a propaganda, já entendeu o espírito, o mesmo do Amo muito tudo isso do McDonalds - apropriar-se das palavras pelas quais o cidadão médio tem algum apreço e investi-as e vesti-las da camisa da empresa. O poeta que vive de formular máximas de propaganda, fixando os clichês que vão cair na boca dos consumidores, e o músico que cria os jingles que serão assobiados insistentemente nos ônibus, nos metrôs, nas escolas e nos bares - são todos pretensos artistas que se apropriam de uma fórmula que vai se apropriando dos campos de sentido da língua e da canção popular, acanalhando-as. Terá sido o mentor de todos eles aquele que teve a ideia de usar Beethoven para anunciar a chegada do caminhão de gás, que no Brasil esteve umbilicalmente ligado à ditadura civil-militar. A grandiosidade, o amor e Beethoven estão tocados desses midas deste nosso tempo, em que crianças se encantam das empresas tanto quanto das personagens de desenhos animados, ambos, a molecada e os desenhos, nada mais que coisas ou animais, uns pra comprar, outros pra vender - e vice-versa.

Nos saquinhos de açúcar, frases edificantes inspiram o bom dia da mãe e esposa ao marido e aos filhos no café da manhã de um hotel de cadeia internacional, cujas unidades são idênticas em todo o mundo, em nação unívoca presidida pelas mercadorias: na mesa ao lado, as mesmas frases e o mesmo açúcar tonificam os ânimos do pessoal de vendas de uma empresa qualquer, em viagem à cidade fulgurante, de cujo afluxo de capitais todos querem abocanhar um pedaço. Os ensinamentos do pai e do gerente de vendas se assemelham, as programações do dia também: as gracinhas do palestrante motivador no evento corporativo não são tiradas mais inteligentes do que as do guia turístico apalhaçado que entoa o último sucesso esganiçado e infantilizado ao microfone, no ônibus, cercado de famílias-doriana e aposentados de ouvido regredido, sem serem surdos.

Já sabemos: o pai chamará à esposa e aos filhos de time, e o gerente se referirá à sua equipe como família. Todos tiveram os ânimos exaltados dos imperativos autoritários do saquinho de açúcar - "Viva intensamente", ordem a que acedemos aderindo à alegria compulsória, que não permite observar as violências cotidianas, as pequenas, mas não menos violentas; "Tira o pé do chão" manda o animador a que a TV chama de artista, assim investido porque assim nos foi dado. Quando as grandes violências forem noticiadas todos entrarão em choque, e quando se fizer necessário levantar o pé do chão e levantar a voz para além do grito de gol estarão todos quietos assistindo à TV. Na rifa dos sorteios do canal gratuito, só terá grandeza quem estiver vestido e investido de Nike; só terá amor quem estiver com a barriga cheia de Big Mac; todos assobiarão Beethoven em uníssono, tirando o pé do chão, comemorando mais um gol, mais um carnaval, abraçados, chorando, vestindo a camisa da família, todos ligado a uma só nação, a do time, que fez de todos nós um só: o mesmo. 

domingo, 30 de dezembro de 2012

Mensagem ao aluno desconhecido

E ele era um homem de largos ombros, a cara grande, corada muito, aqueles olhos. Como é que eu vou dizer ao senhor? Os cabelos pretos, anelados? O chapéu bonito? Ele era um homem. Liso bonito. Nem tinha mais outra coisa em que se reparar. A gente olhava, sem pousar os olhos. A gente tinha até medo de que, com tanta aspereza da vida, do serão, machucasse aquele homem  maior, ferisse, cortasse. E quando ele saía, o que ficava mais, na gente, como agrado em lembrança, era a voz. Uma voz sem pingo de dúvida, nem tristeza. Uma voz que continuava.

Descrição de Joca Ramiro, no Grande Sertão: Veredas.  36a. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.216. 

No mês de maio de 2012 você deixou um comentário aqui no blog - e peço-lhe desculpas por não ter respondido logo. Já lá vão sete meses, mas preciso confessar-lhe que não sabia o que escrever. O que quero dizer, e faço-o desde as primeiras linhas deste texto, é que você tocou a ferida mais doída: vale a pena lecionar? Até hoje não sei responder direito a essa pergunta. Acho que vale sim (estou taciturno, mas nutro grandes esperanças), mas garanto que o seu comentário me deu certo alento que vinha me faltando desde a morte do Martinho.

O senhor entenda e entende: Martinho é que me ensinou a ser o que eu queria ser. Ele era apaixonado por literatura, militante do antigo PCB, ativista do sindicato dos professores - e o melhor professor que eu tivera até então. O homem vivia de literatura, gramática e redação, além de ajudar um monte de gente e de participar do "partidão": um sonho que roubei pra mim. Era um tempo diferente: nós líamos Machado de Assis, Truman Capote, Eric Hobsbawn e os livros do vestibular, ouvíamos Chico e Caetano, Sabath e o rock dos anos 80 - tudo com o mesmo compromisso e o mesmo engajamento. Tudo era motivo de debate político, de fuga à alienação, de querer debater.

