Os acontecimentos de segunda à noite, em que as marchas tomaram as ruas do Brasil, foram tantos, às vezes tão dispersos e díspares entre si, e simultaneamente tão violentos e tão pacíficos - que a tendência natural é render-se a análises fáceis, a palavras de ordem supostamente "imparciais" e a mobilizações inoperantes ou acéfalas - que, no extremo, só servem ao inverso da proposta inicial, que está à esquerda da sociedade.
A maioria de nós esteve imersa (por mais ou menos tempo, pelos mais diversos motivos, com maior ou menor acomodação) na hipnose coletiva dos meios de comunicação de massa, durante muito tempo. Esse processo de cegueira, da mesma forma que qualquer estado da mente e da alma, não é superado de uma hora pra outra. Ninguém ama alguém subitamente, nem deixar de amar de uma hora pra outra. A dor do luto não passa em uma semana - às vezes nem em anos. Os olhos precisam de tempo para adaptar-se à luz de fora da caverna. Por isso, mesmo que estejamos convictos do propósito das marchas, podemos nos deixar abater por teorias da conspiração e pelo alarmismo gratuito, que em boa parte das vezes só resulta em pânico.
Insisto, por isso, no poder da reflexão e no da meditação.
Me parece, sempre sob o risco de errar feio, que refletir e meditar certamente são operações subjetivas que têm pontos de tangência e de intersecção. Os mais politizados têm larga experiência na reflexão, que entendo, grosso modo, como capacidade de análise para além dos fatos da mera aparência. A percepção, por exemplo, de que a ausência de repressão resultou em marcha pacífica na segunda-feira, em São Paulo, permite diversas análises, para além dessa constatação de primeira hora - que é real, mas que é ainda de superfície. É nossa capacidade de análise que nos leva, por exemplo, à conclusão de que indignação não é sinônimo de violência; que horizontalidade não quer dizer despolitização; e que pedir "sem partido" é uma forma, revestida da pretensão de paz, de politizar às avessas, parecendo alcançar uma unanimidade que é, mais uma vez, política - e corresponde aos interesses inversos das marchas, interesses conservadores a que o caos serve.
As operações de reflexão são mais complexas do que quer o estado quase permanente de imobilidade e de passividade. Pensar não é difícil, produzir análises coerentes não é pra poucos, como quer o senso comum - mas requer exercício que não costumamos fazer. E é preciso fazê-lo sempre, e o momento para fazê-lo é agora, sem se deixar levar pelo medo - consequência direta do desconhecimento. Mesmo os mais politizados talvez não tenham experimentado ainda o inverso da apatia do cotidiano, isto é, o estado permanente de radicalidade presente, que nos abre a todos paisagens desconhecidas - que sempre assustam. Por isso, mesmo as melhores lideranças progressistas podem equivocar-se nas postagens inflamadas do facebook, nas declarações públicas e nas entrevistas. É preciso corrigi-las oportunamente, porque radicalidade e horizontalidade pressupõem o processo de tentativa e de erro. Sem esse pressuposto, voltamos atrás, para dizer o mínimo.
Mas é evidente que um histórico reflexivo impõe racionalidade equilibrada, mesmo nas horas mais nervosas. Confesso que me impressionei muito positivamente com o temperamento equilibrado dos líderes do Movimento Passe Livre no Roda Viva: lá estão dois jovens cuja reflexão e formação anteriores ao calor da hora deu-lhes o pleno equilíbrio frente às câmeras e ao conservadorismo violento de pelo menos dois entrevistadores.
Quanto às operações da meditação, tomo-as aqui no sentido mais dilatado que o leitor conseguir supor - pra afastar o vocábulo meditação do campo da religião, tanto quanto for possível. A meditação é associada às atividades da mente, mas as transcende: encaminha-se no sentido do espírito, aqui também tomado de forma ampla, para poder abarcar desde os ateus até aos mais espiritualizados, sejam da religião que forem. Quero dizer com isso o seguinte: é mais do que hora de trazer para a análise essa dimensão, que existe, mas que é ainda muito ignorada quando se trata de questões políticas. Se ignorarmos que o estado de espírito das pessoas contribui para a violência ou para a paz, estaremos negligenciando um dado fundamental. A disposição para a brutalidade ou para o diálogo também passa por essa variável - normalmente desconsiderada.
Não me estendo no que se refere ao espírito e à meditação: estou aberto para debater a convicção de que um estado de espírito equilibrado conduz a uma reflexão de alcance maior, na mesma medida em que permite maior comedimento nas decisões tomadas no calor da hora. Talvez seja a hora, por exemplo, de investigar semelhanças entre o que se costuma chamar de ideologia, no sentido marxista, e samsara, do budismo tibetano. Quando gritamos "sem violência", mas partimos para o enfrentamento político (porque o é, por mais que muitos gritem "sem partido" querendo dizer "sem politização"), então é o diálogo que está no centro da proposta. Toda a experiência brasileira, entretanto, não foi de diálogo, mas de violência: eis o desafio. Para encará-lo, temos à disposição as armas da reflexão e da meditação. Pois aprendamos a usá-las.