É engraçado: de certa forma, eu imito o Martinho até hoje. Ele se gabava de ter me arrumado praticamente todas as aulas que eu dava, jeito dele de encobrir a ajuda que deu pra mim e pra muitos outros professores iniciantes, que ele protegia e ensinava. Faço o mesmo com alguns amigos, hoje. Ele dizia que não precisava viajar, nem gostava: bastava-lhe viajar à roda do próprio quarto, com os livros que lia - exatamente o que faço. Tive cabelo, jeito de falar, jeito de vestir, jeito de viver - sempre à moda do Martinho. Custou-me adquirir trejeitos próprios, cacoetes de mim mesmo. As aulas de análise sintática que eu dei pra você - aprendi com desafios que ele o Gaspar preparavam pra mim, semanalmente. Trechos inteiros de Camões pra analisar sintaticamente.

Falávamos sempre quando saía a primeira fase da Fuvest. Lembro-me de atravessar madrugadas com o Martinho, ao telefone, debatendo as questões, as obras literárias, depois enveredávamos pela política, pela vida, pela carreira. Depois essas ligações foram escasseando, mas ainda nos encontramos algumas tardes, em que bebemos exageradamente, contamos bravatas e pecados inconfessáveis - tudo entremeado de política e literatura. Martinho foi minha passagem pra vida concreta por meio de um sonho - o de fazer diferença lecionando.

Foi nesse ambiente que lhe dei aula. Cada dia na sala dos professores, com o Martinho e o Gaspar, era pra mim uma festa linguística e literária. Aprendi ali mais do que em muitas aulas da faculdade, mais do que em muitos livros - ali aprendi a ser professor de verdade, a ter compromisso primeiramente com os alunos. Você não sabe os perrengues que passei por pensar assim - e quem me ensinou foram aquelas tempestades de homens, meus jocas-ramiros, de cujo bando fiz e faço parte. Hoje há poucos desses.

E agora você vem me dizer que sou também um deles, um dos grandes? Não sabe o bem que me fez. Porque eu nunca acreditei de verdade em mim. Se você assistir à minha aula hoje talvez não me reconheça: há em mim um travo que revisto de arrogância - tudo pra encobrir o pavor de que as pessoas não vejam sentido no que eu falo, nas escolhas que eu fiz. É assim mesmo: dizer que é importante investir em educação todo mundo diz. Quero ver é o sujeito tomar pra si a responsabilidade de fazer, junto com o professor, uma aula menos ordinária. Quero ver a escola bancar a formação de um sujeito emancipado: poucos aguentamos o tranco, gente que pensa dá trabalho, sobretudo se for jovem.

Mas o Martinho morreu - e eu quase abandonei a sala de aula. A falta dele me fazia ter uma sensação de missão cumprida: era na verdade mais medo, porque a responsabilidade ficara toda comigo agora. Um vazio, como se ele tivesse me entregado a tocha, missão cumprida dele - a minha ainda por cumprir. Eu temia, porque nunca julguei que poderia lecionar da mesma forma que o Martinho. Nunca poderei, eu acho. No mais: muitas, muitas outras mortes. Desde pequeno - enterrei muita gente, reconheci muito corpo, fui a muitas funerárias, com meu pai, arrumar a papelada dos nossos mortos. Depois, eu mesmo arrumei a dele. E segui arrumando outras tantas. A morte vai minando, sujeito quando percebe enterrou metade das figuras na foto de família.

E você vem me dizer que lhe incuti na alma a vontade de lecionar. Rapaz, essa coisa é séria, porque eu nunca imaginei que as vezes em que li Grande Sertão no final dos cursos teriam alguma repercussão - até você me dizer que leu o romance três vezes e que foi professor da FGV, onde estudei também.

Você sentiu, Felipe? Aquele vazio tremendo depois de uma aula que você passou semanas preparando e da qual ninguém participou? Percebeu como fins de ano são cruéis com quem sabe que não há o que comemorar? Teve a sensação horrível de que os alunos não têm nada que ver com isso - mas que eles são resultado de mais de dez anos de repetição, alienação, reificação, mentiras, tudo sob as barbas dos pais, dos donos das escolas, dos diretores, dos coordenadores, dos professores? Sentiu o mundo desabar quando alguém lhe sugeriu que, trabalhando demais, você acabava obrigando os outros a trabalhar mais - e ninguém quer trabalhar mais, porque todos estão descrentes e desacreditados? Sentiu os dentes arreganhados do conservadorismo e os tentáculos invisíveis, mas infinitos, do sistema, quando tentou fazer algo de diferente em aula? Sentiu que sobram pouquíssimos momentos pra fazer pensarem os alunos, depois de toda a burocracia escolar?

Doeu-me demais, sempre, sentir tudo isso - mas insisto na docência, apesar de evitar escolas, naquele clima em que fui seu professor. Não posso dizer que não tenho saudades: aquele cheiro de escola pela manhã, do pessoal que acordou cedinho, dos alunos doidos pra ter aulas boas. À noite é mais gostoso ainda: lembro-me de uma escola pública em que lecionei. Colegial, moçada doida pra estudar e melhorar de vida, aquele cheiro de quem trabalhou o dia todo e quer mais - eu tinha alunos que já eram pais de crianças grandes. Eu me lembro: tinha uma morte toda semana, de tiro, de acidente de carro, de tragédia que não sai na Folha. A paulada é muito, muito forte - e nem sempre dá pra fazer o certo, que é pensar no aluno antes de qualquer coisa. É simples: tudo aquilo deveria acontecer por causa do aluno, todos os esforços deviam convergir pra ele - o diabo na escola, no meio do redemunho é aluno criando, criando, criando - mas nestes tempos tenebrosos em que vivemos, outros mil interesses vêm tirar tudo das mãos deles. E você bem sabe que "o que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe".

Sendo isto, procurei outros caminhos: e não reclamo, ao contrário. Estou bem feliz nos lugares em que leciono, fazendo o meu melhor (que é sempre menos do que fazia o Martinho, mas vá lá: Martinho é Joca Ramiro). Evito pisar nos calos das pessoas e fico desaforando no Facebook, escrevendo meus contos aqui no blog, cheio de planos de publicação pros anos que virão. Será uma outra forma de fazer continuar a voz dos meus mestres.

Não há conclusão - já lhe disse que seu comentário me alegrou imenso. Enfim - talvez eu tenha tomado pra mim o que me foi dado e deixado pelos mestres que tive e tenho. No mais, quando soube que você leu o Grande Sertão e que lecionou também, entendi que esta solidão metamorfoseada em companhia que é a minha vida também pode ter alguma recompensa.

Você fez questão de afirmar que não importa que eu me lembre de você. Não é verdade - mas também é verdade que, ao escrever isso, você me confortou: não interessa quem é o professor, mas que os alunos se encantem tanto das narrativas que ele contou que não o percebam sair da sala. Porque o professor não interessa nada: o que interessa são os alunos.

Se o Martinho é voz que continua em mim, e sou voz que continua em você - então lhe agradeço, chorando bastante, por levar adiante os sonhos que eu tomei pra mim.     

sábado, 15 de dezembro de 2012

O dia em que Marcelo voou

Para Marcelo Mendez , fã de futebol, de rock and roll e dos homens

Numa manhã, ao despertar de sonhos reconfortantes, Marcelo viu-se transformado em gigantesco urubu. Tendo percebido que o que ocorrera não tinha volta e que, de certa forma, correspondia aos seus pedidos, sorriu e lembrou-se de uma frase que tinha lido nem sabia onde, nem importava mais: passarinho que se debruça - o voo já está pronto! Foi pra janela e partiu para a maravilha das coisas imperfeitas.

A primeira que ele fez foi sobrevoar o Pacaembu em dia de jogo - que beleza os torcedores todos vestidos com a cor do time!, não interessava mais qual, porque Marcelo agora só queria mesmo era exercer a liberdade que tinha de voar sem responsabilidade, de não precisar cumprir horário, de poder olhar os homens a distância, bastava fugir da violência deles, que Marcelo conhecia bem. Apreciou o espetáculo do jogo, da torcida, dos shows a céu aberto, foi até o mar e voltou, assistiu a mais um jogo na Vila Belmiro, ainda no mesmo dia: não havia trânsito no céu. E foi por isso que Marcelo correu em rasante a orla, assustando as pessoas, mas não era maldade, era só desfrute.

Pra sobreviver, ele sabia - havia os restos de comida do lixo. E na bicada de um resto de picanha de uma churrascaria de primeira, Marcelo cogitou filosófico que poderia ajudar os homens, aproveitando-se de tudo o que eles dispensavam e descartavam. Mas não era filosofia: era mesmo um resto de pensamento ecológico e solidário que lhe restara da vida humana. Marcelo achou que era bom. E passou então a frequentar os fundos dos restaurantes, os lugares que os homens não veem, mas que ele via de cima.

Foi então que aconteceu: Marcelo quase foi morto nas garras de uma pessoa. Não era homem nem mulher, não era criança nem adulto - mas era um ser raivoso, os olhos mais vermelhos do que os dos ratos que Marcelo conhecera e com quem dividira restos de massa num restaurante do Bixiga. Devia estar doente o serzinho demoníaco - estava esfomeado, tentara caçar o urubu na falta de comida. Marcelo fez que fugiu, mas foi levando o molambo de gente a um outro lixo ainda bem farto, fingindo-se de caça, pra aquilo poder comer. Mas depois que o nem-ser engoliu apressado uns restos de comida, Marcelo perdeu um pouco da alegria de que estava gozando, porque a criança - agora percebera, era uma criança - estava à toa e adormecera em meio ao monturo de cascas, restos de comida e papéis higiênicos que ali havia.

Marcelo percebeu como era privilegiado: não podia chorar, mas nessa hora a Natureza toda quis correr lágrimas por ele e ameaçou a chuvarada. Não satisfeita, achou que Marcelo precisava de um amigo e logo mais chegou outro urubu, também ex-pessoa, também muito mais feliz agora. E os dois imponentes, impávidos, classudos, tomando o chuá todo, choraram juntos a miséria humana.  