A maioria de nós esteve imersa (por mais ou menos tempo, pelos mais diversos motivos, com maior ou menor acomodação) na hipnose coletiva dos meios de comunicação de massa, durante muito tempo. Esse processo de cegueira, da mesma forma que qualquer estado da mente e da alma, não é superado de uma hora pra outra. Ninguém ama alguém subitamente, nem deixar de amar de uma hora pra outra. A dor do luto não passa em uma semana - às vezes nem em anos. Os olhos precisam de tempo para adaptar-se à luz de fora da caverna. Por isso, mesmo que estejamos convictos do propósito das marchas, podemos nos deixar abater por teorias da conspiração e pelo alarmismo gratuito, que em boa parte das vezes só resulta em pânico.
Insisto, por isso, no poder da reflexão e no da meditação.
Me parece, sempre sob o risco de errar feio, que refletir e meditar certamente são operações subjetivas que têm pontos de tangência e de intersecção. Os mais politizados têm larga experiência na reflexão, que entendo, grosso modo, como capacidade de análise para além dos fatos da mera aparência. A percepção, por exemplo, de que a ausência de repressão resultou em marcha pacífica na segunda-feira, em São Paulo, permite diversas análises, para além dessa constatação de primeira hora - que é real, mas que é ainda de superfície. É nossa capacidade de análise que nos leva, por exemplo, à conclusão de que indignação não é sinônimo de violência; que horizontalidade não quer dizer despolitização; e que pedir "sem partido" é uma forma, revestida da pretensão de paz, de politizar às avessas, parecendo alcançar uma unanimidade que é, mais uma vez, política - e corresponde aos interesses inversos das marchas, interesses conservadores a que o caos serve.
As operações de reflexão são mais complexas do que quer o estado quase permanente de imobilidade e de passividade. Pensar não é difícil, produzir análises coerentes não é pra poucos, como quer o senso comum - mas requer exercício que não costumamos fazer. E é preciso fazê-lo sempre, e o momento para fazê-lo é agora, sem se deixar levar pelo medo - consequência direta do desconhecimento. Mesmo os mais politizados talvez não tenham experimentado ainda o inverso da apatia do cotidiano, isto é, o estado permanente de radicalidade presente, que nos abre a todos paisagens desconhecidas - que sempre assustam. Por isso, mesmo as melhores lideranças progressistas podem equivocar-se nas postagens inflamadas do facebook, nas declarações públicas e nas entrevistas. É preciso corrigi-las oportunamente, porque radicalidade e horizontalidade pressupõem o processo de tentativa e de erro. Sem esse pressuposto, voltamos atrás, para dizer o mínimo.
Mas é evidente que um histórico reflexivo impõe racionalidade equilibrada, mesmo nas horas mais nervosas. Confesso que me impressionei muito positivamente com o temperamento equilibrado dos líderes do Movimento Passe Livre no Roda Viva: lá estão dois jovens cuja reflexão e formação anteriores ao calor da hora deu-lhes o pleno equilíbrio frente às câmeras e ao conservadorismo violento de pelo menos dois entrevistadores.
Quanto às operações da meditação, tomo-as aqui no sentido mais dilatado que o leitor conseguir supor - pra afastar o vocábulo meditação do campo da religião, tanto quanto for possível. A meditação é associada às atividades da mente, mas as transcende: encaminha-se no sentido do espírito, aqui também tomado de forma ampla, para poder abarcar desde os ateus até aos mais espiritualizados, sejam da religião que forem. Quero dizer com isso o seguinte: é mais do que hora de trazer para a análise essa dimensão, que existe, mas que é ainda muito ignorada quando se trata de questões políticas. Se ignorarmos que o estado de espírito das pessoas contribui para a violência ou para a paz, estaremos negligenciando um dado fundamental. A disposição para a brutalidade ou para o diálogo também passa por essa variável - normalmente desconsiderada.
Não me estendo no que se refere ao espírito e à meditação: estou aberto para debater a convicção de que um estado de espírito equilibrado conduz a uma reflexão de alcance maior, na mesma medida em que permite maior comedimento nas decisões tomadas no calor da hora. Talvez seja a hora, por exemplo, de investigar semelhanças entre o que se costuma chamar de ideologia, no sentido marxista, e samsara, do budismo tibetano. Quando gritamos "sem violência", mas partimos para o enfrentamento político (porque o é, por mais que muitos gritem "sem partido" querendo dizer "sem politização"), então é o diálogo que está no centro da proposta. Toda a experiência brasileira, entretanto, não foi de diálogo, mas de violência: eis o desafio. Para encará-lo, temos à disposição as armas da reflexão e da meditação. Pois aprendamos a usá-las.