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Impressões de cheiro, cor e outros tantos sentidos obscuros

Manhã: abro a janela e Copacabana vai entrando em casa sem pedir licença. Entra simplesmente em forma de brisa do mar às avessas - que aqui não tem só mar, tem asfalto, tem fumaça de óleo diesel, tem aroma de dendê logo cedo, sabe-se lá quem é do prédio que cozinha às sete da manhã. Arranho os olhos, lavo a cara: mas é no Rio que estou?

Tomo banho rápido, visto rápido a roupa, jeans e camiseta, é e foi assim sempre, não muda, salvo o humor - melhor, camiseta clara; pior, camiseta escura. Em dias difíceis, em que encontro os companheiros no início da noite, todos me dizem que amanhã vai ser melhor: estamos todos taciturnos, mas nutrimos grandes esperanças. A cidade cheira ao perfume que uso pra espantar o monturo que guardo em mim.

Quando entro no elevador, mofo: mofo dos turistas e moradores que circularam aqui molhados de mar, que se embriagaram na praia e decidiram dar um último mergulho, e que por isso foram deixando gotas de excitação melancólica no elevador - identifico-as todas, não perco uma sequer, o corpo não deixa, em assimilação somática do que está para além de mim. Posso sentir quase mesmo o calor dos corpos, o cheiro de sal, de cerveja e de cigarro escorrendo pelo corpo.

Abalo pela Viveiros de Castro: estamos em plena Copacabana. Cheiro de mar, cheiro da lavanderia - há pilhas, toneladas mesmo de lençóis com cheiro de doença, de todas as doenças, de roupas pra lavar, todas manchadas de gotas de sangue de picanha, cerveja derrubada, chope entornado que escorreu pelo canto da boca, porra, azeite de dendê (o mesmo que eu senti logo cedo), chocolate, açaí, sangue de porrada na cara, sangue de menstruação - tudo que vai escorrer sabe-se lá por onde, desaparecer da frente - a gente só quer ver mesmo as coisas bonitas da cidade, a princesinha do mar, a garota de ipanema, as relíquias da cultura e da exuberância brasileira, deus abençoe esse país.

Mas o chão tem merda escorrida de todos os cachorros de todos os apartamentos, dos quais caem pontas de cigarro, que espalham fumaça e cinzas que posso sentir em todos os lugares - é em mim que reverberam os gritos da madrugada que ouvi durante o sono. Não acordei, mas registrei - foi aqui mesmo, na esquina, que a namorada apanhou do namorado embriagado, que o travesti prometeu fazer um escândalo, que o gringo deu um pega, que mijou o primeiro cachorro do dia, passeado do aposentado que fede a naftalina, porque não tem mais vida, porque não soube envelhecer trabalhando - única alternativa de longevidade no presente. Nem há mais passado, o futuro está encolhido, melhor não pensar nele.

Há lixo por toda a parte, ainda que não vejamos. Tento me acolher no perfume que carreguei no corpo pra fugir do monturo que há em mim, da esterqueira da rua - já levaram o lixo, mas ele ainda está lá. Vejo uma pessoa em trapos debaixo da marquise de um prédio de apartamentos da década de 50, se não for de antes. É um cagaçal - talvez não seja pessoa, os pés pretos, encastoados de piche, asfalto, merda, areia da praia e chão de bar. As unhas crescem - ouvi dizer de uns voluntários que cortam as unhas a essas pessoas. As barbas misturam-se às roupas surradas, há entre um moletom rasgado e um edredon do
Flamengo (ou será uma toalha de praia?) - um cachorro ali aninhado, que também aquece. Saltam-me as pulgas no corpo por instante, mas voltam atrás - Ele não dorme mais aqui, disseram. Apresso o passo.

A entrada do metrô me abre a boca de hálito quente: eu sei que há ratos ali, escondidos, que dançam à noite nas praças Lido e Serzedelo Correia, em baile perfumado, maldito, devorando o lixo, a merda, os restos, as pessoas. Pra que tanta chuva? Pra que tanto sol? Os dias são como os homens - não temos a medida, bravatamos a noite toda para podermos suportar o dia, em que nos encaramos uns aos outros no vagão que cheira a metal queimado, a jornal vagabundo e a perfumes de que abusamos pra disfarçar a decrepitude putrefacta de nós mesmos.  

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O demônio mora no aeroporto

Não gosto de aeroporto: tem cheiro de lugar limpo sempre, todo o dia, por seres sem vida, uniformizados anônimos misteriosos. Os olhos deles trabalhadores são brancos, os ouvidos eles tapam com protetores por causa do barulho. É de enlouquecer trabalhar no aeroporto: teve um sujeito, contam aqui, que disse à esposa, Prezada Cliente, a Varig convida a senhora passageira com destino à Rua da Consolação a partir desta para uma melhor, e assassinou a própria mulher, mutilando-a com o aviãozinho que recebera em miniatura, da companhia que falia, em que o sujeito trabalhava também - homens e coisas em falimento. É o que dizem.

Eu mesmo abandonei o emprego que me deram - não trabalhava em companhia, era atendente da livraria, bem jovem. Fiquei apenas seis meses, tempo que já deu pra ver que pra mim aquele lugar não servia. Foi minha avó quem pressagiou: No aeroporto mora o diabo. Eu sorri e não disse nada - queria dar o bote no emprego, minha passagem para os bairros mais próximos do Shopping Ibirapuera, tinha só quase esse naquele tempo. Hoje eu respeitaria mais - minha avó, minha mãe, os mais velhos. Meu pai jamais, que eu não conheci, nem conheço: minha mãe me chamou Josué. Era só um ônibus e eu chegava lá em uma hora; nos dias de sorte ou de feriado em vinte minutos.

Logo no primeiro dia - eu vi, e devida ter visto com olhos de ver. Uma senhora muito rica que esculachava um funcionário do aeroporto, no check-in, não posso dizer o motivo, porque eu mesmo não sei. Ela vestia quase nada, mas o pouco pano que a cobria brilhava muito - talvez ela não quisesse que olhassem pra ela de verdade. Gritava, a criança no carrinho de carregar malas olhava catatônica o auê que a mãe fazia, devia ter uns seis anos, pouco mais, quase sete. Tinham olhos de fogo, a mãe porque ia viajar, a criança porque estava contaminada da mãe. Nem deu tempo de impedir: a criança derrubou as malas do carrinho, arrastou-o com toda a força até o meio da área de circulação e começou a rodar em círculos, em rodamoinho, rodagigante - até cair no chão, convulsa, babando branco, ganindo sem sentido. Depois calou: cuspiu sangue e dentes, uma funcionária disse que a criança, que tinha carinha singela de menina, mas uns braços grosseiros de menino, quase rapaz, cuspiu um prego. Não vi, desviei o olhar - era meu primeiro dia de trabalho.

Mas a mulher e a criança tinham mesmo de cruzar o meu caminho, se não foi o inverso: eu é que me meti na vida delas, quando entraram na livraria. Não entendi: a criança não estava doente? perguntei sem pensar. A mãe olhou-me com olhos de ferro agora: acontecia sempre, não tinha de me preocupar. Não me preocupei: perguntei se a criança queria um gibi, uma revistinha, alguma coisa pra distrair. Mas temia: era menino ou menina o infante atrocíssimo? Se fosse possuído ali mesmo - eu ajudava? Ou era pra ficar longe? E morri pela boca, modo de dizer: que bonitim… e hesitei na pronúncia da terminação correta. Seguiu-se a demência: fui tomado da vontade de mentir, e acarinhei a criança, eu também em falimento de caráter que me denunciava.

A mulher agradou-se de mim naquela mesma hora. Elogiava a criança, contou-me avassalada, em menos de cinco minutos, detalhes da gravidez que eu não queria saber: ela desconhecia o pai, mas suspeitava de um ricaço do Leblon, exatamente aquele filho-da-puta que ela ia extorquir naquela viagem. O não-serzinho ouvia a mãe sem desgosto, era mesmo uma anulação, perdeu-se na estante de quadrinhos e livros de colorir. A mãe falava, e dizia, e acontecia, sem interrupção, e ia pedindo, Compro este? Sim, senhora, é muito bom - mas eu não tinha lido o livro - todas as fontes se misturavam, pareciam uma só, em letras invertidas, espelhadas, umas às outras. Agora a criança trazia nas mãos umas dez revistinhas, de personagens de deformadas nas capas, homens e mulheres de extremidades imensas, era desenho de criança aquilo?

Mais de trezentos reais, ou cruzados novos, ou cruzeiros: não me lembro bem qual era a moeda corrente no tempo daquela venda. Sei é que as minhas indicações - a cliente dissera ao gerente - tinham servido muito, O rapaz foi muito gentil, até meu filho gostou dele, não foi? E a criança agora sorria, mas tinha os olhos brancos, parecia que não ouvia, mas que completava uma tarefa obrigatória por ter ganhado as revistas. Foram-se embora a mãe e o menino de nem sei, de nem ser.

Em quinze dias, caí de febre. Em um mês de trabalho, ficava triste, não via o dia, passava-o todo indicando livros, lia os mais vendidos sobre vendas quando tinha pouca gente no aeroporto, foi ali que decidi fazer faculdade. Era o melhor vendedor da história da loja, sorrindo para as pessoas, tocando-lhes levemente os braços, se sentia que havia intimidade para tanto, em informalidade que obrigava qualquer um a levar pelo menos umas palavras-cruzadas: olhava nos olhos, mostrava os dentes em acolhimento e ameaça: eu tinha talento e sabia que todos ali tinham medo. Indicava os mesmos livros que empurrara para aquela mãe e para o filho dela, lia as revistas da semana e me informava dos lançamentos.  Em três meses, bati o recorde de vendas da loja e ocupei a vaga de gerente, porque meu antecessor havia adoecido, em Síndrome do Pânico brava. Em fins de outubro, ingressei no intensivão do cursinho e fui aprovado no vestibular do fim do ano - o Ano-Novo eu passei no aeroporto, olhando  passageiros e aviões. E vi, de passagem, a mãe, a criança e um homem, os três perdidos, pareciam embriagados: o casal exagerava as bravatas do Leblon e dos Jardins, o filho tinha nas mãos um vídeo-game, os olhos fixos na tela, magricela de tudo. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Ilha

Dos "Cadernos do Rio de Janeiro"

Do avião, eu vejo a ilha:
espaço mágico em que depositas todos os sonhos.
Mas no mundo real, aquela Ogígia queda,
bem como a suposta ninfa que a preside, onipotente,
porém muda, solitária, inabitada, seca, estéril:
Ulisses já partiu faz tempo
para a maravilha das coisas imperfeitas.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Ponte Aérea



(Dos "Cadernos do Rio de Janeiro", que estou preparando, dedicado aos amigos Marcello Bolzan e João Marcelo Souza)

Dispo-me agora frente ao detector de metais que
se funcionasse apitaria em silvo americanófilo:
Lá vai o Carlos, pseudocomunista, falso acadêmico,
farsa de carne e osso, que ninguém descobriu
porque ele deu sorte.

Mas não me barram: sigo adiante
no mundo estrangeiro da mercadoria,
alheio eu às marcas, que se agigantam,
alheio o mundo aos homens,
que se apequenaram, ou desapareceram,
ou zelam pelos relógios da vitrine.

Sento-me no sofá da sala VIP:
ali todos os homens são importantes –
eu também sou:
nossos nomes vão inscritos sob a insígnia
de um guerreiro clássico e plástico.

As notícias na tela da TV,
As partidas e as chegadas,
As telas de pequenos computadores –
todos os homens levam consigo o mundo
(ao menos o mundo deles próprios,
o que já é alguma coisa).
Eu fantasio que levo o Brasil na bolsa
na Antologia Poética de Drummond em livro,
na Obra Completa de Machado em PDF.

Embarco: é proibido sentar ao meu lado,
comprei mesmo a passagem que impede
a alguém que me faça companhia.
Tiro os sapatos: terei paz e algum silêncio
por quarenta preciosos minutos.
Não quero suco, nem água, nem barra de cereal,
e torço para a queda do avião
para que possa carbonizar-me silenciosamente
enquanto os outros passageiros e tripulantes gritarão
desesperados: ai, minha mãe! ai, meu pai!
Fecho os olhos, com a música no volume máximo.

Desperto: sobrevoo a Ilhabela com reverência,
Identifico as praias, trechos da estrada que beira ao mar,
(uma curva em que eu quase morri quando moço)
o hospital da Ilhabela, a Vila, sinto o Cheiro Verde,
e cruzo a Ilha em um olhar rumo a Castelhanos,
sem precisar de jipe: uma parte minha ficou lá,
quando pouco já bastava
– todo meu afeto eu deixo na Ilhabela.

(Eu programo no iPod a trilha sonora
da Trilogia das Cores: Home at Last
e sinto-me como se viajasse entre as bagagens
mas não há ninguém ao meu lado,
porque eu paguei pra ficar só)

Do Not Take Another Man’s Wife:
sobrevoo a Ilha Grande e procuro em vão
o presídio: não há nada lá.
Sob os escombros, posso ouvir os gritos dos homens
que pedem outra lápide, não esta, sobre seus corpos.
Não pedem perdão, porque sabem que erraram.
Não pedem oração, porque estão perdidos.
Não pedem epitáfio, porque não cometeram grandes feitos.
Pedem memória: basta-lhes o nome na pedra
para que possam ser chorados talvez pelas amantes,
talvez pelos filhos que deixaram.

A Valsa pra Lua, de Vítor Araújo,
demarca a areia delgada da Restinga do Marambaia,
praia em que quase ninguém pôs os pés,
quase só um traço de areia,
em interstício de lagoa e mar:
todos caminhamos ali,
sob o sol guascante que castiga os lombos
sob a tempestade tropical que enregela os ossos
sem que se possa saber onde começa o mar
e acaba o céu desabado sobre nós.

Vejo Rio de Janeiro: A Última Sessão
o Recreio, a Barra, o Engenhão e o Maracanã
(assim, um depois do outro,
e comprimo a sensação porque
dentro de instantes pousaremos
no Aeroporto Santos Dummont)
Vejo o Rio de Janeiro:
o Cristo, a Lagoa, o Pão de Açúcar
e me encanto de tudo,
esvai-se-me a sensação de propriedade
e abraço a cidade como se fosse minha.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Conto de Futebol

Gritaria interminável aqui no prédio: algum time carioca foi campeão. Não acompanho futebol – não porque o jogo em si me desagrade, mas tenho medo dos homens cegos pelo time, abraçados, urrando gratuitamente um hino de sons guturais, fogos de artifício, Vivas! Morras!, uma enfiada de impropérios, xingamentos, desejos de matar mesmo. Meu pai me chamava mesmo de maricas: português grosseirão, todo ele um lucro só, comerciante desde muito jovem, chegado ao Catete na década de 50, ele mesmo é que nos mandou, a meu irmão e a mim, para São Paulo: era para que estudássemos Direito no Largo, para sermos políticos. Se fosse em Portugal, ele dizia, nos mandaria a Coimbra estudar Economia ou Medicina. Era bravo, meu pai – e sabia aproveitar a vida, em bares, entre outras mulheres, uísque, charutos cubanos e carteado, tanto que era já quarentão quando foi pai pela primeira vez. E adorava futebol: ia ao Maracanã quase sempre que podia, não interessava quem jogasse. Se não podia ver o seu Porto do coração... ia assistir pelo menos ao espetáculo do futebol brasileiro. Viu Pelé, viu Garrincha. Meu pai acostumara-se ao Rio, como se fosse sua própria terra. Fugira de uma aldeia próxima de Braga, com minha mãe, escondidos os dois, às pressas, porque o pai dela não autorizava o namoro. Vieram pro Brasil fugidos. Acho que se deram bem, meus pais.

Ele tentara incutir em mim e no meu irmão o gosto pelo futebol que já trouxera de Portugal e que se tinha acentuado aqui no Brasil, país que ele adotara mesmo para si. Mas meu pai tinha emprestado dos canarinhos um jeito que me desagradava: quando ia me driblar, às vezes me empurrava, puxava-me a camisa se eu o desarmasse, não hesitava mesmo em dar carrinhos violentos. Eu gritava falta, mas ele e meu irmão riam e seguiam me fazendo de bobo, no bobinho – e era como se valesse a trapaça, mesmo entre nós, que éramos família. Eu acabava abandonando o jogo, porque eu não tinha tanto gosto assim pra bater bola, não queria ganhar, só queria me divertir com ele, só queria desfrutar do convívio com ele, que eu amava, apesar de temer, por causa dos repentes violentos que ele tinha quando bebia um pouco a mais. Também amava meu irmão mais novo, me sentia responsável por ele. Depois, quando mal entrávamos na adolescência, meu irmão brilhou no time de futebol do Santo Inácio, onde a gente estudava – meu pai teve orgulho. Não tive inveja porque meu irmão mais novo era mais bem quisto do que eu, tanto em casa quanto na escola, mas fiquei triste, porque o que o pessoal dizia era que o Quim, meu irmão, era mais esperto do que craque, fazia as catimbas de que o time precisava pra esfriar o moral do adversário quando este crescia na partida, ou provocava, sem o juiz ver, os jogadores da outra equipe pra provocar uma expulsão. Meu pai aplaudia. No colegial, ele mandou a gente pra São Paulo argumentando que o Rio estava um perigo e que o futuro estava na Avenida Paulista.

Estudei em São Paulo, mas frustrei um pouco as expectativas do homem: não fiz Direito, ao contrário do meu irmão, aluno primeiríssimo da São Francisco e destaque nos Jogos Jurídicos. Escolhi arquitetura, inspirado no Chico Buarque, meu ídolo, pelo qual eu aprendera a tocar violão. Acreditava que projetaria uma segunda Brasília, ainda mais ousada, ainda mais popular na concepção. As curvas de Niemeyer eram as curvas das mulheres que eu desejava, no Sujinho ou no Riviera. A gente fazia USP, meu irmão e eu, mas não saía da Consolação, depois beirava pras zonas da Augusta, porque morávamos no limite de Santa Cecília com Higienópolis, meio puteiro do centro, meio esnobagem de milionário – residíamos mesmo na corda bamba, entre as putas e as meninas da FAAP. Mas essa cidade de que me lembro nos escapou pelos dedos, acredito hoje. Tinha Cine Belas Artes, pegamos até um rescaldo de Woodstock na Consolação, Jungle na Wisard. Como morávamos sozinhos desde o primeiro colegial, meu irmão e eu fazíamos o que bem entendíamos – e cuidávamos um do outro. A diferença de idade era de pouco mais de um ano, e éramos bem próximos, porque os paulistanos nunca deixam de pegar no pé dos cariocas: a gente se protegia, ele cuidava mais de mim do que eu dele, porque ele sabia se impor. E a gente também se apaulistou. A cada período de férias, em que voltávamos ao Rio de Janeiro, meu pai resmungava que ficávamos cada vez mais paulistas, que não o abraçávamos mais, que estávamos frios feito pedra de gelo, especialmente meu irmão, Com ares de barão do café, quatrocentão bandeirante, meu pai agredia a família da namorada de meu irmão, riquíssima, família de juízes e desembargadores de antes do tempo do Rei. Não perdi a chance de dizer ao velho, em defesa do meu irmão, que beijar o próprio pai, a mim, parecia coisa de maricas – revanche que eu aguardara pacientemente desde muito tempo. Meu pai ficou mais sisudo e mastigou o bacalhau que a minha mãe preparara.

As mortes todas vieram depois: meu pai teve um câncer previsível no pulmão, o homem-chaminé. Foi um dia bonito no Catete, diversos comerciantes antigos do bairro acompanhando o rabecão até ao São João Batista, meu pai dormiria entre aqueles artistas e políticos todos. Minha mãe, que só vivia pra ele, morreu poucos meses depois – disseram que de desgosto, no apartamento antigo do Flamengo, de que eles não saíram nem amarrados, por mais que pudessem ir para o Leblon ou para os Jardins, no prédio em que meu irmão morava, já casado. Disseram que acontece bastante isso: morre um cônjuge, o outro perde a vontade de viver. Pusemos as cinzas dela ao lado do caixão de meu pai – ela pedira pra ser cremada.

E foi aí que começou o que eu quero te contar: o Quim ficou responsável pelo inventário que, se não era milionário, também não era de se deixar passar, havia principalmente os imóveis que meu pai acumulara ao longo da vida, coisa de português. Nada mais natural: meu irmão era advogado, entendia melhor os trâmites legais, acordamos que ele seria o inventariante e que eu não me preocupasse com nada. Em pouco tempo tudo estaria justamente dividido, rigorosamente metade pra cada um. Foi então que meu irmão mudou, nos meses seguintes: cada vez que eu perguntava a respeito do assunto, ele me dizia que eu não sabia as besteiras que meu pai tinha feito. Devia pro bicho? eu perguntei, porque sabia que meu pai jogava sempre, ainda antes de ficar velho acreditava que os sonhos lhe enviavam mensagens cifradas que ele tinha de desvendar – o inconsciente falava, ele dizia froideano. Mas meu irmão desviava do assunto e me pagava o almoço no Figueira ou no Rodeio, dizia que não me preocupasse com dinheiro nem com a burocracia toda, se eu precisasse de dinheiro que lhe pedisse. Eu até precisava, mas tinha vergonha de pedir: meu irmão mais novo já sócio no escritório do amigo do pai da moça, circulando de Cherokee, eu bolsista do CNPq, fazendo bico, pesquisando a obra de Niemeyer, apertado pra pagar as contas do apartamento da Santa Cecília sozinho. Mas foi a minha cunhada que pela primeira vez atendeu o telefone do meu irmão e disse que ele não podia me atender. Desde então, ele nunca mais pôde.

Quando saiu o inventário, meu irmão mandou o advogado dele me dizer que eu ficara com o apartamento do Flamengo, que estava fechado desde a morte de minha mãe, com uma dívida alta de IPTU, que eu assumi. Eu no fundo sabia que meu irmão estava me enganando, hoje eu sei, depois de tanta terapia e reunião: eu tinha assinado uma procuração de plenos poderes para ele. Mas eu não podia, não queria acreditar que ele me daria o chapéu – a gente era irmão, eu cuidava dele quando ele era pequeno, mas depois de um certo tempo eu é que dependia da assistência dele, arrumava as namoradas sempre na turma dele, tirava uma casquinha do prestígio que ele sempre tinha, o prestígio que ele tinha herdado do meu pai, aquele jeitão de conhecer as pessoas, de entrar nos lugares e ser notado por todo mundo, de atrair a atenção das mulheres, de sempre se dar bem no fim, a qualquer custo, que nunca parecia alto, que sempre parecia ter a leveza e a naturalidade do gesto que encantava as pessoas.

Gritaria interminável no prédio: vou andar na praia. Recuperei esse gosto que eu havia perdido, caminhar na praia, saio pelo Aterro aqui do Flamengo, vou até Botafogo. Mas hoje estou perdido, a confusão de fogos de artifício, a barulheira na cidade, a gritaria nos bares, as buzinas muitas. Pois sigo andando, atravesso Copacabana, alcanço o Arpoador e sigo: vou até o Leblon, com sorte encontro meu irmão, que comprou apartamento por lá, na General Urquiza, porque o filho da puta gosta de ficar perto do Marina. Se eu encontro ele, encho a cara de porrada. Mas é o fim da tarde e me encanto da paisagem – minha raiva não é real, nunca foi. Eu estou é decepcionado, mas sempre conheci a verdade. Às vezes eu não queria era ver. Mas o dia está tão bonito que perco a vontade de briga e aprecio a praia. É dia quente: na areia, joga-se de tudo. À minha direita, um casal jovem de namorados, ela e ele musculosos, os corpos definidos, atracam-se pelo chão, não em um beijo apaixonado, mas em treinamento de MMA, claramente definido pelas orientações que ele dá a ela. Assusto-me, porque suponho que qualquer um dos dois que se machuque pode brigar de verdade com o outro, mas a lógica entre eles parece diferente: a agressão é carinho e diverte. Mais à frente, adolescentes equilibram-se em cordas bambas, tesas entre palmeiras próximas, saltitam, cantam, divertem-se sem tocar o chão – engendram o impossível de flutuar por um instante, em naturalidade que encanta as meninas e os turistas que registram tudo avidamente. Desagrada-me a exibição gratuita, quase exótica, de uma habilidade acrobática para estrangeiros espalharem nas redes sociais, impressionados com o sorriso do menino pobre que se equilibra na corda e pede um real.

Abandono o espetáculo aborrecido e vislumbro a orla como um todo, mais amplamente, em perspectiva – é coberta de guarda-sóis, pouco se vê a areia. E além do vai e vem das ondas, percebo que a praia empresta vida dinâmica a milhares de bolas que saltavam daqui para lá, de um lado para o outro, em traçado elíptico ou circular, rotativo e translativo, diferente e idêntico às curvas de Niemeyer, entre redes de vôlei ou de futvôlei, de campos demarcados na areia, entre gols demarcados por chinelas, sob os olhos atentos dos estrangeiros.